Teatro

Uma cadeia de violências reconstituídas

Companhia Ensaio Aberto encena a trajetória de Olga Benario Prestes a partir de arquivos em montagem documental

Uma cadeia de violências reconstituídas
Projeções de documentos e arquivos de época reforçam a narrativa da montagem Crédito: Divulgação

Em 1936, Olga Benario Prestes foi retirada de uma prisão no Rio, grávida de sete meses, e entregue pelo governo Getúlio Vargas à Alemanha nazista. O navio La Coruña saiu da Zona Portuária com destino à Europa, levando uma militante que acabaria assassinada seis anos depois, na câmara de gás de Bernburg. É a partir desse ponto da história — e da proximidade física com ele — que a Companhia Ensaio Aberto volta a encenar "Olga", no Teatro Vianinha, dentro do Armazém da Utopia.

O Armazém da Utopia fica na Região Portuária, onde a cidade ainda carrega marcas de circulação, trabalho, violência de Estado e apagamento. A montagem propõe que o episódio seja percebido em sua materialidade: a mulher presa e embarcada à força no porto atravessou o Atlântico sob custódia e foi devolvida ao país que operava uma máquina de extermínio sob a hegemonia nazista.

Luiz Fernando Lobo assina dramaturgia e direção. O trabalho se apoia em pesquisa em arquivos brasileiros, europeus e americanos e adota a linguagem do teatro documentário. A referência explicitada pela companhia é a tradição formulada por Erwin Piscator e desenvolvida por Peter Weiss: uma cena que toma documento, registro e testemunho inseridos como matéria dramática. "Os documentos, mesmo os aparentemente mais claros, não falam senão quando sabemos interrogá-los", afirma Lobo, recorrendo a uma formulação do historiador Marc Bloch.

Essa escolha impede que "Olga" se resuma a uma biografia ilustrada. A trajetória da militante é conhecida, mas as circunstâncias de sua deportação ainda exigem leitura aprofundada.

Nascida em Munique, em 1908, ela ingressou ainda adolescente no movimento comunista, passou por Moscou e chegou ao Brasil nos anos 1930 numa missão política ligada a Luiz Carlos Prestes, com quem se casou. Depois da repressão ao levante de 1935, foi presa em 1936. A decisão de Vargas de entregá-la à Gestapo, mesmo grávida, colocou o Estado brasileiro dentro de uma cadeia de violência que a montagem devolve ao centro da cena.

Olga deu à luz Anita Leocádia na prisão. A criança sobreviveu após uma mobilização internacional, enquanto a mãe foi mantida sob custódia nazista até morrer em 1942. O relato costuma adquirir a forma de uma sucessão de datas trágicas; o desafio do espetáculo é devolver espessura humana a essa sequência sem diluir a responsabilidade política envolvida. A companhia parte de papéis, fotografias, prontuários e versões oficiais para perguntar quem construiu esses registros, o que eles silenciam e quais vozes permanecem fora do enquadramento.

Tuca Moraes interpreta Olga e também responde pela direção de produção. Ao seu redor, está o núcleo artístico da Ensaio Aberto, companhia fundada em 1992 por Moraes e Lobo, com trajetória dedicada ao teatro épico e a obras que tratam o palco como espaço de debate da realidade. O elenco reúne Ana Clara Assunção, Bibi Dullens, Dani Arreguy, Daniel de Mello, Gilberto Miranda, Kyara Zenga, Leonardo Hinckel, Luiz Fernando Lobo, Mateus Pitanga, Rossana Rússia e Nicholas Peixoto, estagiário artístico.

J.C. Serroni assina a cenografia; Beth Filipecki e Renaldo Machado, os figurinos; Cesar de Ramires, a iluminação; e Felipe Radicetti, a direção musical e a trilha original. Cada uma dessas áreas trabalha, em princípio, com fragmentos de época, corpos e documentos. A promessa é dar forma cênica a uma história que chega ao presente por registros incompletos e por narrativas frequentemente organizadas pelo ponto de vista de quem exerceu o poder.

O posicionamento político da montagem é assumido. Lobo relaciona a rememoração de Olga à persistência de práticas autoritárias e à circulação contemporânea da extrema direita. Não se trata de esconder a tese atrás de uma suposta neutralidade, mas de expor as escolhas que sustentam a peça. A advertência de Walter Benjamin, citada pela produção — o pedido de rememoração das derrotas, e não de gratidão pelas vitórias — ajuda a definir essa perspectiva.

SERVIÇO

OLGA

Teatro Vianinha (Armazém da Utopia - Avenida Rodrigues Alves, 299, Zona Portuária)

Até 28/9, sexta a segunda (20h)

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)