Desde a pandemia, quando o musical "Annette", de Leos Carax, abriu o Festival de Cannes de 2021, diante de uma plateia mascarada, separada pelos códigos do distanciamento social, a França tomou para si a tarefa de abrir seu maior (e mais pomposo) evento cinematográfico, de modo a estampar sua saúde criativa no audiovisual para o mundo. Teve até ganhador de Oscar nessa função: Michel Hazanavicius (de "O Artista"). Ele inaugurou a programação de 2002 com "Corta!" ("Coupez!", uma comédia de zumbis.
Esse trabalho, em 2026, foi confiado ao diretor Pierre Salvadori, com a comédia em clima (e graça) de vaudeville "La Vénus Électrique", exibida na última terça-feira. Foi uma consagração para sua estrela, a atriz Anaïs Demoustier, que esteve no fenômeno de bilheteria "O Conde de Monte Cristo", em 2024. Em meio ao que se viu no abre-alas do evento, desde o cult de Carax, hoje na MUBI, a prata da casa fez jus a seu brilho. É um potencial sucesso.
Salvadori, um prolífico roteirista nascido na Tunísia, ficou conhecido entre as plateias do Brasil com "Uma Doce Mentira" (2010) e "Em Um Pátio De Paris" (2014). Em "La Vénus Électrique", ele nos leva até a Paris de 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro (Pio Marmaï) lamenta a morte de sua esposa Irène, pela qual se culpa e que o fez perder a motivação para pintar. Refém do álcool, ele tenta entrar em contato com a esposa por meio de uma médium certa noite. Uma jovem trabalhadora de parque de diversões chamada Suzanne (Anaïs Demoustier), que havia entrado furtivamente no trailer apenas para roubar comida, finge ser uma clarividente para Antoine. O negociante de arte do artista, o marchand Armand (Gilles Lellouche), está desesperado para que seu cliente continue pintando, então convence Suzanne a manter a farsa em troca do pagamento de suas dívidas. Ela começa a encenar sessões espíritas improvisadas para Antoine, nas quais finge canalizar Irène. À medida que Antoine melhora gradualmente, Suzanne se vê se apaixonada pelo homem que está manipulando. Anaïs apaixonou a Croisette inteira com o seu jeitinho sagaz de atuar.
Em 2025, o longa de abertura de Cannes foi "O Segredo Da Chef" ("Partir Un Jour"), de Amélie Bonnin, projetado entre nós no Festival de de Cinema Francês do Brasil ( oex-Varilux), em novembro. Essa delicinha musical foge dos códigos da Broadway. Nele, uma chef que bomba em reality shows de culinária, a bem-sucedida cozinheira Cécile Béguin (papel de Juliette Armanet), precisa voltar à cidade natal para ajudar o pai e reencontra o crush dos tempos de escola cheio de amor pra dar. O problema: ela está grávida de seu namorado. O enredo cheio de viradas afetivas ajudou a fita a vender 651 mil ingressos na França.
Em 2024, a abertura de Cannes foi feita pelo pavoroso "O Segundo Ato", de Quentin Dupieux, e em 2023, essa atribuição coube ao belo "A Favorita do Rei", de Maïwenn, com Johnny Depp.