Estados Unidos x Brasil

Lula prepara resposta contra os EUA após Trump revogar visto da embaixadora brasileira

Governo Lula avalia aplicar princípio da reciprocidade em meio ao agravamento da crise diplomática com a gestão Donald Trump

Lula prepara resposta contra os EUA após Trump revogar visto da embaixadora brasileira
Lula estuda aplicar lei da reciprocidade após EUA revogarem visto de embaixadora brasileira Crédito: Daniel Torok/The White House

A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nesta semana. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a avaliar medidas de reciprocidade após os Estados Unidos revogarem o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi comunicada pela gestão do presidente Donald Trump e provocou reação imediata do Palácio do Planalto, que classificou a justificativa apresentada por Washington como falsa e incompatível com a tradição de respeito nas relações entre os dois países. A informação já havia sido antecipada pelo Correio da Manhã, pelo colunista Paulo Cappelli

A possibilidade de uma resposta oficial será discutida pelo governo brasileiro nesta quarta-feira (5). Entre as alternativas analisadas está a adoção de uma medida equivalente à aplicada pelos Estados Unidos, seguindo o princípio da reciprocidade, mecanismo previsto na prática diplomática internacional quando um país decide restringir benefícios ou prerrogativas concedidas à representação estrangeira.

Segundo o Departamento de Estado americano, a revogação do visto ocorreu porque o governo brasileiro ainda não concedeu o agrément, autorização formal necessária para que o diplomata Daniel Perez assuma o comando da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília. A administração Trump também cita dificuldades enfrentadas por diplomatas americanos na obtenção de vistos para atuar no Brasil.

Embora tenha perdido o visto, Maria Luiza Ribeiro Viotti não precisará deixar os Estados Unidos. Como já está em território americano, ela poderá continuar exercendo suas funções diplomáticas em Washington. A principal consequência prática é que, caso deixe o país, não poderá retornar utilizando o mesmo documento, o que restringe sua mobilidade enquanto a situação permanecer sem solução.

Governo estuda qual será a resposta

A discussão dentro do governo federal não se limita à área diplomática. Integrantes do Planalto avaliam qual medida teria efeito equivalente ao gesto adotado pelos Estados Unidos sem provocar um agravamento ainda maior da crise entre os dois países.

Uma das dificuldades é que os norte-americanos estão sem um embaixador oficialmente nomeado no Brasil. Atualmente, a representação dos EUA é exercida pela encarregada de negócios interina, Kimberly Kelly, função que possui atribuições diplomáticas mais limitadas do que a de um embaixador.

Diante desse cenário, o governo também analisa alternativas que possam ser consideradas proporcionais, ainda que não envolvam necessariamente a revogação de vistos.

Itamaraty contesta versão dos Estados Unidos

Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores rejeitou a justificativa apresentada pelo governo americano para revogar o visto da diplomata brasileira.

O Itamaraty afirmou que os argumentos utilizados por Washington não correspondem aos fatos e classificou a decisão como parte de uma sequência de iniciativas motivadas por razões ideológicas, incompatíveis com a parceria construída entre Brasil e Estados Unidos ao longo das últimas décadas.

Nos bastidores, integrantes do governo avaliam que a medida também possui forte componente político e reforça o momento de desgaste nas relações bilaterais.

Crise se soma a outros atritos recentes

O episódio ocorre em um momento de crescente tensão entre Brasília e Washington. Nas últimas semanas, os dois governos já haviam trocado críticas em temas relacionados ao comércio internacional, às tarifas impostas sobre produtos brasileiros e à condução das relações diplomáticas.

A revogação do visto de uma embaixadora é considerada um gesto incomum entre países que mantêm relações diplomáticas formais e amplia a percepção de deterioração no diálogo entre as duas nações.