Correio da Manhã
Fernando Molica

O robusto Nei Lopes e a MPB

A declaração-manifesto de compositor ressaltou uma questão fundamental de nossa cultura, a não inclusão do samba, o mais abrangente gênero da música popular brasileira, no conceito de MPB

O robusto Nei Lopes e a MPB
Nei Lopes no lançamento de sua autobiografia Crédito: FM

Em "O 'robusto' menino de Irajá" (editoras Mórula e Expressão Popular), sua recém-lançada autobiografia, Nei Lopes cita reportagem da Folha de S.Paulo sobre o CD "De letra e música" (2004) — nela, o compositor afirma que tivera, com o disco, a intenção de "romper essa linha arbitrária entre o que seja samba e o que seja MPB". Ele dividiu a interpretação das suas canções com Chico Buarque, Alcione, João Bosco, MPB4, D. Ivone Lara, Martinho da Vila e outros nomes estrelados.

A declaração-manifesto ressaltou uma questão fundamental de nossa cultura, a não inclusão do samba, nosso mais importante e abrangente gênero, no conceito de MPB. Este, identificado com uma produção oriunda, principalmente, de uma classe média universitária e quase sempre branca.

Desde então, a marca passou a ser carimbada em várias vertentes de nossa produção musical, caracteriza artistas como os cariocas Chico Buarque e Tom Jobim, os mineiros Milton Nascimento (nascido no Rio) e João Bosco, os baianos Caetano Veloso e Gilberto Gil, os cearenses Belchior e Fagner, a gaúcha Elis Regina, o pernambucano Alceu Valença.

Muitos deles beberam na fonte do ritmo que mais nos traduz, mas não são classificados de sambistas, designação reservada para, quase sempre, negros oriundos de favelas ou subúrbios cariocas ou do Recôncavo Baiano.

Um processo que excluiu da sigla MPB artistas como Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione, Zeca, Paulinho da Viola, Nei Lopes - fora os mais velhos, Cartola, Nelson Cavaquinho, Zé Keti e Monarco.

Todos são quase sempre citados como sambistas, uma designação legítima e mais do que honrosa, mas limitadora. É impossível não associar esta delimitação como uma forma de discriminação, de desenho de outra linha divisória em uma sociedade racista. O processo é tão curioso que não foi criada, para o pessoal da MPB, uma definição como "mpbista". Eles, no consenso geral, produzem música popular brasileira, e ponto.

O caso dos sambistas é diferente do que ocorre com grandes nomes do jazz. Sim, eles são jazzistas, mas também classificados como grandes nomes do mainstream da produção musical norte-americana. No jazz, o adjetivo que primeiro define seus artistas amplia sua atuação. Nas antigas lojas de discos, os dedicados ao gênero ficavam ao lado dos que apresentavam música de concerto.

A conceituação que restringe os sambistas não é suficiente, porém, para negar o óbvio, muitos dos nossos grandes compositores são sambistas; a obra de Nei Lopes — em especial, a composta com Wilson Moreira — está no mesmo patamar de brilhantismo do primeiro escalão da música brasileira (com ou sem o adjetivo "popular": Cartola, Chico, Caetano, Gil, Tom, Villa-Lobos e Pixinguinha, entre outros, jogam no mesmo time).

Compositor, romancista, ilustrador, pesquisador, Nei, na ótima definição de Muniz Sodré, é um polímata, "alguém que, numa encruzilhada diante de várias placas de conhecimento, não segue apenas o caminho indicado por uma delas, mas por várias". Um artista de obra pra lá de robusta, sem aspas.