Por: Moara Semeghini - Campinas

Ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde aponta falhas na gestão, estrutura e falta de leitos no Mário Gatti

Problemas na climatização atingem hospitais da Rede Mário Gatti, em Campinas | Foto: Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas

O surto de bactéria multirresistente que levou à interdição da UTI adulto do Hospital Mário Gatti, em Campinas, reacendeu críticas sobre a estrutura da rede pública de saúde do município. A avaliação é da educadora popular em saúde e ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde (2020–2023), Nayara Oliveira.

Segundo ela, o episódio é grave e evidencia fragilidades estruturais. “A ocorrência de surto de bactéria multirresistente e o fechamento da UTI Adulto para novas internações por prazo previsto de 30 dias é um fato gravíssimo, que expõe de forma dramática o grau de fragilização da rede hospitalar pública de Campinas”, afirmou.

Para Nayara, o principal impacto é imediato. “A interdição da UTI do Mário Gatti agrava a escassez de leitos hospitalares na cidade. Somando-se ao fechamento dos leitos de UTI, há consequências mais gerais, como a desorganização da retaguarda, sem leitos para encaminharem os casos urgentes.”

A crítica ocorre em um cenário de sobrecarga já apontado por outros serviços. No mesmo dia da interdição da UTI no Mario Gatti, o Hospital da PUC-Campinas comunicou superlotação no pronto-socorro, enquanto o hospital da Unicamp também vem relatando pressão sobre o atendimento.

Nesta terça-feira (24), o HC da Unicamp, afirmou que a situação permanece praticamente inalterada em relação ao início do mês e “saturada” (quando registrou 394% de ocupação na Unidade de Emergência Referenciada Adulto). O Hospital PUC segue com cerca de 300% de ocupação. A Rede Mário Gatti reiterou que opera entre 95% e 100% da capacidade e o hospital permanece com a UIT interditada: 9 pacientes da UTI foram diagnosticados com a bactéria. O prazo para normalização da UTI Adulto segue o mesmo, de 20 a 30 dias.

Diante da crise, o prefeito Dário Saadi solicitou ao governo estadual a abertura de novos leitos. Segundo a Prefeitura, o secretário estadual de Saúde assumiu o compromisso de viabilizar até 100 leitos SUS no município, incluindo dez de UTI, e a medida foi reforçada em reuniões da Região Metropolitana de Campinas.

Na última semana, o Ministério da Saúde rebateu o prefeito e informou que não houve redução na participação da União no financiamento da saúde em Campinas. O investimento federal no SUS em Campinas somou R$ 529,3 milhões em 2025, um aumento de 16,2% em relação a 2021, segundo nota do Ministério; o Teto Financeiro de Média e Alta Complexidade alcançou R$ 311 milhões no mesmo ano, valor 11,3% maior do que o registrado em 2022. Segundo a pasta, os repasses federais cresceram entre 2021 e 2025, tanto na modalidade fundo a fundo quanto no teto MAC.

O ministério destacou ainda que os recursos são transferidos ao Fundo Municipal de Saúde, e que cabe à gestão local definir sua aplicação. A pasta também afirmou que os valores consideram o fato de Campinas atender pacientes de outros municípios da região metropolitana e do interior.

Plano de contingência e medidas adotadas

Em nota, a Rede Mário Gatti informou que implantou um plano de contingência para garantir o atendimento de pacientes graves durante a interdição da UTI. Casos que necessitam de terapia intensiva estão sendo transferidos para o Hospital Ouro Verde ou para outras unidades por meio da central de regulação municipal.

A rede afirma que adotou medidas imediatas de contenção, conforme protocolos da Anvisa e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, como isolamento de pacientes, uso rigoroso de equipamentos de proteção, intensificação da higienização, monitoramento contínuo e restrição de circulação na unidade.
Também foram realizadas adaptações estruturais e reorganização de leitos para garantir a continuidade da assistência com segurança, além de reforço na capacitação das equipes e incentivo ao uso racional de antimicrobianos.

Relatos apontam problemas estruturais

Nayara afirma que o episódio não é isolado e que há relatos de situações semelhantes. “Chegaram informações de fontes diversas de que acontecimentos semelhantes já ocorreram recentemente”, disse.
Segundo ela, trabalhadores do hospital apontam problemas que exigem apuração. Entre eles, a avaliação de que a UTI “tornou-se, ao longo do tempo, pequena e insuficiente para a complexidade do hospital e da sua porta de urgência e emergência”.

Ela também menciona questões relacionadas às equipes. “Há uma equipe mista, sem renovação, com médicos desvalorizados pela gestão, ao lado de enfermagem terceirizada frequentemente composta por profissionais recém-formados e com pouca experiência em terapia intensiva.”

