Política

Filme sobre Bolsonaro seria financiado por Daniel Vorcaro

Flávio Bolsonaro negociou com dono do banco Master repasse de R$ 134 milhões para custear Dark Horse

Filme sobre Bolsonaro seria financiado por Daniel Vorcaro
Flávio acertou com Vorcaro repasse de R$ 134 milhões para o filme Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Literalmente, Dark Horse quer dizer “cavalo preto”. A gíria em inglês, no entanto, é utilizada para designar um cavalo azarão, que não seria o favorito na disputa. É o título do filme que vem sendo produzido sobre a vitória de Jair Bolsonaro à Presidência da República em 2018. Se Bolsonaro surgiu como uma bomba naquela disputa presidencial, uma bomba agora parece ter caído sobre a candidatura de seu filho, o senador Jair Bolsonaro (PL-RJ), à Presidência este ano.

Na tarde de quarta-feira, Flávio Bolsonaro admitiu ter tido uma conversa com Daniel Vorcaro, o dono do Banco Master, para que ele repassasse US$ 24 milhões (o equivalente a R$ 134 milhões na época) para a produção de Dark Horse. Mais cedo, o áudio da conversa de Flávio com Vorcaro foi publicado pelo site The Intercept Brasil. O caso coloca Flávio diretamente na crise do Banco Master. Ao admitir a conversa, porém, o senador afirmou ter se tratado de um pedido de financiamento privado, que nada teria a ver com o rombo de R$ 52 bilhões que a instituição financeira deixou no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), razão pela qual hoje Vorcaro está preso. Dark Horse está previsto para estrear em 11 de setembro deste ano.

“Conheci Daniel Vorcaro em dezembro de 2024, quando o governo Bolsonaro já havia acabado, e quando não existiam acusações nem suspeitas públicas sobre o banqueiro”, disse, em nota, Flávio Bolsonaro. Segundo ele, houve de fato um contrato pelo qual o Master financiaria o filme. E a razão do contato é que as parcelas de patrocínio estavam atrasadas.

“O contato é retomado quando há atraso no pagamento das parcelas de patrocínio necessárias para a conclusão do filme. Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem”, manifestou o parlamentar por meio de nota à qual o Correio da Manhã teve acesso.

“Mais do que nunca é fundamental a instalação da CPI do Banco Master. É preciso separar os inocentes, dos bandidos. No nosso caso, o que aconteceu foi um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero Lei Rouanet [Lei de incentivo à cultura]”, reiterou o parlamentar. A Lei Rouanet é uma lei instituída no governo Fernando Collor quando era ministro da Cultura Sergio Rouanet. Ela permite que empresas tenham desconto no Imposto de Renda quando patrocinam produções culturais.

“Sem graça”

Antes de ter conhecimento da existência do áudio, Flávio chegou a ser questionado sobre o dinheiro de Vorcaro para o filme. Na hora, o parlamentar negou qualquer pagamento do banqueiro, mas horas depois voltou atrás e confirmou que buscou os recursos do banqueiro.

Segundo a reportagem, Vorcaro já teria repassado R$ 61 milhões entre fevereiro e maio do ano passado. Ele teria parado de repassar o valor e Flávio enviou as mensagens solicitando o restante dos recursos, preocupado que isso poderia gerar problemas ao filme.

“Eu fico sem graça de ficar te cobrando. É porque está num momento muito decisivo aqui no filme e como tem muita parcela pra trás, tá todo mundo tenso e preocupado aqui com o efeito contrário do que a gente sonhou pro filme”, diz Flávio no áudio divulgado.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpretará Bolsonaro] ou num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras renomadíssimos lá no cinema americano mundial, podia ser algo muito ruim”, ele completou no áudio. A mensagem foi encaminhada dias antes de Vorcaro ser preso tentando fugir do Brasil, após o rombo do Master.

