Teatro

O criador responde pela criatura?

Montagem do Grupo Liquidificador atualiza o mito de Frankenstein com questões que perpassam ética e responsabilidade

O criador responde pela criatura?

Mais de dois séculos depois de sua publicação, "Frankenstein" nos faz pensar no que acontece quando o desejo de criar ultrapassa a disposição de responder pelas consequências da criação? É desse ponto que parte "Frankenstein de Mary Shelley", em cartaz até domingo (30), no Teatro III do CCBB, no Centro. A montagem do Grupo Liquidificador desloca o romance de 1818 para um presente atravessado pela inteligência artificial.

Com direção de Fernanda Alpino e dramaturgia de Fernando de Carvalho, o espetáculo põe Ana Quintas e Larissa Souza em cena para embaralhar as fronteiras entre Mary Shelley e sua criatura. A autora entra no palco como personagem e se vê confrontada pelo ser que criou. A montagem se afasta das versões consagradas pelo cinema e recupera o conflito central do livro: a responsabilidade de quem cria.

A diretora liga esse embate ao presente. "Em 1818, Mary Shelley já alertava para os perigos de um avanço tecnológico que não vem acompanhado de vínculo, ética e responsabilidade", afirma Fernanda Alpino. A fala dá medida à operação da peça: a inteligência artificial não surge como enfeite de contemporaneidade, mas para recolocar a pergunta de Shelley num mundo que delega a máquinas imagens, vozes, decisões e relações.

Essa escolha devolve à criatura uma dimensão que o imaginário do horror deixou em segundo plano. Ela não é somente o monstro de aparência aterradora, mas alguém que exige nome, escuta e reconhecimento. No espetáculo, esse pedido se encontra com uma discussão sobre corpo e memória: diante da noção de inteligência artificial, a criatura reivindica ter carne, osso, lembranças, solidão e amor.

Fundado em Brasília em 2010, o Grupo Liquidificador completa 15 anos com a montagem, depois de temporada na capital federal. A cena mistura aventura, palestra, comédia, drama, horror e ficção científica para preservar a ambiguidade do clássico: a invenção pode ser espanto e promessa, mas também abandono e violência.

Com 100 minutos de duração, Frankenstein de Mary Shelley transforma a figura criada por Mary Shelley em interlocutora de seu tempo. O monstro deixa de ser apenas a criatura e passa a habitar também o gesto de criar sem assumir o que vem depois.

SERVIÇO

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY

CCBB Rio — Teatro III — Rua Primeiro de Março, 66, Centro

Até 30/8, sexta e sábado (19h) e domingo (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)