Cannes inaugura sua 79ª edição nesta terça, com comédia francesa, e engata uma maratona de expressões autorais repletas de ganhadores de Oscar, com 'Thelma & Louise' como ícone
Este não o Brasil não tem um "O Agente Secreto" para chamar de seu na competição oficial do Festival de Cannes, que abre sua 79ª edição do Festival de Cannes nesta terça-feira (12), com uma promessa de risos chamada "La Vénus Électrique" e dirigida por Pierre Salvadori. Apesar disso, o país participa como produtor - em maior ou menor grau - de cinco produções espalhadas por seções variadas do evento. O último dos 22 concorrentes à Palma de Ouro a ter sido divulgado, "Paper Tiger", de James Gray, conta com a RT Features, de Rodrigo Teixeira, nos créditos. No dia 23, quando os ganhadores da mais prestigiosa maratona cinematográfica do planeta forem anunciados, a saga de dois irmãos metidos numa encrenca (e com a máfia russa) pode nos dar uma láurea especial. Scarlett Johansson, Adam Driver e Miles Teller integram o elenco, sob a batuta do realizador de "Ad Astra" (2019), que também tem a RT no DNA.
Antes de falar de prêmios, Cannes celebra sua primazia no garimpo de jazidas estéticas bem envelopada num poste em homenagem ao cult "Thelma & Louise" (1992), com os rostos de Geena Davis e Susan Sarandon espalhados por seu balneário. Esta tarde, esse marco feminista de Ridley Scott será mencionado pela atriz francesa Eye Haïdara, que comandará as cerimônias de abertura e encerramento, como mestra de cena. Caberá a ela coordenar as homenagens especiais deste ano, em que Palmas de Ouro Honorárias serão entregues ao cineasta Peter Jackson e à atriz, cantora, diretora e ativista Barbra Streisand.
Antes disso tudo, Salvadori terá de fazer jus à confiança que o time curatorial sob o comando do diretor artístico Thierry Frémaux depositou nele ao escalar "La Vénus Électrique" para abrir as alas de uma programação regada de grifes autorais. Essa tão esperada comédia de época à francesa nos leva até a Paris de 1928, onde o jovem pintor Antoine Balestro (Pio Marmaï) lamenta a morte de sua esposa Irène, pela qual se culpa e que o fez perder a motivação para pintar. Refém do álcool, ele tenta entrar em contato com a esposa por meio de uma médium certa noite. Uma jovem trabalhadora de parque de diversões chamada Suzanne (Anaïs Demoustier), que havia entrado furtivamente no trailer apenas para roubar comida, finge ser uma clarividente para Antoine. O negociante de arte do artista, o marchand Armand (Gilles Lellouche), está desesperado para que seu cliente continue pintando, então convence Suzanne a manter a farsa em troca do pagamento de suas dívidas. Ela começa a encenar sessões espíritas improvisadas para Antoine, nas quais finge canalizar Irène. À medida que Antoine melhora gradualmente, Suzanne se vê se apaixonada pelo homem que está manipulando. Tudo indica que Anaïs vá apaixonar a Croisette inteira com o seu jeitinho sagaz de atuar.
Passada "La Vènus Életrique", começa a disputa oficial e as mostras paralelas. No dia 26 de fevereiro, Cannes anunciou o diretor sul-coreano Park Chan-wook como o presidente do júri de seu 79° certame, o que ampliou o interesse popular por suas criações, a se destacar seu trabalho mais recente, "A Única Saída", hoje na grade da MUBI. O site oficial do evento francês usa três palavras para classificar a obra do realizador de "visceral, subversivo e barroco", explicando que seus longas-metragens "são ousados em todos os sentidos - no roteiro, no estilo e na moralidade", sem que o "virtuoso realizador se afaste de uma mensagem social simbólica". Foi lá que ele fez sua fama, há 22 anos, ao ganhar o Grande Prêmio do Júri de 2004 por "Oldboy". Ganhou a láurea de direção lá, em 2022, por "Decisão de Partir".
"A inventividade, o domínio visual e a propensão de Park Chan-wook para capturar os múltiplos impulsos de mulheres e homens com destinos estranhos proporcionaram ao cinema alguns momentos verdadeiramente memoráveis", afirmaram a presidente do Festival de Cannes, Iris Knobloch, e seu diretor artístico, Thierry Frémaux, num comunicado à imprensa.
