Nesta terça-feira em que prestou um serviço inestimável à comédia, ao abrir o 79º Festival de Cannes com uma prova do quão vivo esse gênero (hoje tão patrulhado) está, o vaudeville “La Vénus Électique” bate ponto no circuito comercial das demais cidades da França... e chega com fome de milhões. Quer fazer jus à tradição das narrativas cômicas de sua pátria, famosas por quebrar recordes antes só transpostos por Hollywood, vide “A Riviera Não É Aqui” (2008), vista por 20.000.000 de pagantes. Não se compara essa neochanchada bem tosca de Dany Boon, lá dos anos 2000, com o mimo presenteado ao Palais des Festivais esta noite pelo diretor Pierre Salvadori. O longa-metragem de abertura de trabalhos na Croisette, em 2026, é um bombom Sonho de Valsa daqueles com açúcar na medida, para evitar enjoos. É formatado para resultar bem no gosto do público dos Estações da vida, sem nenhuma invenção, mas cheio de nostalgia. Pensa-se um bocado no prestidigitador e mágico Georges Méliès (1861-1938), um dos inventores da linguagem audiovisual, diante do que se vê.
Seu maior trunfo é sua estrela, Anaïs Demoustier, que esteve no fenômeno de bilheteria “O Conde de Monte Cristo”, em 2024. Não há um só gesto que ela erre, na intenção de criar uma Gelsomina (a personagem de Giulietta Masina em “La Strada”, de Fellini) do século XXI.
Salvadori, um prolífico roteirista nascido na Tunísia, ficou conhecido entre as plateias do Brasil com “Uma Doce Mentira” (2010) e “Em Um Pátio De Paris” (2014). Audrey Tautou era sua atriz de maior recorrência, mas, em “La Vénus Électrique”, Anaïs é a nova Amélie Poulain. Nesse longa, ele nos leva até a Paris de 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro (Pio Marmaï) lamenta a morte de sua esposa Irène, pela qual se culpa e que o fez perder a motivação para pintar. Refém do álcool, ele tenta entrar em contato com a esposa por meio de uma médium certa noite. Uma jovem trabalhadora de parque de diversões chamada Suzanne (Anaïs), que havia entrado furtivamente no trailer apenas para roubar comida, finge ser uma clarividente para Antoine. O negociante de arte do artista, o marchand Armand (Gilles Lellouche, imbatível em cena), está desesperado para que seu cliente continue pintando, então convence Suzanne a manter a farsa em troca do pagamento de suas dívidas. Ela começa a encenar sessões espíritas improvisadas para Antoine, nas quais finge canalizar Irène. À medida que Antoine melhora gradualmente, Suzanne se vê se apaixonada pelo homem que está manipulando.
Anaïs apaixonou a Croisette inteira com o seu jeitinho sagaz de atuar. Só não brilhou mais do que a estonteante direção de arte de Angelo Zamparutti, regada a um colorido febril. Só a engenhoca elétrica com que Suzanne trabalha, usando raios para amplificar seus beijos, já basta para celebrizar o trabalho desse design de cena.
Cannes conferiu “La Vénus Électrique” depois de prestigiar uma homenagem a Peter Jackson, que recebeu a Palma de Ouro honorária das mãos de Elijah Wood, com quem rodou a trilogia “O Senhor do Anéis” (2001-2003). O ator comoveu o balneário com lembranças de seu contato inicial com o Spielberg da Nova Zelândia, hoje mais dedicado a documentários. O festival segue até o dia 23. A competição oficial será iniciada neste quarta-feira, com “Nagi Notes”, de Koji Fukada, e “La Vie d’une Femme”, de Charline Bourgeois-Tacquet.