Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Um Leopardo que acerta o valor de 'Pi'

O cineasta Darren Aronofsky costuma ser mais lembrado pelo sucesso de 'Cisne Negro', de 2010 | Foto: LIFF

Realizado sempre em agosto na Suíça, o Festival de Locarno vai conferir a Darren Aronofsky o troféu honorário, Pardo d'Oro, consagrando a estética do excesso do diretor de 'Cisne Negro'

Cannes vai abrir sua 79ª edição na próxima terça-feira, com "La Vénus Électrique", comédia de Pierre Salvadori, agitando o circuito anual dos festivais de cinema, que já se movimentam para obter atenção. Veneza, que só rola lá em setembro de 2 a 12 do mês nove, já anunciou quem vai presidir o júri do Leão de Ouro: a atriz e diretora Maggie Gyllenhaal. Há dois dias, foi a vez de Locarno, evento cinéfilo de maior relevo da Suíça (e um dos mais prestigiados do mundo, há quase oitenta anos), antecipar a escolha de seu homenageado de 2026: o realizador americano Darren Aronofsky.

Envolvido na direção de "Breakthrough", com Dwayne Johnson, o cineasta de 57 anos costuma ser mais lembrado pelo sucesso de bilheteria "Cisne Negro" (2010), cujo orçamento não passou de US$ 13 milhões, mas compensou-se com uma receita de US$ 330 milhões. No entanto, para além desse feito, ele foi produtor do único longa-metragem que deu ao Brasil a Concha de Ouro do Festival de San Sebastián: "Pacificado" (2019), hoje na Disney .

Desde a década de 1990, quando lançou "Pi" (1998), Aronofsky carrega a pecha de visionário... e sempre fez jus a ela. Ganhou um Leão de Ouro merecidíssimo em 2008, com "The Wrestler - O Lutador", com arrancou de Mickey Rourke a atuação de uma vida. O diretor receberá seu Leopardo Honorário de Locarno no dia 14 de agosto, na Piazza Grande (a praça da cidade). Vai apresentar, na programação, duas de suas criações mais ousadas "Fonte da Vida" (2006) e "Mãe!" (2017). Seu longa mais recente, "Ladrões" (2025), está na HBO Max e na Prime Video.

"Minhas histórias falam de pessoas solitárias em volta de uma sina", disse Aronofsky ao Correio, ao lançar "Pacificado", na Espanha, ao lado de seu realizador, Paxton Winters.

Recentemente, num Zoom com o Correio da Manhã, quando "Ladrões" estava nascendo, ele definiu seu estilo: "Eu sou um realizador de filmes de baixo orçamento nos Estados Unidos. Um realizador que escolheu falar sobre os demônios internos das suas personagens, fascinado por figuras que me capturam por sua profundidade. Por meio da engenharia sonora do meu cinema, eu me conecto com a plateia a partir do aspeto mais sensorial da imagem".

Com filmes marcantes como "Réquiem por um Sonho" (2000) e "Noé" (2014), Aronofsky levou Brendan Fraser ao Oscar em "A Baleia" (2022). Há mais de um quarto de século, sua obra explora os limites extremos da fé, do desejo e da obsessão, numa estética do excesso, na qual suas personagens sempre transbordam fronteiras racionais.

Austin Butler (de "Elvis") é o astro de "Ladrões". Nevrálgica, a produção conta a saga de um craque de beisebol, Hank, que parou de jogar depois de uma tragédia e tenta se livrar do chamado do álcool. Beber é sua ruína. Só que uma ruína ainda mais funda e perigosa o aguarda depois que um vizinho punk, Russ (Matt Smith), abre as portas da encrenca para ele, ao abandoná-lo com uma chave que pode ser o passaporte para uma fortuna, das mais ilegais. Ele tem uma namorada apaixonada (Zoe Kravitz), que é profissional de saúde e vai dar um trato em seus machucados depois que dois bandidões eslavos quebram sua cara. Tem uma policial de índole indomável em seu encalço (papel de Regina King) e dois mafiosos judeus ortodoxos, interpretados por Vincent D'Onofrio e Liev Schreiber nas raias do humor.

Titular da direção artística de Locarno desde 2020, o crítico suíço Giona A. Nazzaro justifica sua escolha definindo Aronofsky como um "autor que fez da força pura da criatividade, da invenção e da audácia sua marca registrada". Segundo Giona, esse artista audaz "nunca deixou de desafiar convenções e expectativas, nem tentou simplesmente agradar ao público ou à indústria". Desde os anos 2000, o adjetivo "aronofskiano" virou moda. "Esse termo é usado para caracterizar um estilo profundamente pessoal e não convencional que, no entanto, transita livremente entre diferentes gêneros e abordagens - no seu caso específico, ancorado nos temas e obsessões que ele explorou incansavelmente: fé, maternidade, os conflitos com figuras paternas autoritárias e desafios inerentes à criação de sociedades", define Giona A. Nazzaro. "Aronofsky personifica o prazer do cinema como risco e desafio constante".

O Pardo d'Onore é viabilizado, desde 2017, graças ao apoio da Manor, Parceira de Eventos do Festival de Cinema de Locarno. Ao longo dos anos, a láurea foi concedida a algumas das personalidades mais notáveis do cinema. Entre os vencedores anteriores estão Ken Loach, Terry Gilliam, Alexander Sokurov, Jia Zhang-ke, Leos Carax, Werner Herzog, Kelly Reichardt, Harmony Korine, Jane Campion e Alexander Payne.

Em julho, Giona vai anunciar os concorrentes de Locarno. A última vitória de peso do Brasil por lá ocorreu em 2022, quando "Regra 34", de Julia Murat, conquistou o Leopardo de Ouro.