Correio da Manhã
Cinema

Wesley Snipes para além da alteridade

Curta com o ator vira cult no IndeLisboa, em Portugal, e amplia a fama de seu personagem mais icônico, Blade, o caçador de vampiros da Marvel, que ganhou nova leva de HQs

Wesley Snipes para além da alteridade
A imagem icônica de Wesley Snipes é evocada no curta 'Another Other' Crédito: Divulgação

Curta com o ator vira cult no IndeLisboa, em Portugal, e amplia a fama de seu personagem mais icônico, Blade, o caçador de vampiros da Marvel, que ganhou nova leva de HQs

Por RODRIGO FONSECA

Atrás de sintonia com as lutas antirracistas da contemporaneidade, o IndieLisboa, que segue até domingo, buscou um símbolo cinéfilo para reforçar a grade de sua programação: Wesley Snipes. Em negociações com Sylvester Stallone (seu amigo de longa data) para retomar o papel do vilão Simon Phoenix numa provável continuação de "O Demolidor" (1993), o astro tomou as telas do festival português em "Another Other", de Bex Oluwatoyin Thompson. O curta abre um debate sobre intolerância em âmbito institucional. É um dos achados da competição do evento lisboeta.

A boa acolhida fez reverberar para além da "terrinha" o quão icônico Snipes se tornou como um estandarte do empoderamento das populações pretas nos EUA... e fora dele. A retomada de sua persona jogou novos holofotes para seu personagem mais famoso, Blade, o inimigo jurado das criaturas das trevas nos quadrinhos da Marvel. A força simbólica do ator de 63 anos é tanta que ele inspirou a mais recente safra de HQs do super-herói: "Blade: Red Band", com texto de Bryan Edward Hill e desenhos de C.F. Villa.

Com um faturamento estimado em US$ 1,3 bilhão, "Deadpool & Wolverine", hoje na Disney trouxe o Blade de Snipes de volta. Ele apareceu ao lado de Ryan Reynolds e Hugh Jackman retomando a figura do caçador de vampiros. Faz até uma piada com o potencial regresso do vigilante com um outro ator: Mahershala Ali.

Pouco ou quase nada se fala sobre a conturbada transposição do super-herói vampírico Blade para a Disney com Mahershala, ganhador do Oscar de Melhor Coadjuvante em 2017 (por "Moonlight: Sob a Luz do Luar") e em 2019 (por "Green Book: O Guia"). Uma profusão de problemas de bastidores, incluindo negociações, atrasou o projeto. No entanto, a primeira (e muito bem-sucedida) transposição do vigilante para as telas, com Snipes, segue cultuada.

Hoje, com a polêmica aberta em Portugal com "Another Other", no IndieLisboa, veículos de imprensa especializada tecem loas sobre o longa-metragem de 1998 que ganha, ano após ano, o reconhecimento de ser a pedra fundamental da Marvel nas telas. Sua onipresença na grade da HBO Max ressalta a relevância da franquia levada às telas entre o fim da década de 1990 e 2004.

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Em 1998, a figura de Blade abriu as portas do audiovisual para a Marvel Comics | Foto: NewLineCinema

Orçado em US$ 45 milhões, "Blade: O Caçador de Vampiros" ("Blade", 1998) é uma adaptação para as telas das aventuras de um personagem de histórias em quadrinhos (HQs) lançado pela editora Marvel Comics na década de 1970, sem jamais ter alcançado, aos olhos do público leitor (apelidado de "marvetes") a mesma recepção dos vigilantes mais vendidos da empresa, como o Homem-Aranha, o Hulk ou o Capitão América. Contudo, sua transposição para o cinema, dirigida pelo técnico de efeitos visuais (então como pouca experiência como realizador) Stephen Norrington, virou uma coqueluche comercial na venda de ingressos, em todo o planeta, faturando US$ 131,2 milhões em salas de exibição.

Naquela época, o fracasso comercial de "Batman & Robin" (1997), de Joel Schumacher (1939-2020), cassou a validade de qualquer projeto ligado a quadrinhos em Hollywood, decretando o filão como um convite ao fiasco. No entanto, a persistência de um ator mudou o que se anunciava como um paradigma. Wesley Trent Snipes (um norte-americano nascido em Orlando, Flórida, em 31 de julho de 1962) sonhava em levar às telas os gibis (jargão brasileiro para quadrinhos) do Pantera Negra, primeiro justiceiro mascarado negro a ganhar notoriedade no mercado editorial, em escopo global, a partir de sua criação, por Stan Lee (1922-2018) e Jack Kirby (1917-1994), em julho de 1966. Detentora dos direitos autorais do personagem a Marvel negou o Pantera a Wesley, por acreditar que aquele era um momento da História avesso a versões de tramas ligadas a comics (termo internacional usado para designar narrativas gráficas com balões), o que significaria o desperdício de uma grife tão icônica quanto a do personagem que ele buscava, definido como o Rei de Wakanda (país fictício). A editora ofereceu-lhe, como compensação, a escolha de qualquer outro personagem negro que quisesse. Diante do apelo que criaturas vampíricas possuíam no imaginário da cultura pop, sobretudo depois de "Drácula de Bram Stoker" ("Dracula", 1992), Snipes escolheu Blade e investiu o que tinha em sua caracterização. Usou todos recursos que possuía em sua recém-fundada produtora, Amen Ra Films, para levantar o projeto, contando com o suporte da distribuidora (à época de pequeno porte) New Line, que, à mesma época se debruçava sobre a feitura da trilogia "O Senhor dos Anéis" (2001-2003).

Em depoimento ao jornal O Globo, o ator explicou não imaginar o que estava por vir, explicando "quando selei aquele acordo não imaginava que um dia veria alguém da minha cor e não um europeu branco como Schwarzenegger naquele lugar, o que me fez repensar minha vida e o papel político de um filme". O que o astro classifica como "papel político" se refere ao fato de ele ter dado ao cinema (que então contabilizava 103 anos de atividade) seu primeiro super-herói negro em condição de protagonismo e com potência para arrastar multidões às salas de projeção.