Cinema

Cannes com entrada à francesa

'La Vénus Électrique' renova uma tradição assumida pela França desde a pandemia de abrir o mais prestigiado festival do mundo com sua prata da casa, consagrando sua vozes autorais

Cannes com entrada à francesa
Anaïs Demoustier em 'La Vénus Électrique', longa de abertura do festival de 2026 Crédito: Divulgação

Desde a pandemia, quando o musical "Annette", de Leos Carax, abriu o Festival de Cannes de 2021, diante de uma plateia mascarada, separada pelos códigos do distanciamento social, a França tomou para si a tarefa de abrir seu maior (e mais pomposo) evento cinematográfico, de modo a estampar sua saúde criativa no audiovisual para o mundo. Teve até ganhador de Oscar nessa função: Michel Hazanavicius (de "O Artista"). Ele inaugurou a programação de 2002 com "Corta!" ("Coupez!", uma comédia de zumbis.

Esse trabalho, em 2026, foi confiado ao diretor Pierre Salvadori, com a comédia em clima (e graça) de vaudeville "La Vénus Électrique", exibida na última terça-feira. Foi uma consagração para sua estrela, a atriz Anaïs Demoustier, que esteve no fenômeno de bilheteria "O Conde de Monte Cristo", em 2024. Em meio ao que se viu no abre-alas do evento, desde o cult de Carax, hoje na MUBI, a prata da casa fez jus a seu brilho. É um potencial sucesso.

Salvadori, um prolífico roteirista nascido na Tunísia, ficou conhecido entre as plateias do Brasil com "Uma Doce Mentira" (2010) e "Em Um Pátio De Paris" (2014). Em "La Vénus Électrique", ele nos leva até a Paris de 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro (Pio Marmaï) lamenta a morte de sua esposa Irène, pela qual se culpa e que o fez perder a motivação para pintar. Refém do álcool, ele tenta entrar em contato com a esposa por meio de uma médium certa noite. Uma jovem trabalhadora de parque de diversões chamada Suzanne (Anaïs Demoustier), que havia entrado furtivamente no trailer apenas para roubar comida, finge ser uma clarividente para Antoine. O negociante de arte do artista, o marchand Armand (Gilles Lellouche), está desesperado para que seu cliente continue pintando, então convence Suzanne a manter a farsa em troca do pagamento de suas dívidas. Ela começa a encenar sessões espíritas improvisadas para Antoine, nas quais finge canalizar Irène. À medida que Antoine melhora gradualmente, Suzanne se vê se apaixonada pelo homem que está manipulando. Anaïs apaixonou a Croisette inteira com o seu jeitinho sagaz de atuar.

Em 2025, o longa de abertura de Cannes foi "O Segredo Da Chef" ("Partir Un Jour"), de Amélie Bonnin, projetado entre nós no Festival de de Cinema Francês do Brasil ( oex-Varilux), em novembro. Essa delicinha musical foge dos códigos da Broadway. Nele, uma chef que bomba em reality shows de culinária, a bem-sucedida cozinheira Cécile Béguin (papel de Juliette Armanet), precisa voltar à cidade natal para ajudar o pai e reencontra o crush dos tempos de escola cheio de amor pra dar. O problema: ela está grávida de seu namorado. O enredo cheio de viradas afetivas ajudou a fita a vender 651 mil ingressos na França.

Em 2024, a abertura de Cannes foi feita pelo pavoroso "O Segundo Ato", de Quentin Dupieux, e em 2023, essa atribuição coube ao belo "A Favorita do Rei", de Maïwenn, com Johnny Depp.

 

Caindo na real com Alain Cavalier

Caindo na real com Alain Cavalier
O nonagenário Alain Cavalier volta a Cannes pela Quinzena dos Cineastas Crédito: Festival de LaRochelle/Divulgação

Nesta quinta-feira (14), Cannes tem um compromisso semiológico com o real, numa mistura de ensaio, documentário, diário filmado e fabulação chamada "Merci d'Être Venu" (título literalmente traduzível como "Obrigado Por Ter Vindo"), cujo diretor é um patrimônio (hoje nonagenário) do cinema francês: Alain Cavalier.

Na ativa desde 1958, quando dirigiu "Um Américain", o realizador de 94 anos bagunça fronteiras formais em sua nova produção, convocada para a Quinzena de Cineastas.

Ele atribui o projeto a um empurrãozinho afetivo do produtor Michel Seydoux, com quem trabalha há quarenta anos. "Ele me obrigou a concluir a organização cinematográfica dos meus últimos desejos de filmar. Tendo alcançado, dizem, uma doce serenidade, será que posso pedir a ele que não me transmita as eventuais críticas sobre o filme?", questiona o realizador, na sinopse desse longa, que pode se tornar seu trabalho de maior relevância desde "Pater", que concorreu à Palma de Ouro de 2011, subvertendo as regras do que é vivido e do que é encenado.

Historicamente, seu longa mais consagrado é "Thérèse", que ganhou o Prêmio do Júri de Cannes em 1986. (R. F.)