Ao assumir seu posto no júri de Cannes, sob a presidência do sul-coreano Park Chan-wook, Demi Gene Moore terá o gostinho de saborear a cidade onde sua carreira renasceu. Aos 63 anos, envolvida na série da Paramount "Landman", a atriz só fez colecionar aplausos e elogios desde que "A Substância" ("The Substance") - hoje na MUBI - passou pela Croisette, em meio de 2024, em competição. Saiu de lá com o prêmio de Melhor Roteiro. Nos meses seguintes, deu à sua estrela um Globo de Ouro e uma indicação ao Oscar. É o trabalho de maior destaque de sua carreira em décadas. É um dos filmes de gênero de maior impacto social da década.
Ao justificar os atrativos do script escrito pela cineasta Coralie Fargeat que a levaram, então com 61 anos, a participar de um projeto sobre decadência (profissional, física e moral), Demi cita o desejo de aceitação que rege a sociedade do espetáculo:
"É uma história que me fez celebrar o que sou e fugir do que não sou, ao explorar a sensação de envelhecer e mostrar como podem ser diferentes as formas de as pessoas olharem para si", disse a estrela de "Ghost - Do Outro Lado Da Vida" (1990) em entrevista via Zoom, promovida pela organização de correspondentes de imprensa estrangeira por trás do troféu Globo de Ouro, para a qual o Correio da Manhã foi convidada. "Fiquei assustada ao ler o projeto e ele me tirou da zona de conforto".
Desde "Até O Limite Da Honra" (1997), Demi não conseguia um papel que mexesse tanto com as plateias quanto a protagonista de "A Substância". A figura emocionalmente destroçada da musa fitness Elisabeth Sparkle devolveu a ela o prestígio popular - tamanho GG - de que desfrutou nos anos 1980 e 90. Em maio, esse body horror de Coralie (cineasta francesa antes conhecida pelo thriller "Vingança") fez sua primeira projeção pública, na telona do Festival de Cannes, e lá botou a Europa no bolso, saindo da Croisette com o prêmio de Melhor Roteiro. Desde então, a produção, orçada em US$ 17,5 milhões, faturou US$ 77 milhões em circuito exibidor, e ampliou a audiência da plataforma MUBI.
"Vejo que 'A Substância' virou uma experiência cinéfila de tela grande, com gente que vê o filme duas, três vezes", diz a atriz, que assumiu uma luta afetiva em prol de seu ex-marido, o ator Bruce Willis, sumido das telas depois do diagnóstico de afasia.
Na mesma coletiva digital, Coralie explicou ao Correio que não esperava a adesão de Moore quando enviou o roteiro a seus agentes, acreditando que Demi era um nome grande demais para uma empreitada independente. A qualidade de sua escrita seduziu-a.
"É bom ver que 'A Substância' mobiliza um público feminino que não costuma ser muito aberto ao terror", disse a cineasta.
Com destreza invejável, Coralie narra a bizarra metamorfose por que Sparkle passa ao aceitar se submeter a um experimento. Ao ser desligada da emissora onde brilhava num programa de aeróbica, a mando de um executivo de hábitos grotescos (Dennis Quaid, hilário em cena), ela recebe um convite para provar de uma fórmula sintética capaz de rejuvenescê-la. Sem nada a perder, Sparkle prova do tal líquido (injetável) e passa por uma dolorosa mutação que a torna uma moça bem jovem. Essa figura, vivida pela ótima Margaret Qualley (de "Stars At Noon" e da série "Maid"), ganha o nome de Sue.
A exuberância em seu olhar e sua fluidez na ginástica fazem dela uma coqueluche midiática, tomando o posto que era de Sparkle. As duas deveriam ser uma só, mas elas acabam por desenvolver personalidades (e vontades) distintas, numa fratura de psique. É Médica e Monstra, Dra. Jekyll e Mrs. Hyde.
"Tudo era muito seco nesse enredo, que aborda o anseio que temos por amor, pela aceitação do próximo", diz Demi. "É um olhar sobre profundidades e superficialidades".
A rachadura entre Sparkle e Sue é parte de uma contraindicação do tal soro de "A Substância". O certo era que elas trocassem de lugar, sempre, a cada sete dias, injetando-se novas doses. Se essa exigência de data não é cumprida, efeitos nefastos ocorrem. O mais simples deles é o aumento da agonia no processo de morfismo delas e o apodrecimento de extremidades, a começar pelos dedos da mão. Há consequências mais graves, como a escassez gradual da lucidez e a aparição de sequelas físicas, com marcas, pústulas, queda de dentes e outros tipos de mutações que caminham para a monstruosidade. Assim, o que começa como um tenso estudo filosófico da vaidade descamba (com vigor) para um terror acelerado, numa metáfora para as criaturas que brotam das faltas de limite no hedonismo nosso de cada dia.
"Busquei criar uma experiência visual para as transformações corporais que fosse calcada na imagem e no som, sem palavras", diz Coralie ao Correio. "O maior desafio era encontrar atrizes icônicas que topassem enfrentar a fobia de ficar decadente. Trouxe referências de 'A Mosca', de 'Scanners', de 'Réquiem Por Um Sonho', de 'O Enigma Do Outro Mundo', e o banho de sangue de 'Carrie, A Estranha'. Enquadro toda hora corredores intermináveis, para transmitir a sensação de um ambiente do qual não se pode fugir".
Graças a esses engenhos narrativos, "A Substância" renovou os laços de Cannes com a indústria ao provar seu papel de recauchutar carreiras. Além de Demi e de Chan-wook, fazem parte do júri de Cannes a cineasta belga Laura Wandel e a diretora chinesa Chloé Zhao, o realizador do Chile Diego Céspedes, a atriz etíope-irlandesa Ruth Negga, o ator da Costa do Marfim Isaach de Bankolé, o roteirista escocês Paul Laverty e o ator sueco Stellan Skarsgård.