Teatro

Acerto de contas em dia de festa

Em cartaz no Teatro dos 4, drama de Thiago Marinho reúne mãe e filhos numa casa atravessada pelo Alzheimer, segredos e disputa de poder

Acerto de contas em dia de festa
Na Na trama de 'O Formigueiro tudo acontece em um único dia, durante o reencontro de três irmãos para os preparativos do almoço de aniversário da mãe, que está nos estágios finais da doença de Alzheimer Crédito: Divulgação

Uma família se reúne para preparar o aniversário da mãe e descobre que nenhuma celebração começa do zero. Em "O Formigueiro", texto e direção de Thiago Marinho, três irmãos voltam à casa de Gilda, já nos estágios avançados de Alzheimer, carregando pendências que o convívio havia deixado em suspenso. A chegada de Cláudio Márcio, marido de uma das irmãs, procurado pela polícia após um escândalo de corrupção, desloca a reunião doméstica para uma zona mais instável: o almoço deixa de ser protocolo e se torna um campo de confronto.

Em temporada no Teatro dos 4, na Gávea, a montagem trabalha com uma premissa reconhecível sem se reduzir ao diagnóstico que a aciona. O Alzheimer é parte decisiva da trama, mas não funciona como atalho para a emoção. A doença altera a organização da casa e expõe as perguntas que uma família costuma adiar: quem passa a decidir, quem cuida, quem assume o poder quando a figura central perde a capacidade de conduzir a própria rotina. Marinho organiza esse movimento em torno de Luiz, Joana e Victor, irmãos que entram em cena com afetos, ressentimentos e versões incompatíveis da mesma história.

Na formulação do autor, a família pode ser lida como um formigueiro: uma estrutura com funções, hierarquias e uma liderança que parece natural até o momento em que deixa de existir. Quando a mãe perde esse lugar, a ordem se desarranja, e os filhos precisam negociar não apenas a logística do cuidado, mas a memória daquilo que foram uns para os outros. A imagem evita transformar os personagens em casos exemplares. Cada um carrega seu próprio ponto cego; ninguém se apresenta como inocente ou inteiramente culpado.

O elenco reúne Diego de Abreu, Lucas Drummond, Roberta Brisson e Rodrigo Fagundes. Conhecido por trabalhos de humor, Fagundes encontra em Luiz uma zona de fragilidade que não dispensa a comicidade. A combinação foi reconhecida em março, quando o ator recebeu o Prêmio do Humor, na categoria Performance, pelo papel em "O Formigueiro". A distinção diz respeito à atuação de Fagundes, não a um prêmio concedido à montagem como um todo — precisão importante para uma peça que usa o humor menos como fuga do drama do que como mecanismo de sobrevivência dentro dele.

O texto marca a estreia de Thiago Marinho como autor solo. Com supervisão artística de João Fonseca, o espetáculo constrói uma comédia dramática em que as revelações não chegam para organizar a casa, mas para embaralhar ainda mais as posições de cada personagem. A corrupção associada a Cláudio Márcio amplia o alcance do conflito, sem tirar o centro da sala de estar: é ali que as relações se desfazem e se recompõem, na proximidade entre irmãos, cunhados e uma mãe cuja presença organiza a cena mesmo quando sua fala já não sustenta a ordem anterior.

Essa escala íntima explica parte da força da proposta. O Alzheimer costuma aparecer no palco como emblema de perda; "O Formigueiro" desloca o foco para quem permanece ao redor da pessoa doente e precisa lidar com a transformação dos vínculos. A doença não apaga apenas lembranças: altera a distribuição de responsabilidades, reabre feridas e torna visível uma desigualdade antiga na maneira como cada membro da família exerce cuidado, controle ou ausência. A peça encontra humor nesses impasses, mas não os alivia por completo.

SERVIÇO

O FORMIGUEIRO

O Formigueiro"

Teatro dos 4 (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52, 2º piso)

De 31/8 a 28/9, segundas-feiras (20h)

Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia)