Teatro

Nós do Morro de portas abertas

Casarão que abriga a companhia teatral que revelou e revela talentos da comunidade passa a receber visitas guiadas

Nós do Morro de portas abertas
O casarão no Vidigal que sedia a Cia Nós do Morro Crédito: Divulgação

No alto do Vidigal, onde o asfalto cede lugar a um labirinto de becos que sobem em direção a uma das vistas mais disputadas do Rio, existe uma casa que nunca foi propriamente de quem a habita. O Casarão do Nós do Morro — edifício erguido pela Igreja Católica nos anos em que congregações religiosas ainda se ocupavam de instalar estruturas de acolhimento nas favelas cariocas — funciona desde 1986 sob regime de comodato, um empréstimo gratuito que, ao longo de quase quatro décadas, se tornou algo raro: um patrimônio afetivo que pertence simultaneamente à Igreja que cedeu o teto e aos moradores que, com as próprias mãos, transformaram cômodos em salas de ensaio e palcos improvisados em janelas para o mundo.

A partir do dia 25 de agosto, esse casarão abre as portas para uma vocação inédita: receber visitantes e contar, de dentro, uma história que até agora circulava sobretudo entre quem a viveu.

A iniciativa nasce de uma parceria com a Na Favela Turismo, empresa criada pelo empreendedor Renan Monteiro, que vem conquistando espaço no turismo comunitário carioca com uma proposta que escapa do roteiro convencional: apresentar o território por quem o conhece, habita e constrói diariamente. A Na Favela Turismo já opera na Rocinha, no Vidigal e no Parque Projetado da Gávea, e lançou em 2024 o Na Favela Drone, projeto que qualifica moradores como pilotos e transforma lajes e mirantes em pontos de experiência turística. A lógica, em todas as frentes, é a mesma: fazer com que o dinheiro do turismo circule dentro da própria comunidade.

O tour piloto está marcado para as 18h30 do dia 25, reunindo guias e mototaxistas da comunidade. Depois, o Casarão funcionará de segunda a sexta, das 10h às 18h, com visitas conduzidas por integrantes do próprio Nós do Morro. Mais que um passeio, a experiência promete bastidores, memória e encontros com a cultura brasileira produzida no Vidigal — a história de um grupo que, fundado pelo ator e jornalista Guti Fraga em 1986, dentro do Centro Cultural Padre Leeb, formou mais de 350 artistas e técnicos, montou mais de 30 espetáculos teatrais e, desde 1995, mantém um núcleo de audiovisual cujos curtas-metragens conquistaram prêmios em festivais da França.

A lista de nomes revelados pelo grupo impressiona pela densidade e pela presença na cultura brasileira contemporânea. Babu Santana, que entrou no Nós do Morro aos 17 anos e logo estaria em "Cidade de Deus", é talvez o caso mais conhecido. Mas a galeria inclui Roberta Rodrigues, Thiago Martins, Jonathan Azevedo, Jonathan Haagensen, Marcello Melo Jr. — uma geração de atores que aprendeu no casarão do Vidigal o ofício que a cidade, fora dali, dificilmente lhes ofereceria. Guti Fraga, que trocou a faculdade de medicina pelo teatro e chegou ao Vidigal no final dos anos 1970, sempre disse que não queria criar "simplesmente um grupo de teatro", mas sim "um grupo de teatro com filosofia de vida". O Prêmio Shell, entre outros reconhecimentos, confirmou que ele conseguiu.

A parceria com a Na Favela Turismo chega em momento delicado para o Nós do Morro. O grupo luta para retomar oficinas e atividades e precisa de novas fontes de sustentabilidade. O imóvel, lembre-se, não lhes pertence: é da Igreja, cedido em comodato, e todas as reformas internas — a adaptação dos cômodos para salas de teatro e cinema, a manutenção cotidiana — foram financiadas e executadas ao longo dos anos pelos próprios moradores, comerciantes locais e apoiadores. Ao ajudar a movimentar o Casarão com visitação turística, a Na Favela Turismo contribui diretamente para esse esforço de reconstrução.

Renan Monteiro sintetiza a lógica do projeto com uma clareza que dispensa comentário: "A favela não precisa que contem a sua história por ela. Precisa de oportunidade para contar, empreender e transformar a própria história em futuro."

Há algo de inesperado nessa equação. O turismo, tantas vezes acusado de transformar territórios populares em cenário para consumo externo, opera aqui no sentido inverso. Não se trata de levar visitantes para fotografar a vista do Vidigal — embora a vista exista e seja deslumbrante —, mas de abrir a casa onde uma das experiências teatrais mais relevantes do Brasil contemporâneo aconteceu e continua acontecendo, sob teto emprestado. O visitante entra no Casarão e encontra algo que nenhum roteiro convencional oferece: a possibilidade de ouvir a história de quem a fez, no lugar onde ela foi feita.

No Vidigal, a fronteira entre turismo e cultura nunca foi clara. Talvez porque ali, mais do que em qualquer outra favela do Rio, a cultura não é adorno: é infraestrutura. O Nós do Morro é, desde 1986, parte essencial dessa engrenagem — formação, profissionalização, revelação de talentos, produção artística que cruzou oceanos. Que agora, com as portas abertas, encontra uma forma de se sustentar sem abrir mão do que sempre foi: uma casa de quem a construiu, não de quem a possui.

Serviço

Casarão do Nós do Morro

Vidigal — Rio de Janeiro

A partir de 25 de agosto

Segunda a sexta, das 10h às 18h

Visitas conduzidas por integrantes do Nós do Morro

Informações e agendamento: Na Favela Turismo