Correio da Manhã
79º Festival de Cannes

'A África é o mundo', diz Isaach De Bankolé, no júri da Palma de Ouro

'A África é o mundo', diz Isaach De Bankolé, no júri da Palma de Ouro
Isaach De Bankolé em San Sebastián, onde "A Cerca" disputou a Concha de Ouro Crédito: Rodrigo Fonseca

Dois dos 22 concorrentes à Palma de Ouro de Cannes - “Nagi Notes”, de Koji Fukada, e “La Vie d’Une Femme”, de Charline Burgeois-Tacquet – serão exibidas nesta quarta-feira, mas um dos integrantes do júri oficial, o ator marfinense Isaach De Bankolé, deve dar uma escapadinha de suas atribuições para conferir uma homenagem a uma amiga e colaboradora de longa data. No mesmo dia, no mesmo 13 de maio, a diretora francesa Claire Denis será homenageada pelo conjunto de sua obra, com o troféu Carroça de Ouro, dado pela Quinzena de Cineastas. Isaach é o astro do filme mais recente dela, “A Cerca” (“Cri Des Gardes”). Ele fez parceria com muitas vozes autorais além delas.


Até 007 já cruzou com Isaach, nos perigos de "Cassino Royale" (2006), o marco zero de Daniel Craig como James Bond, assim como Wakanda, o país de "Pantera Negra" (2018), viu seu talento entre os súditos do rei Tchalla. Faz pouco, a HBO MAX estreou uma série com ele no elenco, ao lado de Mark Ruffalo: "Task". “O Brutalista”, que concorreu a dez Oscars há um ano, teve a presença desse grande ator no elenco, no papel do amigo fiel do arquiteto visionário que Adrien Brody interpretou. É mais comum, contudo, o cinema se lembrar - cultuar - o ator nascido há 68 anos na Costa do Marfim por sua colaboração com Jim Jarmusch e com Claire, entre o fim dos anos 1980 e o início de 2010. "Uma Noite Sobre A Terra" (1991), "Ghost Dog" (1999), "Sobre Café E Cigarros" (2003) e "Os Limites do Controle" (2009) qualificaram-no como parte essencial da trupe oficial de Jarmusch, entre Tom Waitts, Tilda Swinton e Bill Murray. Com Claire, houve o seminal “Chocolate”, em 1988, além de "Minha Terra, África" (2009).


Escalado para o Festival do Rio do ano passado, "A Cerca" só existe porque, no fim dos anos 1980, enquanto filmava "Chocolate", com Claire, na República dos Camarões, Isaach levou um amigo dramaturgo para vistar as locações: era o francês Bernard-Marie Koltès (1948-1989). Sete anos antes dessa visita, ele lançou a peça "Combat de Nègre et de Chiens", escrita em 1979, mas só encenada em 1982. Foi esse texto que serviu de pavimento estético para um projeto que reaproximou a cineasta de 79 anos do ator.


Na transposição para as telas, o drama político de Koltès ganha vida nos barracões de uma obra numa zona rural da África Ocidental. Num canteiro de operários, Horn, o chefe da obra (vivido por Matt Dillon), e Cal, um jovem engenheiro (Tom Blyth), dividem o alojamento atrás da porta dupla das instalações. Leonie, namorada de Horn (Mia McKenna-Bruce), chega para se juntar a eles na noite em que um homem (interpretado por Isaach) aparece junto à cerca. Seu nome é Alboury. Como um espectro na escuridão, ele exige o corpo de seu irmão, que morreu naquele mesmo dia na obra. Ele vai assombrar os dois homens durante toda a noite até que lhe entreguem o cadáver, enquanto Leonie observa o desastre crescer diante de seus olhos.

Na conversa a seguir, Isaach falou ao Correio sobre identidade, a partir da origem africana, e expõe como o racismo age. Ele tem compromissos com Cannes até o dia 23, quando seu time de juradas e jurados – liderado pelo diretor sul-coreano Park Chan-wook, delibera quem leva cada prêmio do certame, inclusive a Palma dourada. Outras estrelas - Demi Moore, Ruth Negga e Stellan Skarsgård – estarão ao lado dele nesse coletivo votante.


Não há títulos africanos na caça pela Palma deste ano. O cinema já mostrou que há muitas Áfricas, mas o que o nome do continente de onde vem simboliza no seu imaginário?
Isaach De Bankolé: A África é o mundo. Não se apaga a memória de um lugar que existe desde sempre. Não se pode isolar a África.


O espaço para artistas negros anda maior do que nos anos 1980, era de sua gênese nas telas?
Isaach De Bankolé: Não, pois nada é fácil para quem não é mainstream. Claire Denis tem prestigio, está na ativa há anos, mas sempre precisa se esforçar para levantar filmes novos do zero. Jim passa pela mesma situação.


Em relação à intolerância racial, algo melhorou desde a sua estreia, em 1984?
Isaach De Bankolé: As coisas parecem mais fáceis, mas apenas porque o racismo encontrou estratégias subrreptícias para agir.


"A Cerca" encena um microcosmo das lutas coloniais de ontem e de hoje num canteiro de construção. Alboury parece um Exu, uma entidade que vai clamar o que é seu, qual um mensageiro da ancestralidade africana. O que há de místico nele?
Isaach De Bankolé: Eu falo iorubá, que aprendi com os meus pais, e levo essa língua para o filme, que se comporta como um ensaio atemporal sobre o ranço da colonização. Alboury não vem para matar, vem para reclamar o que é seu. A África não recebe o que é dela de direito. O povo branco precisa reconhecer que a África é o berço de tudo.


O que existe de mais singular no olhar de Claire Denis?
Isaach De Bankolé: A habilidade de filmar o silêncio. Pouca gente no cinema fica confortável com a quietude, ainda que, na vida real, ninguém fale o tempo todo. Claire sabe lidar com a expressão silenciosa.

Qual é o melhor causo que você guarda da vivência com Jim Jarmusch?
Isaach De Bankolé: Quando filmamos "Os Limites do Controle", nós discutimos ao longo de duas horas, por causa de uma fala. Ele veio às lágrimas. Tivemos que fazer uma pausa, pois eu estava irredutível. O produtor me chamou e disse: "Ué, mas vocês não eram amigos?". Eu retruquei: "Somos, muito, só que essa confusão não tem a ver com amizade, e, sim, com colaboração artística". Filmamos tudo e, uns meses depois, já na ilha de montagem, Jim me ligou: "Isaach, você estava certo. Se eu tivesse rodado a fala como eu queria, não conseguiria montar o filme". É sobre isso.


A 79ª edição do Festival de Cannes segue até o dia 23 de maio. Entre os títulos na caça pela Palma de Ouro deste ano, há Brasil num deles. Nosso país produz "Paper Tiger", de James Gray (de Nova York), com Scarlett Johansson, Miles Teller e Adam Driver. A produção é feita pela RT Features, de Rodrigo Teixeira, o mesma de "Ainda Estou Aqui", que nos deu o Oscar, no ano passado.