Se por um lado... o latino-americano... falta brasilidade a Cannes este ano, sem ter joias como "O Agente Secreto no páreo, por outro, o da perspectiva chilena, a 79ª edição do festival de mais prestígio no cinema é uma festa. Tem "La Perra", de Dominga Sotomayor, na Quinzena de Cineastas, com Selton Mello no elenco e Rodrigo Teixeira na produção. Tem "El Deshielo", com direção da atriz e cineasta Manuela Martelli, concorrendo na vitrine Un Certain Regard. E tem, no júri da Palma de Ouro, um jovem talento que redefiniu a ousadia do Chile nas telas: Diego Céspedes.
Há um ano, ele botou a Croisette no bolso com "O Olhar Misterioso do Flamingo", que hoje percorre as salas do Brasil, sob distribuição da Imovision. E o time de juradas e jurados ao lado dele é dos mais respeitados, a começar pelo presidente de tal esquadra, Park Chan-wook, diretor sul-coreano consagrado com "OldBoy" (2004).
Juntam-se a eles a cineasta belga Laura Wandel e a diretora chinesa Chloé Zhao, o ator da Costa do Marfim Isaach de Bankolé, o roteirista escocês Paul Laverty, a diva americana Demi Moore, a atriz etíope-irlandesa Ruth Negga e o ator sueco Stellan Skarsgård. Céspedes é o mais moço. Tem 31 anos e já passou pelo Brasil um par de vezes com o longa que hoje o consagra.
"O cinema chileno foi contado sobretudo pela classe alta", diz Céspedes por Zoom ao Correio.
Interseção rara de ternura e ressaca, "O Olhar Misterioso do Flamingo" rendeu a seu país uma das vitórias mais expressivas da sua cinematografia além-fronteiras: a conquista do Prix Un Certain Regard, distinção atribuída pela secção paralela do Festival de Cannes. O Brasil conhece bem esse território, graças ao triunfo de Karim Aïnouz com "A Vida Invisível", em 2019. A aproximação entre as duas obras faz sentido: ambas encontram no melodrama um espaço de resistência afetiva, usando a emoção não como excesso, mas como ferramenta política e humanista. Céspedes, estreante nos longas-metragens depois dos curtas "Las Criaturas Que Se Derriten Bajo El Sol" e "El Verano Del Léon Eléctrico", mergulha precisamente nessa dimensão, recriando um universo em que o lirismo convive com o medo, a pobreza e a ameaça constante da morte. A narrativa recua até 1982, numa cidade mineira isolada no deserto chileno, onde a pequena Lidia, de 11 anos, vive sob a proteção de artistas trans e travestis que gerem um cabaré local. Quando uma doença desconhecida começa a espalhar-se entre os mineiros que frequentam clandestinamente o espaço, instala-se um clima de histeria coletiva alimentado pela homofobia e pela transfobia. Corre o rumor de que o contágio acontece através de um simples olhar. A violência moral alastra então pela comunidade, enquanto Flamingo, figura maternal interpretada por Matías Catalán numa composição devastadora, tenta proteger Lidia de um mundo cada vez mais hostil.
Céspedes evita os códigos convencionais do cinema histórico chileno. Não há preocupação em sublinhar referências oitentistas nem em transformar a ditadura de Pinochet num eixo narrativo explícito. Pelo contrário: o realizador prefere mostrar as consequências invisíveis de uma sociedade moldada pelo fascismo, sem transformar a memória política em ilustração didáctica. "Não precisamos mencionar Pinochet para entender as repercussões de um mundo fascista", explicou o cineasta numa conversa com o Correio da Manhã em sua passagem por São Paulo, em março. "O contexto está lá, mas o que o filme mostra é resistência e amor".
Essa recusa em transformar a política num desfile de símbolos ou slogans é central na construção de "O Olhar Misterioso do Flamingo". Céspedes acredita que o cinema chileno foi, durante muito tempo, contado a partir da perspectiva das elites, e vê nesta obra uma ruptura com esse modelo. "Escrevo a partir da minha família, das minhas irmãs, dos meus amigos, das emoções que conheço", afirmou. "Este filme quebra esse molde e apresenta outros rostos, outras vozes, outras experiências sociais".
Essa dimensão comunitária atravessa toda a obra. Para o realizador, sua "Flamingo" fala de algo profundamente latino-americano: a sobrevivência coletiva. "Comunidade é aquilo que mais temos na América Latina. É o que nos permite sobreviver todos os dias", observou.
Essa ideia manifesta-se tanto na relação entre as personagens como na própria estrutura melodramática da narrativa, que alterna dor, humor, afeto e violência com enorme naturalidade. A encenação acompanha essa lógica. A fotografia de Angello Faccini mergulha o deserto chileno numa luz quente, poeirenta e quase táctil, enquanto a direção de arte de Bernadita Baeza transforma o cabaré num oásis cromático no meio da aridez. Céspedes explicou que trabalhou a construção visual do filme muito antes das filmagens, definindo texturas, cores e detalhes específicos para cada personagem.
"O deserto representa a brutalidade, enquanto as mulheres da cantina são cor, calor e fantasia", resumiu o cineasta.
Nele, o melodrama surge então não como ornamento, mas como extensão orgânica da realidade observada pelo realizador. "Quando escrevia, percebi que havia muito melodrama na vida das pessoas que inspiraram o filme", contou Céspedes. "As lágrimas coexistiam com o riso. Essas pessoas sobreviviam através do humor, do exagero e do afeto". Essa perspectiva impede o filme de cair no miserabilismo ou no realismo cru tradicional, aproximando-o antes de um realismo mágico delicado, onde memória, sonho e medo se confundem constantemente.
Ao escolher olhar este universo pelos olhos de uma criança, Céspedes encontra ainda uma forma particularmente poderosa de desmontar o preconceito. Lidia não compreende plenamente a sexualidade dos adultos à sua volta; percebe apenas o amor, o cuidado e a violência. É precisamente essa inocência que torna mais brutal a intolerância que cresce à sua volta. Os fantasmas mudam pouco com o passar das décadas: o medo do diferente, o ódio alimentado pela ignorância e a necessidade de criar tribos de proteção continuam assustadoramente atuais. "Os fantasmas repetem-se e alimentam-se do medo", alerta o diretor. A força de seu filme nasce exatamente dessa percepção: a de que a história não passou, apenas mudou de roupa.
Cannes segue até o dia 23 de maio.