Teatro

Passado em atrito com o presente

'Tudo Preto: uma re_vista' ocupa o CCBB no centenário da Companhia Negra de Revistas, criada por De Chocolat em 1926

Passado em atrito com o presente
'Tudo Preto: uma re_vista' resgata espetáculo emblemático da curta trajetória da Companhia Negra de Revista Crédito: Ira Barillo/Divulgação

Quando "Tudo Preto" estreou no Teatro Rialto, no Rio, em julho de 1926, a abolição tinha menos de 40 anos, 38 mais precisamente. A Companhia Negra de Revistas, criada pelo ator e cantor De Chocolat, punha em cena artistas negros num país em que a presença negra era decisiva na música e na cidade, mas raramente recebia o mesmo direito de autoria, protagonismo e memória. Cem anos depois, "Tudo Preto: uma re_vista" volta ao tema no Teatro I do CCBB, em montagem de Mauricio Lima e Tainah Longras.

A palavra "re_vista" explica. A dupla de direção parte do texto de De Chocolat e faz dele um reencontro crítico com um arquivo que sobreviveu de modo fragmentário. A montagem observa o teatro de revista não como gênero menor, mas como uma máquina popular de canções, dança, comentário urbano e sátira. E pergunta o que acontece quando essa forma, historicamente submetida a hierarquias de gosto, é relida a partir de quem a construiu e de quem ficou fora dos relatos consagrados sobre a cultura brasileira.

A Companhia Negra de Revistas teve vida breve, mas impacto desproporcional à sua duração. Pesquisas sobre o grupo registram que "Tudo Preto" discutia mestiçagem, racismo, cultura negra e pertencimento nacional diante de um público amplo e diverso. Seu elenco reuniu nomes como De Chocolat, Pixinguinha e Sebastião Cirino. A empresa circulou pelo Rio e por São Paulo antes de se dissolver em 1927, em meio a tensões internas e ao racismo.

Na nova encenação, Afroflor, Beà Ayòóla, Juliane Cruz, Lucas Sampaio, Lux Nègre e Nely Coelho são atores-cantores em diálogo com os personagens e as situações da obra de 1926. Benedito e Patrício, que procuram o elenco da primeira companhia negra de revistas, conduzem uma travessia por tipos urbanos e por um Rio em que a cidadania negra ainda era uma disputa aberta, muito depois do fim jurídico da escravidão.

Para Mauricio Lima, a revista, tantas vezes vista apenas pela ótica do entretenimento, permite outra arquitetura de cena: "A revista, gênero teatral historicamente subestimado, visto muitas vezes apenas pela ótica do entretenimento, nos ofereceu um campo fértil para experimentação de linguagem e criação de cenas onde o pensamento crítico, o teatro, a dança e as sonoridades dialogam sem hierarquias". Não há uma separação entre memória e presente. O passado exige do agora forma, voz e corpo.

Sua colega de montagem, Tainah Longras, situa a continuidade da pesquisa no próprio modo de criar. "Nessa peça nós damos sequência tanto à pesquisa com relação à Companhia Negra de Revistas quanto à pesquisa estética que experimenta sonoridades que sampleiam esses 100 anos de história, elementos tradicionais em tensionamento com dispositivos mais contemporâneos, incorporações de poses de bailarinos dos anos 1920 registradas em fotografias e a relação com outros arquivos corpóreos, entre outras estratégias para lidar cenicamente com essa matéria historiográfica". É uma reescrita que não apaga a peça de De Chocolat, mas a põe em atrito com o presente.

A música, dirigida por Muato, participa dessa ponte. Instrumentos acústicos e sons eletrônicos se atravessam, enquanto os sopros evocam Pixinguinha, o choro e outras sonoridades brasileiras e pretas. "A ideia é que a música tenha uma forte interação entre os instrumentos acústicos e os sons eletrônicos", afirma o diretor musical. A ideia de contracanto — uma linha que não apaga a melodia principal, mas a amplia — ilustra a montagem: vozes de épocas diferentes coexistem sem a obrigação de se tornar uma só.

A cenografia de Júlia Vicente tem no centro uma escultura negra, cuja presença responde ao volume do arquivo mobilizado pela montagem: "Essa escultura negra é uma tentativa de materializar o volume de material histórico com o qual lidamos nessa pesquisa continuada. É um volume que tem agência e camadas em cena, mas que não são tão simples de decifrar", explica a diretora de arte. Figurinos e movimento afastam a exposição estática: há referência a Josephine Baker, à dança de revista e a corpos portadores de conhecimento. Para o diretor de movimento Rômulo Galvão, "buscamos extrair pequenas células de ação e de ritmo que servissem como disparadores para a criação de novas sequências coreográficas".

A peça nasce no mesmo percurso de "Vinte!", criação anterior de Lima e Longras, vencedora do Prêmio Shell de dramaturgia em 2026. Em vez de repetir uma história cultural em que o moderno começa sempre em 1922 e em São Paulo, "Tudo Preto: uma re_vista" recoloca 1926, o Rio e uma companhia negra no centro da conversa.

SERVIÇO

TUDO PRETO: UMA RE_VISTA

CCBB Rio de Janeiro — Teatro I (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)

Até 13/9; quarta a sábado, às 19h, e domingo, às 18h

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)