Correio da Manhã
Cinema

Hobbits em festa

Responsável pelas duas trilogias que levaram J.R.R. Tolkien ao coração de Hollywood, Peter Jackson recebe a Palma de Ouro Honorária, em reconhecimento a seu legado para a fantasia

Hobbits em festa
Peter Jackson nos sets de 'O Senhor dos Anéis'. Cineasta pode renovar sua investida no universo Tolkien Crédito: Divulgação

Novas viagens à Terra-Média estão por vir. Há um clima de batalha prometido por "The Lord of the Rings: The Hunt For Gollum". Trata-se de um derivado da franquia "O Senhor de Anéis" (2001-2003), do neozelandês Peter Jackson, recentemente revivida numa série da Amazon Prime, pilotada pelo espanhol J. A. Bayona. Coube a Jackson produziu o regresso à telona da prosa de J. R. R. Tolkien (1892-1973) no que pode vir a ser uma nova franquia. É o que se espera do realizador, escolhido para receber a primeira das duas Palmas de Ouro Honorárias do 79° Festival de Cannes. A segunda vai para a cantora, atriz e diva Barbra Streisand, no próximo dia 23, quando o evento encerra suas ações. O cineasta mais famoso da Nova Zelândia ganha a sua esta noite e conversa com o público da Croisette nesta quarta.

Em meio a um sucessivo regresso ao circuito de "O Retorno do Rei" (2003), o mais aclamado e o mais oscarizado tomo da trilogia "O Senhor Dos Anéis", Jackson vem levantando um vasto material de imagens de arquivo sobre os bastidores das filmagens da adaptação da saga de J. R. R. Tolkien para um possível documentário. Há tempos, o cineasta anda dedicado mais a narrativas do real do que a ficção, vide o estrondoso sucesso de "Get Back", sobre os Beatles, na Disney . Streamings andam exibindo um de seus melhores trabalhos nessa seara, a dos docs. revisionistas: "Eles Não Envelhecerão" (2018), sobre a I Guerra Mundial. Vai na Prime Video que ele está lá.

Estima-se que o tempo do realizador anda dedicado, parcialmente, a uma investigação documental sobre o quadrinista belga Hergé (1907-1983), de quem está adaptando uma aventura do jornalista Tintin. O novo longa ficcional de Jackson deve ser uma animação baseada no gibi "Os Prisioneiros do Sol". Mas há quem diga que algo ligado a Tolkien saia das mãos Jackson antes disso.

Hoje, na HBO Max, é possível conferir a versão integral de cada um dos capítulos da trilogia que Jackson rodou na Nova Zelândia, tendo Viggo Mortensen no papel do Rei Aragorn e Elijah Wood como Frodo. Já na Amazon Prime é possível acompanhar a trilogia "Hobbit", que ele dirigiu de 2012 a 2014. Quando interpelado por resenhistas incrédulos frente à dimensão semiótica de espetáculos como os de Jackson, o cineasta franco-suíço Jean-Luc Godard (1930-2022) costumava retrucar as demandas de seus interlocutores com uma pergunta: "Pra que serve o cinema?". Agora, nestes tempos de rachas políticos, com a opção de Peter J. de filmar seus novos projetos na surdina, sem alarde, a provocação do realizador de "Acossado" nos serve para uma reflexão sobre o pop: "Para que serve Peter Jackson?". Há 25 anos, quando "O Senhor dos Anéis" iniciou sua travessia pelas telas, a resposta seria: "Para mostrar a dimensão política da fraternidade e congraçamento entre raças num mundo ainda ressaqueado pelo 11 de Setembro, engasgado com Bush". Foi o que disse Mortensen ao falar de Aragorn em uma de suas vindas ao Brasil, há 23 anos.

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Aos 64 anos, o cineasta neozelandês receberá uma Palma de Ouro de Honra | Foto: Michael Tran Film

Em sua trilogia tolkieniana inicial, o realizador neozelandês fundou um novo formato de épico, que surpreendeu o cinema em dois quesitos. O primeiro quesito era sua engenharia de produção: Jackson rodou os três longas da franquia inspirada em Tolkien de uma só montada, em um período concentrado de um ano e meio de filmagens, por um orçamento estimado em US$ 94 milhões por episódio - um custo muito aquém das ambições estéticas do projeto. Nem Spielberg conseguia filmar dessa forma tão econômica. O segundo quesito de surpresa para os cinéfilos foi a metáfora política daquela trinca de filmes: num momento no qual Hollywood sentiu o desejo de flertar com tramas hiper realistas, nas raias do documental, Jackson trouxe um manifesto fantástico em prol da metafísica, que serviu como um balão de oxigênio para o escapismo nas telas. Isso foi em 2001, 2002 e 2003. Muitos Oscars e muitos milhões nas bilheterias se passaram e uma nova década chegou. Depois outra. Mas Jackson, há muito carente de um sucesso, voltou ao universo que o consagrou como artesão comprovando sua verve autoral: em "O Hobbit" ele mostra que o companheirismo é o assunto-bússola de sua filmografia. Um terreno mágico foi cimentado em "Uma Jornada Inesperada" (2012). Um esforço de revisão formal da cartilha do capa-e-espada foi ensaiado em "A Desolação de Smaug". Mas, no tomo final, "A Batalha dos Cinco Exércitos", o planejamento de revisar a obra basilar de Tolkien, a partir do mito de formação da Terra-Média, converte-se em um filme de guerra magistral, à altura dos clássicos bélicos (de "Napoelón", de Abel Gance, a "Apocalypse Now", de Coppola). O formato de aventura de tintas infanto-juvenis dos longas anteriores dá lugar a uma estrutura narrativa mais áspera, de combates incessantes, quebrada apenas por um flerte com a essência da loucura ao mostrar o processo de contágio do anão-rei Thorin (Richard Armitage) pela Febre do Ouro. Nas tomadas de embate, regadas a violência banhada a aço, Jackson oferece ao australiano Andrew Lesnie a chance de construir o arranjo visual mais requintado das duas trilogias. Em suma, "A Batalha dos Cinco Exércitos" é a produção de tônus visual mais rijo entre todos os mergulhos de Jackson na literatura de Tolkien, mostrando o amadurecimento do realizador como um esteta plasticamente cheio de ambição e formalmente recheado de um pensamento sobre o valor união entre raças. Pra que serve um Peter Jackson? Serve para fazer o pop evoluir, seja na ficção ou em seus documentários. Que ele estreie algo novo longa. Seja onde for.