O júri da Palma de Ouro terá, além de Park Chan-wook, a presença da cineasta belga Laura Wandel e da diretora chinesa Chloé Zhao, do realizador chileno Diego Céspedes, do ator marfinense Isaach de Bankolé, do roteirista escocês Paul Laverty, da diva americana Demi Moore, da atriz etíope-irlandesa Ruth Negga e do ator sueco Stellan Skarsgård. Na competição principal, Cannes reúne alguns dos autores mais celebrados do circuito mundial. Estão na disputa títulos como "Natal Amargo", de Pedro Almodóvar, e "Histoires Parallèles", de Asghar Farhadi. Outros ganhadores de Oscar além dele estão em campos, como o húngaro Lazlo Nemes, o polonês Pawel Pawlikowski, o japonês Ryûsuke Hamaguchi e o francês Arthur Harari. A claque feminina de cineastas traz Léa Mysius, Jeanne Herry, Marie Kreutzer e Charline Bourgeois-Tacquet.
[foto do Andy Garcia]
Fora de competição, o evento aposta em produções de apelo mais popular e em cineastas de perfil provocador. Estão programadas sessões de "Her Private Hell", de Nicolas Winding Refn, "Diamond", de Andy Garcia, e "De Gaulle: Tilting Iron", de Antonin Baudry. As sessões da meia-noite seguem fiéis ao clima de extravagância e de suspense, com "Colony", de Yeon Sang-ho, "Roma Elastica", de Bertrand Mandico, e "Full Phil", de Quentin Dupieux. "Velozes e Furiosos", de Rob Cohen, que abriu uma das mais rentáveis fraquias da História, em 2001, terá exibição especial, comemorativa de seus 25 anos.
A mostra Un Certain Regard, tradicional celeiro de novos talentos e cinema de risco, será aberta por "Teenage Sex and Death at Camp Miasma", de Jane Schoenbrun, e encerrada por "Ulysse", de Laetitia Masson. A seleção inclui ainda "All the Lovers in the Night", de Yukiko Sode, "The Meltdown", de Manuela Martelli, "Victorian Psycho", de Zachary Wigon, e "Yesterday The Eye Didn't Sleep", de Rakan Mayasi. Haverá ainda um cantinho para brasilidade nessa mostra, com a presença das produtoras nacionais Bubbles Project (de Tatiana Leite) e Enquadramento Produções (Leonardo Mecchi) como parceiras do longa "Elefantes na Névoa", do nepalês Abinash Bikram Shah. A França, a Noruega e a Alemanha são suas coprodutoras também. Esse canteiro cannoise mantém a tradição de revelar realizadores que costumam migrar rapidamente para a competição principal nos anos seguintes.
Na Cannes Première, seção sem premiações, o festival abriga produções de artistas cultuados. O destaque vai para "Kokurojo: The Samurai and the Prisoner", de Kiyoshi Kurosawa (Japão); "Visitation", de Volker Schlöndorff (Alamanha); e "Orange-Flavoured Wedding", de Christophe Honoré (França). A seção ainda inclui "Aqui", de Tiago Guedes (egresso da "terrinha"), e "Maria Magdalena", de Gessica Généus. O espaço vem funcionando como uma espécie de vitrine paralela para filmes de prestígio internacional.
As sessões especiais misturam documentários políticos, retratos musicais e dramas históricos. Entre os destaques estão "Avedon", de Ron Howard, "John Lennon: The Last Interview", de Steven Soderbergh, e "A Mouthful of Ash", de Diego Luna. Já a mostra Cannes Classics celebra restaurações e relíquias do cinema mundial, incluindo "O Labirinto do Fauno" (2006), de Guillermo Del Toro, e "Adeus, Minha Concubina" (1993), de Chen Kaige.
A Semana da Crítica mantém sua vocação de buscar estreantes cheios de garra e será aberta pela animação "In Waves", de Phuong Mai Nguyen, encerrando com "Adieu Monde Cruel", de Félix de Givry. Na competição, aparecem "Dua", de Blerta Basholli, "Six Months in a Pink and Blue Building", de Bruno Santamaría Razo, e "The Station", de Sara Ishaq. O recorte deste ano reforça pautas ligadas a deslocamento, juventude e crises identitárias.