Correio da Manhã
Fernando Molica

Propina e a desigualdade no país

O valor do suborno é capaz de gerar revolta até mesmo em presídios onde ficam condenados por roubos que renderam um ínfimo percentual da quantia acumulada por fiscais da Secretaria de Fazenda de São Paulo.

Propina e a desigualdade no país
Rede de lojas recebeu multa de R$ 1,04 bilhão por fraudes fiscais Crédito: Divulgação / Fast Shop

A revelação de que a Fast Shop pagou R$ 442 milhões de propina para viabilizar um esquema gigantesco de fraude no pagamento de tributos indica que a concentração de renda e as desigualdades sociais no país existem até mesmo no universo da roubalheira.

A cifra é capaz de gerar revolta até mesmo em presídios onde ficam condenados por roubos que renderam um ínfimo percentual da quantia acumulada por fiscais da Secretaria Estadual de Fazenda de São Paulo. Isso, sem falar no total desviado por donos e por um diretor da Fast Shop — a empresa recebeu multa de R$ 1,04 bilhão.

Os caras fizeram esse assalto ao dinheiro da população paulista sem usar armas, sem promover guerras por domínio de territórios, sem despertar na população o ódio e o desejo de vingança provocados pelos chamados bandidos comuns, que tanto nos assustam. A velha história de gente fina ser outra coisa.

É tanta grana que chega a dar saudades dos tempos em que — era o que se dizia — as propinas pagas a agentes públicos ficavam na casa dos 10% do valor do contrato da obra ou da prestação de serviços. Talvez seja o caso até de propor uma espécie de tabelamento da safadeza.

Há algumas décadas, o economista Mário Henrique Simonsen, que ocupou ministérios durante a ditadura militar, sugeriu, de maneira irônica, uma fórmula mágica para economizar despesas em obras desnecessárias e caras, criadas apenas para enriquecer empreiteiros e políticos: o governo pagaria a propina e não faria a obra. No resumo da ópera (ele era fã do gênero musicial), sairia mais barato.

Brincadeiras à parte, a revelação de uma fraude tão gigantesca quanto a praticada pela Fast Shop em conluio com funcionários públicos tem que servir de reflexão sobre o tipo de sociedade que estamos construindo por aqui. Não é aceitável que uma dinheirama desse tamanho seja desviada, ao longo de anos, com tanta facilidade.

O pior é que parecemos todos meio anestesiados pela sucessão de notícias que indicam casos e mais casos de corrupção. E tome de emendas parlamentares suspeitas, de bancarização de integrantes dos três poderes, de contratações irregulares, de acordos apresentados como políticos e que têm como objetivo garantir a impunidade dos integrantes de determinados grupos ou quadrilhas.

A polarização piora o processo de prevenção, controle e punição ao absolver de maneira prévia bandidos alinhados com este ou aquele lado do universo político; é como se a sociedade tivesse aderido em bloco a regulamentos impostos por organizações criminosas — é como se moradores de área dominada pelo comando A adotassem seus algozes e passassem a odiar quem vivesse em locais mantidos sob o jugo do comando B.

A adaptação para o universo institucional de uma visão canhestra, típica das paixões futebolísticas, serve para garantir impunidade aos ladrões, que sempre terão pessoas para defendê-los.

O caso paulista merece investigação mais apurada — é improvável que tamanha negociata pudesse ser realizada sem proteção de políticos com influência na máquina pública. É difícil acreditar que eles tenham permitido tamanha pilantragem de graça, sem qualquer tipo de compensação, de carinho, de (como já me disse um deputado) "faz-me rir".