Uma poda drástica realizada em uma árvore na Rua Modesto Fernandez, em Barão Geraldo, reacendeu o debate sobre o manejo da arborização urbana em Campinas. A intervenção foi denunciada pelo vereador Wagner Romão (PT), que classificou o episódio como “mais um crime ambiental” em publicação nas redes sociais.
Segundo o parlamentar, podas severas como a registrada no distrito estariam relacionadas a um acordo firmado entre a Prefeitura de Campinas e a CPFL em 2023. O entendimento, afirma ele, autoriza a concessionária a realizar cortes profundos, e até a supressão de árvores, quando os exemplares estiverem localizados sob a rede elétrica.
Romão também critica a atuação da própria administração municipal, que, por meio de empresas terceirizadas, realizaria podas igualmente agressivas. Para o vereador, esse tipo de intervenção provoca impactos na biodiversidade, afeta animais que vivem nas árvores, reduz áreas de sombra e contribui para o aumento da temperatura nos bairros.
“O principal problema é esse acordo que permite que a CPFL faça essas podas ou até a retirada das árvores. A própria Prefeitura, por meio de empresas terceirizadas, também tem cometido verdadeiros crimes ambientais”, declarou.
Ele afirma ainda que o mandato tem buscado denunciar casos em que, segundo sua avaliação, a prioridade é dada à rede elétrica em detrimento da preservação das árvores. As manifestações são feitas na tribuna da Câmara e nas redes sociais. Romão diz que, em diversas situações acompanhadas, as equipes responsáveis pelas intervenções não apresentaram laudos técnicos no momento da execução dos serviços, documentos que deveriam ser emitidos previamente pela Secretaria de Serviços Públicos.
O vereador defende mudanças estruturais na política de arborização. Entre as propostas está um projeto de lei protocolado no mês passado que prevê o enterramento da fiação de energia e telecomunicações em até três anos. O texto também determina que novas instalações já sejam feitas de forma subterrânea. A medida, segundo ele, deveria começar pela região central e avançar para os bairros e periferias.
Outra proposta que está em estudo trata da criação de mecanismos para a emissão de laudos e contralaudos independentes. Hoje, afirma Romão, a cidade depende exclusivamente dos laudos elaborados pela Secretaria de Serviços Públicos, e o Conselho Municipal de Meio Ambiente (Condema) não tem competência legal para emitir pareceres alternativos. A intenção é apresentar o projeto no início do próximo ano.
A reportagem questionou a Prefeitura de Campinas sobre o acordo citado pelo vereador, a política municipal de arborização e os procedimentos para emissão de laudos técnicos. Até a publicação deste texto, não houve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.
Segue, abaixo, a resposta da CPFL Paulista, na íntegra:
"A CPFL Paulista informa que a responsabilidade pela arborização urbana, incluindo podas e remoções, é da prefeitura municipal. A concessionária atua apenas em situações emergenciais, quando há risco iminente de acidentes ou interrupção no fornecimento de energia, sempre com autorização ambiental e conforme normas técnicas que estabelecem os afastamentos seguros entre a vegetação e a rede elétrica. O manejo rotineiro ou programado é de competência do poder público.
A interferência da vegetação na rede elétrica é uma das principais causas de interrupções no fornecimento, especialmente em períodos de chuvas e ventos fortes. Em Campinas, a CPFL realiza monitoramento contínuo dessas ocorrências e, durante o verão, intensifica a inspeção de trechos mais vulneráveis, priorizando áreas com histórico recorrente. Essas ações integram o programa Arborização + Segura, que busca conciliar arborização urbana, segurança da população e qualidade do fornecimento de energia.
O programa promove a substituição gradual de árvores com risco de queda por espécies adequadas à convivência com a rede elétrica, como araçás, pitangueiras e quaresmeiras, prevendo o plantio de no mínimo cinco mudas para cada árvore substituída. Em Campinas, a iniciativa já contribuiu para o plantio de mudas e foi reconhecida pela ONU por sua contribuição aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A orientação aos moradores que identificarem galhos próximos ou em contato com a fiação é não realizar intervenções por conta própria e acionar a Prefeitura. Em casos de risco imediato, a solicitação pode ser registrada pelos canais de atendimento da CPFL."