Correio da Manhã
Fernando Molica

O mandato coletivo de Ciro

Segundo as apurações, o senador foi além, e privatizou a delegação recebida de eleitores de seu estado: 897.959 cidadãos votaram em Nogueira e elegeram Daniel Vorcaro.

O mandato coletivo de Ciro
Segundo a Polícia Federal, Ciro Nogueira apresentou emenda redigida pelo Master Crédito: Agência Brasil

A julgar pela apuração da Polícia Federal, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) deu uma interpretação particular ao conceito de mandato coletivo e tratou de dividir o seu com o Banco Master. Segundo investigações, ele foi além, e privatizou a delegação recebida de eleitores de seu estado: 897.959 cidadãos votaram em Nogueira e elegeram Daniel Vorcaro.

Isso, de acordo com a PF, em troca de favores, que incluíam uma versão turbinada do velho Mensalão: pelo aluguel ou venda do mandato, o senador receberia R$ 300 mil ou R$ 500 mil mensais, o direito de usar uma casa do Master, participação subsidiada em empresa e pagamento de viagens e jantares. O voto em Nogueira tinha valor.

A apuração citada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, diz que o ex-ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro recebeu do Master o texto de emenda que favorecia diretamente o banco: ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o valor do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que assegura o ressarcimento de investidores.

"Saiu exatamente como mandei", teria dito Vorcaro, pelo que diz a PF. O uso do verbo "mandar" reforça a ideia da operação de compra e venda: A interferência de Vorcaro, também segundo as investigações, teria ocorrido em outros projetos abraçados por Nogueira.

O senador piauiense, que na prática atuou como primeiro-ministro de Bolsonaro, não foi o único a apresentar proposta sob medida para o Master. O deputado Filipe Barros (PL-PR), pré-candidato ao Senado, também protocolou um projeto que aumentava para R$ 1 milhão a garantia para investidores — o FGC era um dos principais argumentos usados por bancos e corretoras para convencer investidores a colocarem dinheiro em papéis do Master.

Caberá à Justiça avaliar as provas, determinar aprofundamento de investigações e julgar Nogueira. As evidências são muito grandes, mas é claro que tudo pode não ter passado de uma simples coincidência.

O episódio ilustra, porém, o tamanho do jogo de interesses escusos movimentado pela política e reforça a necessidade de uma apuração ainda mais profunda, em todos os poderes da República. Um escândalo como o do Master não ocorreria sem parceria e cumplicidade de agentes públicos.

O que está em questão é muito maior que inocência ou a culpa deste ou daquele político ou magistrado; mas a credibilidade das tão faladas instituições. A profusão de casos ressalta a necessidade de uma reforma política ampla — é insustentável a manutenção de um sistema que possibilita a cada parlamentar ser representante dos seus próprios interesses e/ou dos seus patrocinadores de ocasião.

Ao alugarem ou venderem seus poderes, agentes públicos implodem a estrutura constitucional, agem de maneira tão ou mais danosa que os golpistas do 8 de Janeiro, que acabaram de ser beneficiados pelo Congresso — com o voto de Nogueira.