Fenômeno de 'O Diabo Veste Prada 2' oxigena os pulmões da comédia, gênero outrora dos mais rentáveis e que tem minguado nos circuitos sob a patrulha da correção política
POR RODRIGO FONSECA
De Meryl Streep o cinema espera tudo (de bom), mas o sucesso de "O Diabo Veste Prada 2", à força de uma arrecadação de arrancada estimada em US$ 239 milhões, foi mais do que tietes da estrela poderiam imaginar. É mais do que analistas de mercado previam. A maior surpresa acerca do êxito dessa sequência do badalado "The Devil Wears Prada" (2006), na volta da editora má Miranda Priestly, é o fato de uma comédia estar "nas cabeças" da venda de ingressos mundo afora. Fazia tempo que isso parecia hipótese de ficção.
É difícil crer, mas o filão que nos deu de Dercy Gonçalves a Will Ferrell há tempos não se comunicava mais com as multidões via telonas. Não com esse estrondo que Meryl conseguiu causar, lotando salas, dia após dia, desde seu lançamento, no dia 30 de abril. Basta ver o que se dá no Brasil. Aqui, onde a chanchada foi filão imperial nos circuitos - matéria essencial para a nossa formação cinéfila, dos anos 1930 aos 60 -, o último grande feito da seara da gargalhada soma três anos: "Minha Irmã e Eu" (2023), com Ingrid Guimarães e Tatá Werneck, que vendeu cerca de 2,2 milhões de tíquetes. Em 2024, "Os Farofeiros 2" arranhou essa mesma média, ficando pouca coisa atrás. De lá para cá, até pintaram tramas engraçadas, aqui e ali, mas nada com tamanha força.
Em Hollywood então, até Miranda regressar, a risada raramente se fez blockbuster, brilhando mais nas plataformas digitais. Os streamings estão cheios de graça, como comprova o recente e imperdível "Bola Pra Cima", de Peter Farrelly (codiretor de "Debi & Loide"), hoje na Prime Video, que usa o Brasil e o futebol, em tom de Copa do Mundo, para criar uma trama mucho loca com Mark Wahlberg e Paul Walter Hauser.
A maneira como esse longa-metragem retrata a geografia do Rio de Janeiro (subvertendo as nossas altitudes e latitudes) e caricatura a população brasileira seria destroçada se "Balls Up" (título original) fosse a circuito, sob a guilhotina afiada da correção política e das patrulhas ideológicas. No digital, contudo, ele gruda no olhar de assinantes, na quietude do lar, no sapatinho... onde o cancelamento não chega.
Antes que você, leitora ou leitor, fale em "Se Beber, Não Case" - que custou US$ 35 milhões, faturou US$ 469 milhões e ainda papou o Globo de Ouro de Melhor Filme Cômico -, atenção: o longa-metragem que consagrou o diretor Todd Philips é de 2009, e suas duas continuações, menos notáveis, de 2011 e 2013. A última vez em que um estúdio hollywoodiano viu uma trama cômica driblar a concorrência dos blockbusters de super-heróis, de animações Pixar e aventuras à la "Transformers" ou "Top Gun: Maverick" foi em 2012, quando "Ted", de Seth Macfarlane, que custou US$ 50 milhões, faturou US$ 549 milhões pelo mundo afora.
Teve ainda "Missão Madrinha de Casamento" (2011), uma comédia milionária, que chegou a disputar estatuetas do Oscar. Fez de Melissa McCarthy uma estrela. Mas nem ela consegue mais formar filas nas portas dos cinemas pra ver uma narrativa engraçada.
Em 2025, "Corra Que A Polícia Vem Aí!" meteu as caras, renovando a estética da paródia, com o apoio de Liam Neeson para homenagear Leslie Nielsen (1926-2010). Deu certo? Sim. Faturou US$ 102 milhões. Porém isso era menos do que se esperava e menos do que seu orçamento, em torno de US$ 42 milhões, necessitava para emplacar um bom lucro. Valeu o esforço. Valeu por ter peitado o patrulhamento.
Ele é pesado. Os milhões que a comédia americana registrava nos anos 1980, sendo picante ("A Última Festa de Solteiro") ou abilolado ("Top Secret"), e nos anos 1990, com grifes estelares (caso de Jim Carrey, em "Débi & Lóide" ou "O Mentiroso") ou com debates comportamentais (caso de "American Pie"), sumiram. Houve alguma migração para as séries no streaming, vide a bombada "Leanne", pepita da Netflix.
Lá, no grande N do streaming, Adam Sandler fez seu ninho. Revelado na TV, conhecido pelo humorístico "Saturday Night Live", ele deu um pontapé em seus concorrentes de prestígio (Carrey e Robin Williams) em 1998, ao emplacar um sucesso inesperado nas telonas: "O Rei da Água". Dali pra diante, tudo o que ele fez entre 1999 ("O Paizão") e 2011 ("Esposa de Mentirinha") explodiu no gosto popular e passou da marca de US$ 100 milhões na arrecadação. Até uma obra-prima adorada pela crítica ele emplacou: "Como Se Fosse A Primeira Vez" (2004). Mas com a recepção áspera a "Cada Um Tem a Gêmea Que Merece", lançada aqui no carnaval de 2012, Sandler percebeu que era hora de mudar. Saiu do cinema e passou a ser um astro exclusivo da Netflix. No streaming, ele ampliou sua força com títulos como "O Halloween do Hub" (2020) e "Mistério no Mediterrâneo" (2019), este com a estrela da gargalhada Jennifer Aniston. No ano passado, tomou a Netflix para si com o delicioso "Um Maluco No Golfe 2". Até um cult (sério) ele protagonizou: "Joias Brutas", em 2019. Mas o êxito contínuo de Sandler já não inclui as salas exibidoras.
