Ao começar a escrever o livro "Selvagem", Marília Passos pensava em contar uma história de amor num lugar extremo. O lugar escolhido foi o Sudão do Sul, país que desde 2013 se arrasta numa guerra civil que já deslocou milhões de pessoas e transformou cada dia no território em exercício de sobrevivência.
Mas, ao longo da escrita, algo se deslocou. A autora percebeu que estava, acima de tudo, narrando a trajetória de uma mulher que encontra coragem para romper com uma vida infeliz e descobre que a transformação que procura não está no outro, mas dentro de si. Desse quarto romance, finalista do Prêmio Jabuti de 2023, surge agora o monólogo homônimo em cartaz até 4 de setembro no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, com direção de Fernando Philbert e Gabriela Rosas em cena.
A adaptação da obra literária para os palcos abriu camadas que a prosa até3 então não tinha revelado. "Novas leituras surgiram ao longo desse percurso. A criação nunca termina", observa Marília. No palco, a história de Mariana — obstetra desencantada com o casamento e a vida que leva no Brasil — ganha uma espessura particular graças ao formato de monólogo, que dispensa interlocutores e deixa a voz da personagem preencher sozinha o espaço inteiro.
Mariana abandona tudo para se voluntariar numa missão dos Médicos Sem Fronteiras no Sudão do Sul. Confrontada pela violência, mergulha numa realidade extrema que desafia suas certezas e transforma profundamente sua maneira de existir. A personagem vive ainda uma paixão arrebatadora por Nino, médico brilhante e enigmático que lhe apresenta uma forma diferente de enxergar o mundo, e a trama se desdobra em discussões sobre as violências que o corpo feminino absorbe, as complexidades da maternidade e a sobrecarga mental que pesa sobre mulheres em todas as latitudes — do consultório brasileiro ao campo de refugiados africano.
Philbert, gaúcho de Porto Alegre que chegou ao Rio em 1997 após três anos na Marinha, sabe que o centro da peça não é a guerra. "O foco não é a violência em si, mas a transformação dessa mulher", explica. "O que nos interessava era acompanhar essa virada de chave, a descoberta de uma nova forma de viver e de amar."
A transformação de Mariana custa caro: ela perde referências, enfrenta violência, vive paixões que exigem renúncia. A peça propõe que a coragem de mudar de vida raramente vem acompanhada de certezas — e que é justamente na incerteza, paradoxalmente, que brotam as alegrias mais novas.
Encenador com mais de 30 espetáculos montados no Brasil, Uruguai e Portugal, Philbert passou por assistências de direção com Aderbal Freire-Filho, Domingos Oliveira e Lázaro Ramos — escola prática que lhe dá firmeza para conduzir um texto que oscila entre o lírico e o brutal sem se perder em nenhum dos dois extremos. Ao abordar diferentes camadas da experiência feminina, o espetáculo abre espaço para múltiplas leituras: "Ao mesmo tempo, aborda questões femininas muito importantes, como a maternidade, a sobrecarga mental e as pequenas violências cotidianas", reflete o diretor.
Gabriela Rosas trouxe para Mariana uma bagagem incomum. Formada em Cinema pela FAAP, estudou na École Philippe Gaulier, em Paris, escola conhecida por um método que combina rigor físico e provocação intelectual, onde mergulhou em máscara neutra, clown, bouffon e Tchekhov. Recebeu o Kikito de melhor atriz em Gramado pelo curta "Noite de Sol" e acumulou temporadas de teatro e televisão. "O que mais me emociona ao interpretar Mariana é acompanhar a coragem dela de sair de uma vida estável e se lançar ao desconhecido em busca de se sentir viva novamente", diz. "Ao enfrentar situações extremas, inclusive no amor, ela encontra força para seguir em frente e transformar a própria história. Espero que o público seja atravessado por essa trajetória e saia do espetáculo refletindo sobre seus medos, desejos e sobre a coragem necessária para mudar a própria vida."
Marília Passos é autora de seis livros, além de ter colaborado em coletâneas de contos, roteiros de séries e filmes. Natural de Campinas, mudou-se para o Rio para estudar teatro, dança e literatura. Depois de 10 anos atuando em novelas e filmes, começou a se dedicar à escrita. Seus livros retratam universos distintos, mas seus personagens têm algo em comum: estão em busca de sua individualidade. Reinvenção e a busca pela verdade são os temas principais de sua obra. A adaptação de "Selvagem" marca também seu retorno ao teatro — ela mesma passou pela atuação antes de virar escritora, o que dá ao texto uma sensibilidade cênica que o diretor soube aproveitar.
SERVIÇO
SELVAGEM
Teatro Gláucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana)
Até 4/9, às quintas e sextas-feiras (20h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)
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