O Correio da Manhã também teve acesso à nota técnica divulgada pela empresa GOUP Entertainment, produtora responsável pelo longa biográfico do ex-presidente. A empresa, contudo, negou qualquer investimento oriundo de Vorcaro para o projeto. “Com o propósito de afastar especulações infundadas, a GOUP Entertainment afirma categoricamente que, dentre mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem Dark Horse, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário”, escreveu a produtora.

A empresa ainda reiterou que “o projeto cinematográfico Dark Horse foi estruturado dentro de modelo privado de desenvolvimento audiovisual, sem utilização de recursos públicos”.

“Cumpre destacar, ademais, que conversas, apresentações de projeto ou tratativas eventualmente mantidas com potenciais apoiadores e empresários não configuram, por si só, efetivação de investimento, participação societária ou transferência de recursos — sendo improcedente qualquer ilação em sentido contrário”, reiterou a GOUP.

Repercussão

Além de Flávio, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (RJ), reforçou a mesma narrativa do senador alegando que “os fatos dizem respeito à busca de patrocínio privado para um projeto privado, sem qualquer utilização de recursos públicos”.

“Não aceitaremos tentativas de transformar uma iniciativa privada em narrativa política artificial para atingir adversários. Seguimos firmes na defesa da verdade, da transparência e da correção de conduta daqueles que representam milhões de brasileiros”, manifestou Sóstenes, por meio de suas redes sociais.

Contudo, diversas figuras políticas se manifestaram pela investigação do caso, tanto parlamentares da base governista quanto congressistas de oposição.

O pré-candidato à Presidência e ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), usou de suas redes sociais para criticar o senador. Vale destacar que Zema foi cogitado para integrar a vice-presidência na chapa eleitoral do primogênito do clã Bolsonaro. “Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do [Daniel] Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”, disse Zema.

No Congresso Nacional, a Federação Psol-Rede entrou com uma representação contra Flávio Bolsonaro no Conselho de Ética do Senado Federal. O documento foi redigido e entregue ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), via e-mail, na noite desta quarta-feira.

Além de outra representação de investigação no Conselho de Ética do Senado, o Partido Missão, de Renan Santos, informou que entrará com uma representação ao Ministério Público Eleitoral (MPE) “para apuração de uso de dinheiro sujo em um filme que seria lançado em período eleitoral (11 de setembro) para promover o candidato e sua família”.

“Flávio Bolsonaro entrou em todos os esquemas que foram possíveis: da rachadinha ao Banco Master. Não tem mais condição moral de permanecer no Senado ou de ser candidato a Presidente do Brasil”, reforçou a sigla, por meio de nota.

Em coletiva de imprensa na Câmara dos Deputados, o líder da bancada do Partido dos Trabalhadores (PT) na Câmara, deputado Pedro Uczai (SC), informou que a bancada entrará com pedido contra Flávio no Conselho de Ética e reforçará com o presidente da Câmara Hugo Motta (Republicanos-PB) para que este instale a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar os envolvidos no rombo do Banco Master e o possível envolvimento do Banco de Brasília (BRB), que tentou comprar o banco. Ele não descartou também reforçar ao presidente do Senado a instalação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o Master.

O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, segue preso na 19ª Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), conhecida como Papudinha. Ele foi detido na quarta fase da Operação da PF sobre o Master, acusado de aceitar R$ 146 milhões em propina para contribuir na compra do Master pelo BRB.

Sigilo bancário

Para além das medidas administrativas, a bancada do PT na Câmara informou que solicitará a quebra dos sigilos bancários de Flávio Bolsonaro. Uczai informou que o partido apresentará uma Notícia de Fato à Polícia Federal para solicitar o início das investigações.

Os parlamentares presentes na coletiva consideraram o valor solicitado a Vorcaro muito elevado para uma produção audiovisual, ainda que esta tivesse recursos e produção internacional e citaram como exemplo os filmes que representaram o Brasil nas duas últimas edições do Oscar “Ainda Estou Aqui”, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, custou R$ 8 milhões para ser produzido, e “O Agente Secreto”, R$ 28 milhões. Somados, os dois filmes custaram R$ 36 milhões, 27% do valor solicitado para Vorcaro.