Mal se desvencilhou de seus compromissos com “Frankenstein”, hoje na Netflix, Guillermo Del Toro concentra seus esforços agora em Cannes, onde volta a apresentar o filme que fez dele um “diretor autor”, aos olhos da crítica, 20 anos atrás: “O Labirinto do Fauno” (2006). No início de dezembro, o longa-metragem passeou pelo Marrocos, no Festival de Marrakech, em meio a uma revisão da obra do sexagenário cineasta mexicano. A cópia que passa por Cannes é outra, mais bombada, restaurada, e terá uma projeção oficial nesta terça, às 14h30 do horário francês (9h30 no Brasil), na sala Debussy do Palais des Festivals. Estima-se a presença do diretor, que está envolvido com a animação “The Buried Giant”. Em 2025, ele passou pela Croisette para falar sobre o uso da música em sua filmografia, dividindo a ribalta com o compositor francês Alexandre Desplat, responsável por suas trilhas.
Ganhador do Leão de Ouro e do Oscar de Melhor Realização por “A Forma da Água” (2017), Guillermo esteve na Croisette pela primeira vez em 1993 com “Cronos”, mas foi na Semana da Crítica, mostra paralela dedica a estreantes. Só concorreu à Palma com “O Labirinto do Fauno”, que foi exibido no último dia da competição. Sua trama se passa na Espanha do pós-Guerra Civil, em 1944, quando a pequena Ofelia (Ivana Baquero) se muda com sua mãe grávida (papel de Ariadna Gil) para morar com seu novo padrasto, um capitão brutal do exército de Franco, vivido por Sergi López. No bosque a seu redor, ela descobre um caminho labiríntico misterioso, onde conhece um ser misterioso, o tal fauno, que lhe diz que ela é a reencarnação de uma princesa perdida e deve cumprir três tarefas perigosas para recuperar seu trono no submundo.
À medida que Ofelia enfrenta as provações, as fronteiras entre sua dura realidade e o mundo fantástico se confundem. A produção foi orçada em US$ 19 milhões e faturou cerca de US$ 84 milhões, além de ter conquistado os Oscars de Melhor Direção de Arte, Fotografia e Maquiagem.
“Gente fina, do tipo bonzinho não me interessa, pois eu cresci cercado de fábulas em que pessoas difíceis, de perfil torto, saem em uma jornada de autodescoberta. Eu me interesso por pessoas que precisam se tornar boas para serem amadas”, explicou Del Toro ao Correio em entrevista no Festival de Marrakech, no Marrocos, antes de projetar “Frankenstein” na telona.
Seu último sucesso, “Pinóquio”, ganhador do Oscar de Melhor Longa de Animação em 2023 e dirigido em duo com Mark Gustafson, teve a Netflix como berço também. Antes dele, houve um fiasco, “O Beco do Pesadelo” (2001), um noir que custou US$ 60 milhões para sair do papel e só faturou US$ 39 milhões. Apesar disso, o realizador deu a volta por cima e seguiu a produzir muito. Além disso, manteve sua origem - Guadalajara – sempre no centro de suas entrevistas.
“Nossa origem latina foi, por muito tempo, tratada na indústria como algo folclórico. Há mais de uma década, eu li um verbete sobre o meu conterrâneo Alfonso Cuarón, escrito pelo crítico David Denby, mais ou menos assim: ‘Alfonso é um cineasta mexicano consagrado por ‘E sua mãe também’ que vai filmar um longa da franquia ‘Harry Potter’. Se ele se sair bem nessa, nunca mais filmará à mexicana, pois será tragado pela indústria’. O tempo passou, Alfonso ganhou o Oscar pela direção de ‘Gravidade’, foi cercado por milhões dólares por todos os lados e, apesar deles, foi ao México filmar uma trama intimista, sobre uma empregada doméstica de origem indígena, baseado em sua própria história com sua babá. A gente não deve ser o que o mercado diz. A expressão de um artista é a liberdade. Queria muito filmar a saga de Pinóquio. Mas só concordei em fazê-lo se fosse do meu modo, nas minhas regras”, disse Del Toro ao Correio da Manhã quando o projeto sobre o menino de madeira começou a ser gestado.
A 79ª edição do Festival de Cannes segue até o dia 23 de maio. Há 22 longas-metragens em competição pela Palma de Ouro deste ano, sendo que o Brasil produz um dos concorrentes: "Paper Tiger", de James Gray, com Scarlett Johansson, Miles Teller e Adam Driver.