Outro ponto levantado é a preocupação com a possível recorrência de bactérias multirresistentes. “Relatos indicam que a circulação de KPC e de outras bactérias já seria um problema recorrente na UTI, não necessariamente como surto, mas como presença endêmica”, afirmou.

Em resposta, a Rede Mário Gatti destacou que atua de forma integrada com a Secretaria Municipal de Saúde e que foi criada para otimizar recursos e melhorar o fluxo de atendimento. Segundo a administração, os profissionais da rede compõem um bloco único, distribuído conforme a necessidade dos serviços.

Para a ex-presidente do Conselho, se confirmadas, essas situações indicariam deterioração das condições de segurança. “Estaremos diante não apenas de um evento agudo, mas de uma deterioração progressiva das condições de segurança para o paciente, que teria sido negligenciada por tempo excessivo.”

Estrutura e terceirização

A ex-presidente do Conselho associa o quadro a questões estruturais mais amplas. “A atual crise não pode ser dissociada do modelo de gestão baseado em terceirização, fragmentação das equipes, precarização dos vínculos de trabalho e perda de quadros experientes”, afirmou.

Ela critica ainda a organização da rede. “A própria existência da Rede Mário Gatti contribui para a fragmentação da gestão, constituindo-se em uma ‘segunda secretaria’, estabelecendo um duplo comando na saúde e dificultando a integração em rede.”

Em resposta, a Prefeitura afirmou que a Rede Mário Gatti atua de forma integrada com a Secretaria de Saúde e foi criada para otimizar recursos, agilizar o atendimento e melhorar o fluxo de pacientes no SUS municipal. Segundo a administração, os profissionais compõem um bloco único, compartilhado entre as unidades conforme a necessidade.

A Prefeitura também destacou investimentos de R$ 520,8 milhões na rede em 2025 e apresentou dados de produção assistencial, como atendimentos em prontos-socorros, internações, cirurgias e exames.

Cobrança por transparência

Para Nayara, além das medidas emergenciais, é necessário ampliar a transparência e o monitoramento da situação. Ela defende a divulgação de dados sobre casos, medidas adotadas e impactos na rede, além do acompanhamento de indicadores como mortalidade hospitalar e tempo de internação.
“A crise exige medidas de fundo, com planejamento, fortalecimento das equipes e revisão do modelo de gestão, para evitar a repetição de situações semelhantes”, afirmou. “Não basta adotar medidas de contingência. Se não forem enfrentadas as causas estruturais, novas crises estão desenhadas no horizonte”, afirmou.

Enquanto a UTI permanece fechada para novas internações, o atendimento de pacientes graves segue sendo reorganizado na rede municipal, em um cenário de pressão sobre os serviços de urgência e emergência da cidade.

A Prefeitura afirmou que foi estabelecido um plano de contingência para garantir atendimento a casos graves durante a restrição da UTI Adulto do Hospital Mário Gatti para novos pacientes. Aqueles que necessitam de UTI são transferidos para leitos no Hospital Ouro Verde ou para vagas em outras unidades por meio da central de regulação municipal.

Ministério da Saúde

Mesmo com a ampliação de recursos, estrutura e projetos em andamento, a rede pública de saúde segue operando próxima ou acima da capacidade em diferentes níveis de atendimento.

O investimento federal no Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas somou R$ 529,3 milhões em 2025, um aumento de 16,2% em relação a 2021, segundo nota do Ministério da Saúde enviada ao Correio da Manhã na sexta-feira (20). Já o Teto Financeiro de Média e Alta Complexidade (MAC) alcançou R$ 311 milhões no mesmo ano, valor 11,3% maior do que o registrado em 2022.

De acordo com a pasta, os valores consideram o fato de Campinas atender pacientes de outros municípios da região metropolitana e do interior. O ministério também aponta expansão na estrutura de atendimento, com crescimento de 50% nas equipes de Consultório na Rua e de 21,6% nas Equipes de Saúde da Família. O número de profissionais residentes mais que dobrou no período, com alta de 119,4%.

Na área de investimentos, o governo federal prevê aporte de R$ 11,8 milhões por meio do Novo PAC Saúde para a construção de unidades básicas no município. Também estão em andamento projetos para três novas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS).

O Ministério da Saúde informou ainda que todos os pedidos apresentados pela Prefeitura de Campinas foram considerados habilitados, indicando aprovação técnica e possibilidade de execução. Segundo a pasta, solicitações feitas por gestores municipais no âmbito do Novo PAC tiveram prazos ampliados e valores atualizados para viabilizar a retomada e conclusão de obras.