Política

"Caso Flávio possui o tripé da crise"

Para analista, denúncia reúne três elementos de alto impacto político

"Caso Flávio possui o tripé da crise"
Flávio afirma que dinheiro recebido de Vorcaro "foi limpo" Crédito: Lula Marques/Agência Brasil

Suspeita de irregularidade financeira, possível uso político de recursos privados e narrativa familiar ligada ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para o especialista em comunicação política e marketing João Vitor Cândido está formado aí o tripé da crise, com potencial de gerar “desgaste político relevante”.

Os áudios e trocas de mensagens vazadas entre o senador e pré-candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, acendem uma nova crise política a cinco meses das eleições presidenciais e, especialmente, levantam o questionamento se a campanha de Flávio permanece ou não. Os áudios mostram Flávio pedindo a Vorcaro R$ 134 milhões para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro. Além disso, revelam uma intimidade até então desconhecida entre o senador e o banqueiro, tratado como “irmão” em vários momentos.

Para o Correio da Manhã, João Vitor Cândido identifica que os três elementos que formam o tripé tem alta capacidade de gerar desgaste por estarem fortemente no debate e na preocupação dos brasileiros.

Um problema adicional, para Cândido, é o fato de as explicações não se confirmarem. O dinheiro pedido por Flávio é quatro vezes maior que o orçamento total do filme O Agente Secreto, que concorreu ao Oscar este ano. E os produtores do filme, a GOUP Entertainment e o ex-ministro da Cultura Mario Frias afirmam que nenhum centavo de Vorcaro entrou no financiamento do filme. Então, para onde foi o dinheiro?

“Quando aparecem divergências entre versões, como a informação de pagamentos alegadamente feitos e a negativa da produtora responsável pelo filme, o dano político tende a aumentar porque alimenta dúvidas e mantém o tema vivo no noticiário”, destacou Cândido.

“Mesmo que não haja condenação ou responsabilização formal, o simples prolongamento das apurações produz desgaste contínuo, principalmente porque o debate deixa de ser apenas jurídico e passa a ser também moral e reputacional”, completou o especialista em marketing.

Posição defensiva

A reportagem ainda conversou com o cientista político e coordenador de Análise Política na BMJ Consultores Associados Lucas Fernandes. Para ele, a situação tira o campo bolsonarista da posição ofensiva que estava com relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e fica obrigado a uma posição defensiva.

“No curto prazo, o episódio tende a gerar ruído interno na direita, estimular movimentos de dissociação por parte de outros pré-candidatos e oferecer munição ao governo e à esquerda para reativar a narrativa de corrupção no campo bolsonarista. O impacto efetivo, porém, dependerá da evolução das investigações, da existência ou não de novas provas e da capacidade de Flávio de estabilizar sua versão pública”, completou Fernandes ao Correio.

Para o cientista político Rodrigo Prado, o campo político da direita e da extrema direita deve aguardar para que “o tempo consiga soterrar tudo aquilo que veio de negativo com o áudio”, considerando que ainda faltam meses para a eleição.

“Flávio Bolsonaro tem o bônus, que é o sobrenome de seu pai e o capital político eleitoral que ele herda, mas também tem o ônus. E esse ônus começa a aparecer agora, seja com Ciro Nogueira [aliado de Flávio investigado por receber propina de Vorcaro], seja com o áudio pedindo dinheiro ao Banco Master para concluir o filme sobre Jair Bolsonaro”, ele destacou.

Questionado pela reportagem, Prado ainda ponderou que, caso Flávio Bolsonaro desistisse de sua candidatura diante da crise, outra alternativa poderia ser uma candidatura da ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Contudo, ele considera a troca pouco provável diante dos conflitos internos entre Michelle e os enteados. Na mesma linha, Lucas Fernandes ainda avalia que ele deve permanecer candidato. “O abandono da candidatura neste momento poderia ser lido como admissão de culpa, fragilizaria aliados bolsonaristas nos estados e aumentaria a fragmentação da direita”, avaliou o cientista político.

No meio das investigações sobre o caso, Rodrigo Prado ainda reiterou que as informações divulgadas são apenas “a ponta do iceberg”. “Dos nove celulares de Daniel Vorcaro que foram apreendidos, pouco dos dados que estão disponíveis vieram a público. Então tem muita coisa ainda que pode atrapalhar a pré-candidatura de Flávio, ou até mesmo respingar no governo”, ele ressaltou. “O governo quer jogar a narrativa do ‘Bolso Master’, e os bolsonaristas querem jogar na conta do governo. Vamos ver quem vai ganhar essa guerra de narrativas”, ele completou.

Investimento

Conversas vazadas pelo Intercept Brasil mostraram que Vorcaro se comprometeu a pagar R$ 134 milhões (o equivalente a US$ 24 milhões) para financiar o filme “Dark Horse”, biografia do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL). Desse total, o banqueiro pagou R$ 61 milhões (US$ 10,6 milhões), mas atrasou parcelas do restante do pagamento e Flávio pediu o restante do pagamento, alegando que a falta dos recursos poderia prejudicar a elaboração do filme. Mas a produtora nega ter recebido os repasses.

Diante disso, a Polícia Federal investiga se os recursos transferidos por Vorcaro não teriam sido usados para financiar as despesas do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde ele vive desde fevereiro de 2025.

O deputado federal e produtor-executivo do filme Mário Frias (PL-SP), após confirmar que o nome de Vorcaro não consta entre os investidores disse que o dinheiro do banqueiro foi encaminhado a empresa Entre Investimentos que supostamente teria sido a intermediadora entre o banqueiro e a produção do filme. Em entrevista à Globonews na noite desta quinta-feira (14), Flávio Bolsonaro voltou a negar que o dinheiro de Vorcaro não foi encaminhado para Eduardo e que o dinheiro era “limpo”.