Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Fatality à vista

Karl Urban esbanja carisma no papel de Johnny Cage, um Van Damme de araque | Foto: Warner Bros. Pictures

Sequência de 'Mortal Kombat', com o festejado Karl Urban, estreia nesta quinta para ampliar o apelo de longas derivados de videogames num circuito dominado por 'Super Mario Galaxy'

Desde sua chegada aos fliperamas e consoles domésticos, em 1992, sob a criação de Ed Boone e John Tobias, a grife de games "Mortal Kombat" vendeu 100 milhões de cópias, ao redor de seus 32 diferentes títulos, aos quais se somam HQs, animações e filmes live action de sucesso similar. Diante desses números e da forma rara como esse MMA com toques fantásticos (e licença para matar) contagia gerações há três décadas, é difícil acreditar que o longa-metragem baseado nesse passatempo eletrônico, marcado para estrear nesta quinta-feira, possa flopar na venda de ingressos.

Seu torneio mortífero, embalado pelo pleito "Fatality!" (golpe brutal de suposta misericórdia), ganhou os cinemas pela primeira vez em 1995, numa adaptação que custou duas mariolas para os cálculos hollywoodianos (US$ 20 milhões) e faturou firme (US$ 122 milhões). Em 2021, o cineasta e produtor James Wan, Midas do terro, responsável pela franquia "Invocação do Mal" (2013-2025), resolveu retomar os personagens de Boone e Tobias numa roupagem mais febril. A pandemia atropelou seus planos de lotar salas, faturando só US$ 84 milhões, mas a covid-19 não impediu que essa retomada mobilizasse audiências nos streamings e na TV.

Daí a necessidade de uma sequência, que ganha o reforço de um astro: Karl Urban, o Billy Bruto da série da Prime Video "The Boys". Coube a ele interpretar Johnny Cage, o arremedo de Van Damme que se transforma em herói. E essa transformação, agora, ocorre em fase de apogeu para os games na telona.

Desde o feriadão da Páscoa, filme algum faturou mais do que a animação "Super Mario Galaxy: O Filme". Sua arrecadação na venda de ingressos beirou US$ 900 milhões no domingo passado e suas sessões seguem abarrotadas. A produção anterior baseada nas peripécias do bombeiro hidráulico Mario e de seu irmão, Luigi, somou US$ 1,3 bilhão ao longo de uma vasta carreira no circuito global de multiplexes. Ajudou a demarcar uma mudança de paradigma em que títulos que nascem de games andam resultando melhor do que as adaptações de HQs de vigilantes mascarados.

A maré virou em prol das produções inspiradas em jogos, sobretudo depois de "Minecraft, O Filme" (2025) ter faturado quase US$ 1 bilhão, impulsionada pelo carisma do ator Jack Black.

No dia 15 de outubro deste ano, uma versão em carne e osso do fliperama "Street Fighter", filmada por Kitao Sakurai (da série Twisted Metal), com as personagens que confinaram gerações de nerds aos joysticks, promete lotar circuitos. Não restam dúvidas de que, diante da demanda de Hollywood, um "Minecraft II" já está no forno. Em 2027 estreia um quarto capítulo da saga "Sonic" (2020-2024), com Keanu Reeves em seu elenco de vozes. Esse pacotão videogame que está por vir há de se estender com "Ghost of Tsushima", um épico de Chad Stahelski, o realizador da milionária franquia John Wick.

 

CRÍTICA / FILME / MORTAL KOMBAT 2: Sob as sombras de James Wan

Depois da saga "John Wick" (2014-2025), fazer filmes de ação virou um desafio plástico, técnico e estético que poucos cineastas conseguiram transpor, a julgar pela piada que foi o último veio da cinessérie "Missão: Impossível", lançada em Cannes, no ano passado. Já o terror... ajudado por um torvelinho de catástrofes ao redor do mundo... esse gênero viceja, a julgar pelos Oscars dados a "Pecadores" e "A Hora do Mal". Não se estranha, portanto, a necessidade de sinergia das narrativas de pancada - resilientes graças aos esforços contínuos de Keanu Reeves, Jason Staham e Liam Neeson -, expressa na busca por uma ajudinha de um pilar do assombro.

Há 21 anos, "Jogos Mortais" fez James Wan ser marca registrada de excelência na seara do calafrio. O êxito de "Invocação do Mal", sobretudo o II, de 2016, com A Freira, consolidou a infalibilidade de suas criações - inclua a boneca Annabelle entre elas. Em 2018, num convite da DC, fez um longa do Aquaman, com Jason Momoa, que bateu US$ 1,1 bilhão, treinando-o nas manhas das tramas de embates corpo a corpo.

O conhecimento (gigantesco) dele sobre as dinâmicas das trevas ajudam, um bocado, a nova versão de "Mortal Kombat" a parecer tão sombria quanto o jogo original - e seus derivados. Simon McQuoid, que assina a direção da parte dois, hoje em cartaz, constrói os enquadramentos sob os auspícios de Wan, encontrando afinação plena com os meandros cinemáticos (de excelência) na pancada impostos pós J.Wick.

Numa montagem efervescente, das mais taquicárdicas, a trama de "Mortal Kombat 2" segue o torneio que se estabelece em meios aos planos do ditador Shao Kahn (Martyn Ford) para usar um medalhão mágico a fim de expandir seus poderes e dominar a Terra. A fim de detê-lo, uma claque de guerreiros liderados pelo deus dos relâmpagos Raiden (Tadanobu Asano) convoca um ator fracassado, Johnny Cage (o poço de carisma Karl Urban), para ajuda-los. A ajuda gera sequências divertidas, num clima noventista nostálgico.