Internacional

Europa elogia Espanha, mas teme programa de regularização de imigrantes

Ponto de divergência entre países, iniciativa não foi tratada em reunião

Europa elogia Espanha, mas teme programa de regularização de imigrantes
Daniel Perez é presidente da Câmara da Flórida Crédito: Divulgação/Florida House of Representatives

A reunião de emergência dos países-membros da União Europeia sobre a crise em Ceuta deveria encerrar com uma mensagem de solidariedade à Espanha, na terça (4). Ela veio, mas com um recado sobre a política de regularização de imigrantes do país. "Não é um bom sinal para o resto da Europa", declarou Magnus Brünner, chefe de imigração do bloco.

"Entendo que a Espanha fez isso porque se trata, principalmente, de latino-americanos que falam a mesma língua e compartilham a mesma cultura. Mas o recado para o resto da Europa não é nada bom. Definitivamente, não é", disse o representante da Comissão Europeia quase ao fim da entrevista que concedeu em Bruxelas após o encontro.

Até então, Brünner tinha tomado cuidado com as declarações, evitando qualquer tipo de endosso ou crítica à ofensiva capitaneada por Itália e Dinamarca contra a iniciativa do governo Pedro Sánchez. Segundo o comissário, o assunto nem foi abordado durante a reunião, realizada por videoconferência.

Só que, nas entrelinhas de uma carta assinada por 22 países no fim de semana, a crise no exclave espanhol no norte da África era consequência direta do propalado estímulo à imigração ilegal, produzido pela política do líder socialista, exceção na Europa.

O programa espanhol, anunciado no primeiro semestre deste ano e que já recebeu mais de um milhão de inscrições, regulariza apenas residência, não cidadania, como chegou a sugerir Antonio Tajani, ministro das Relações Exteriores da Itália, na esteira do ocorrido. Madri convocou o embaixador italiano após a postagem, uma forma de reprimenda na linguagem diplomática.

A regularização também não contempla imigrantes irregulares, que chegaram sem visto à Espanha. Nenhuma explicação, porém, ameniza o fato de que a política de Sánchez para fazer frente à falta de mão de obra e à crise demográfica, dois fantasmas europeus, vai de encontro aos limites do próprio continente sobre o tema.

Apenas Irlanda, que exerce a presidência temporária da UE, França, Portugal e Luxemburgo não assinaram o manifesto do fim de semana. No fim das contas, a Espanha pode ter tido um comportamento exemplar na crise, como Brünner ressaltou mais de uma vez em suas explicações, mas continuará servindo de argumento para o recrudescimento das políticas imigratórias do bloco.

A legislação recém-aprovada permitirá a criação de "centros de retorno" fora das fronteiras da UE, assim como a designação de países terceiros seguros: locais que aceitem receber imigrantes deportados de outras nacionalidades ou que os abriguem durante o processo de concessão de asilo.