Arequintada produção dos irmãos Marco e Daniella Griesi invade os palcos com nova montagem para o clássico de Chico Buarque, "Ópera do Malandro - Musical", inspirado na "A Ópera dos Mendigos" (1728), de John Gay e "A Ópera dos Três Vinténs" (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Identifica-se como inédita esta montagem, tamanha a inventividade da adaptação de Jorge Farjalla para obra tão célebre, sem corromper o brilhantismo original. Mesclar religiões africanas aos arquétipos umbandistas dialoga perfeitamente com a peça.
Max Overseas é o malandro contrabandista que aproveita-se de todos, mas o ódio nutrido pelo cafetão Fernandes de Duran, casado com Vitória Régia, proprietários de bordéis e aspirantes à alta sociedade, obstaculiza suas façanhas. Teresinha, a filha do casal, envolve-se com Max e seus pais arquitetam destruir o genro. Como quem puxa aos seus não degenera, a filha astuciosa desatende seus progenitores e casa-se com ele, assumindo as atividades ilícitas do marido, prejudicando-o. Amigos de infância, Max e o delegado, sócio da clandestinidade do amigo e do sogro, que ameaça a desagregar todo aquele processo corruptivo, instalando-se um universo de maldições, onde todos articulam vantagens morais e financeiras.
Um Exu descerra os caminhos para a encenação brilhante de Jorge Farjalla, que costura seu espetáculo como um terreiro maximizado de emoções. A direção valoriza a adaptação, em que ambas ressoam poética e politicamente na audiência extasiada, numa inspiração brechtiana. Investe no tom melodramático, fabricando climas e suspensões dramáticas da melhor qualidade, equalizando todo o elenco. Imagens, interpretações exuberantes e instigantes são reveladas, respaldadas num asseio teatralizado, contrapondo as mazelas urdidas no texto, reverberando como ópera.
As cenas em conjunto são de extrema beleza, acrescidas de orientações estéticas que reafirmam uma teatralidade, que por muitas vezes encontra-se evadida nos tablados cariocas. Todas as cenas muito bem conduzidas, mas a escolha de uma atriz trans para viver Geni é um dos pontos altos da montagem, ressaltando uma diretriz humana e social, fomentando a diversidade de gênero. Farjalla abrilhanta-se ao finalizar sua obra com o ponto de Maria Padilha da Calunga, aludindo a passagem da personagem do mundo material para o espiritual, encerrando os trabalhos com o gol de placa.
O elenco, afinadíssimo, retumba como resultado de suas escolhas oportunas. José Loreto imprime sedução à malandragem protagonista, com um carisma fora do comum e entrega excepcional, manifestando o poder que tem como astro. O ator estabelece ótima química com os demais, exibindo talento e eficiência. Eficiência, aliás, é o termo adequado para adjetivar Tiago Barbosa - assisti aos 2 atores - que além de brilhar compondo seu malandro, evidencia um corpo disponível, encantando-se com "Pedaço de Mim", comprovando sua vasta experiência em musicais e também alimenta seu protagonismo com segurança.
Carol Costa sustenta perfeito domínio técnico, com corporeidade elástica e inteligência cênica. A mesma inteligência vale para o talento de Totia Meireles, arrebatando-nos todo o tempo em exposição falada e cantada, com presença deslumbrante. Marya Bravo arquiteta dramaticidade e faz do seu canto a magia que uma verdadeira artista de musical apodera-se. O dueto de Carol e Marya é eletrizante, além do ótimo confronto das personagens. Ademais, é a Geni de Valéria Barcellos que o público ovaciona, após uma emocionada atuação, que institui um momento histórico do teatro brasileiro, na presença de sua ótima atriz, tanto na grande cena arrebatadora quanto no timing cômico, e que merece este espaço, numa intensa representatividade. Edgar Bustamante, Paulo Viel, Ana Luiza Ferreira, Samuel Conze, Abrahão Costa, Vânia Canto, Mateus Ribeiro, Eddy Norole, Marina Mathey, Mirella Guida, Marisol Marcondes, Giu Mallem, Preta Ferreira, Dai Ribeiro e Gabriel Querino são criativos, além de Amaury Lorenzo, que não representou nestas sessões.
Escadaria, painéis arriados do urdimento situam localidades, uma gaiola dourada é a prisão da apropriada cenografia de Chris Aizner. Destaca-se a vestimentária de Ùga Agú e Jorge Farjalla, tecidos volumosos e predominância do vermelho, roxo e preto reforçando decadência, desejo, transgressão e perigo. Numa transformação significativa o malandro inicia de vermelho, marginal, e evolui ao branco, incorporando respeitabilidade e nova identidade. A imponência de figuras na sociedade construída de aparências.
O visagismo de Simone Momo remete ao clown. A renovadora direção musical de Gui Leal é preciosa. Gabriele Souza derrama sobre as personagens o sangue aflito daquela gente sem escrúpulo. E Leilane Teles fulgura nas belas coreografias. Uma beleza, do abrir ao fechar o pano!
SERVIÇO
ÓPERA DO MALANDRO
Teatro Multiplan (VillageMall - Av. das Américas, 3900 - Piso SS1 - Barra da Tijuca)
Até 30/8, sexta (20h), sábado (16h e 20h) e domingo (15h30 e 19h30) | Entre R$ 25 e R$ 350
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