Essa transformação foi tão grande que o recém-encerrado Festival de Buenos Aires, o BAFICI, criou uma seção paralela chamada Comédia, para festejar a longevidade do humorismo no cinema. Lá estava a produção brasileira "O Rei da Internet", um thriller bem-humorado com João Guilherme e Marcelo Serrado, que estreia no próximo dia 14.
Há uma razão histórica para essa mudança comportamental. Historicamente, toda a vez que o mundo entra num conflito bélico coletivo, como a I e a II Guerra, a comédia sobe. A carreira de um gênio como Frank Capra (1897-1991) foi fruto desse estado de coisas, em que a risada serve de analgésico ao temor. "A Felicidade Não Se Compra", lançada por Capra em 1946 cresceu no imaginário cinéfilo mundial no pós-guerra, como refluxo dos horrores da batalha contra Hitler, evocando a necessidade de um filme de celebração do amor familiar. Mas hoje, mesmo com os massacres no Irã, a Guerra da Ucrânia e o conflito feroz na Palestina, o assombro do planeta passa pelas vias econômicas, por colapsos financeiros que alimentam a presença de políticos conservadores no Poder. Em tempos assim, como se viu, por exemplo, no crack da Bolsa de 1922, a comédia cai e os filmes de monstro e os suspenses noir (pautados na ambiguidade moral) crescem. É o que vivemos hoje em Hollywood. É contra esse percalço da História que Meryl Streep e Anne Hathaway e seu hilário "O Diabo Veste Prada 2" lutam.
Na Europa, a Itália é um dos países que mais apostam em comédias, sempre numa linha de chanchada. Checco Zalone é o senhor da graça por lá, estrelando tramas popularescas como "Buen Camino" (2025), hoje na Netflix. Ninguém cultiva tanto as tramas cômicas do que o cinema francês. Não por acaso, quem vai abrir o 79° Festival de Cannes, na próxima terça-feira, é um roteiro para fazer multidões rirem: "La Vénus Électrique", de Pierre Salvadori. Teve comédia lá, como "A Riviera Não É Aqui", que vendeu 20 milhões de ingressos, em 2008.
No Brasil, a partir do êxito de "Se Eu Fosse Você", que vendeu 3,6 milhões de ingressos em 2005, a comédia encontrou espaço nobre nas telonas, inventando até um subgênero pra si, a neochanchada, caracterizada por seu humor escancarado, sem sutileza, graficamente explícito nas piadas, ao analisar as peripécias das classes C e D que emergiram na primeira Era Lula. Tanto que o longa ganha sua terceura parte no segundo semestre, com Glória Pires, Tony Ramos, Cléo Pires e Rafael Infante.
Uma série de fenômenos, como "Até Que a Sorte Nos Separe" (2012-2015) ou "De Pernas Pro Ar" (2010-2019), consagraram novas fórmulas do riso. Em 2013, Paulo Gustavo (1978-2021) foi responsável por uma revolução nos cinemas, desafiando tabus do conservadorismo nacional, ao aparecer vestido de mulher à frente da franquia "Minha Mãe É Uma Peça". O primeiro rendeu 4.582.788 tíquetes. O segundo foi visto por 9.307.612 pagantes. O terceiro superou todas as expectativas dos analistas de mercado e somou 11.608.254 espectadores.
Aí veio a pandemia. Naqueles tempos de máscaras e confinamento, só duas comédias fizeram sucesso à altura do esperado: "Tô Ryca! 2" (2022), com Samantha Schmütz, e "Desapega! O Filme", com Maisa e Glória Pires. Nos streamings, as parcerias do roteirista Paulo Cursino com o diretor Roberto Santucci e o ator Leandro Hassum (nosso Peter Sellers), tipo "Tudo Bem no Natal Que Vem", seguem brilhando - mais do que em circuito. Nas plataformas, Hassum não perde a majestade do gênio que é.
Santucci volta este ano com "Os Farofeiros 3" e "Picaretas Não Vão Pro Céu" e pode brilhar com os dois. A partir de 3 setembro, o Brasil pode encher os pulmões da comédia de are de novo com "Minha Melhor Amiga", juntando as grifes de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli. Rodado no Rio de Janeiro, em Lisboa e em Sevilha, o longa de Susana Garcia é inspirado nas experiências da dupla com as filhas adolescentes, Julia e Clara, que inclusive dão nome às protagonistas. Amigas de longa data, Ingrid e Mônica conquistaram a internet ao compartilhar situações hilárias e perrengues que passaram durante as férias com as garotas na Europa e a química foi tão boa que elas não pararam mais de viajar juntas.
No filme, as tais melhores amigas Julia (Mônica) e Clara (Ingrid) estão numa fase difícil, no auge dos 50 anos. Julia é uma jornalista divorciada que não acredita mais no amor e não se sente valorizada profissionalmente. Já Clara vive um casamento em crise e uma rotina frustrante em casa cuidando do marido, da sogra e do enteado. Pena ainda em seu trabalho como corretora imobiliária. Suas filhas, Manu (Giulia Benite) e Isadora (Gabi Amaral), de 16 anos, vão fazer um intercâmbio em Portugal e, pela primeira vez, morar longe das mães. Elas então decidem dar um basta na vida sem graça e embarcam juntas para Portugal. Em solo europeu, nem tudo sai como planejado... para o nosso bem, dando a chance ao público de sorrir com essas estrelas.