Esperada pela Quinzena de Cannes com 'La Perra', que tem Selton Mello no elenco, diretora chilena arrebata a Netflix com 'Limpia', thriller psicológico pavimentado em lutas de classe
Por RODRIGO FONSECA
Sem um novo "O Agente Secreto" para chamar de seu, presente apenas como (co)produtor de produções estrangeiras, o Brasil olha para o 78° Festival de Cannes - que vai abrir a sua edição de número 79 na próxima terça-feira, com "La Vénus Électrique", comédia de Pierre Salvadori - como um espaço de trocas simbólicas com exterior. "Paper Tiger", de James Gray, um dos mais esperados concorrentes à Palma de Ouro de Cannes, vem dos Estados Unidos, mas tem a RT Features, de Rodrigo Teixeira, em sua equação de produção. Ele ainda participa de "La Perra", do Chile, que tem Selton Mello no elenco, sob a direção de Dominga Sotomayor. Um dos filmes mais recentes - e mais potentes - dela, nunca lançado em salas cinemas por aqui, acaba de se instalar na Netflix, ampliando seu prestígio, às vésperas de sua participação na Croisette, na Quinzenas de Cineastas: "Limpia".
A diretora entrou de vez pro time de grandes autoras do cinema latino ao faturar o prêmio de Melhor Direção no Festival de Locarno, em 2018, com "Tarde para Morrer Jovem", longa que também disputou o Leopardo de Ouro representando o Chile, país onde nasceu, em 1986. De lá pra cá, o cinema chileno segue aparecendo como uma força criativa intermitente na América do Sul — ao lado do Brasil e da hoje fragilizada Argentina — com Colômbia e Peru correndo com frequência também, nesse jogo. No caso de Dominga, o que marca sua obra é um olhar voltado pra histórias de implosão: personagens aparentemente firmes que, aos poucos, saem do eixo, sem que isso venha embalado por reviravoltas fáceis ou sustos gratuitos.
Foi essa a sua dinâmica no curta "La Isla", de 2013, codirigido com Katarzyna Klimkiewicz, e é por aí que estrutura "Limpia", título de abertura da seção Horizontes Latinos do Festival de San Sebastián de 2025. Sua forma de narrar é resfolegante.
Inspirado no best-seller de Alia Trabucco, "Limpia" começa com um tom delicado, lembrando aqueles filmes de "Sessão da Tarde" (tipo "Corina") na forma como observa a relação entre adultos e crianças. Ainda assim, vem sendo vendido como thriller psicológico — um rótulo meio forçado, já que o filme transita por vários caminhos. O suspense aparece pontualmente. A pressão se faz notar numa cena envolvendo a mordida de um cachorro e num desfecho que faz eco ao "Parasita" (2019), de Bong Joon Ho, vencedor da Palma de Ouro e de quatro Oscars. A ponte entre os dois está no retrato do trabalho doméstico dentro de uma casa rica — aqui, visto a partir da rotina de uma babá que tenta encontrar algum prazer na própria vida.
Estela, vivida por María Paz Grandjean (num papel que pode colocá-la em outro patamar na carreira), ganha a vida correndo atrás de Julia (Rosa Puga Vittini), uma menina de seis anos cheia de energia, filha de uma família abastada. O pai, médico, vive arrumando justificativas "humanistas" pra suas ausências, sempre apoiado no juramento profissional, o que acaba empurrando Estela a ficar mais tempo no trabalho e adiar a própria vida. Ao mesmo tempo, ela carrega a angústia constante com a mãe idosa, que ficou numa cidade distante. Mesmo assim, cria um vínculo forte com Julia — muito além do que o salário pagaria. No meio disso tudo, ainda encontra algum respiro na presença de um cachorro fujão, Daddú, e no interesse amoroso de um frentista com jeito de galã.
A montagem de Federico Rotstein contribui pra criar uma tensão quase invisível, fazendo parecer que algo grave pode acontecer a qualquer momento — seja com Estela, seja com Julia. O romance que surge no caminho da protagonista parece, à primeira vista, mais um problema, mas vai se revelando o oposto disso. Dominga não está interessada no extraordinário: o foco dela é o cotidiano.
Nesse sentido, "Limpia" dialoga com "Que Horas Ela Volta?" (2015), de Anna Muylaert, ao abordar as relações de classe dentro do ambiente doméstico, e também se aproxima, ainda que de longe, de "Camarera de Piso" (2022), de Lucrecia Martel, especialmente no clímax. Vai encontrar sua própria força ao mapear uma América Latina marcada por abusos trabalhistas naturalizados por uma estrutura social desigual. Tema que, nas mãos de outros, poderia virar panfleto — mas que Dominga transforma em um cinema sensível, quase poético, reafirmando a vitalidade da produção chilena.
No esperadíssimo "La Perra", Dominga assume como protagonista a solitária Silvia (Manuela Oyarzún), que vive em uma ilha remota no sul do Chile, onde resgata uma cachorra filhote. Ela batiza o animal de Yuri, o mesmo nome que escolheria para a filha que nunca teve. Esta união forma um vínculo improvável que força Silvia a enfrentar ressentimentos profundos e revisitar relacionamentos rompidos, incluindo um trauma que se recusa a permanecer no passado.
O Festival de Cannes vai até o dia 23 de maio.