As chances de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aumentaram na avaliação da consultoria Eurasia Group a menos de três meses da eleição. Em estudo divulgado nesta semana, a probabilidade de vitória do petista passou de 55% para 60%. A mudança, porém, está longe de representar uma vitória antecipada.
Para a consultoria, a corrida ao Palácio do Planalto continua competitiva e dependerá, sobretudo, da economia, do ambiente político e da qualidade das campanhas. A avaliação está no estudo "Chances de reeleição de Lula sobem para 60% com aprovação em alta".
A revisão também representa uma mudança na leitura da própria consultoria. Desde maio, após o vazamento do áudio entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, parte do mercado passou a tratar Lula como favorito. A Eurasia, no entanto, manteve a projeção em 55% por entender que o desgaste do adversário poderia ser passageiro e que ainda havia preocupação com os impactos da inflação de alimentos provocados pelo conflito no Oriente Médio. A elevação para 60% só ocorreu após a recuperação dos índices de aprovação do presidente e a redução desses riscos externos.
Aprovação
Segundo a Eurasia, a principal razão para a revisão não foi o desgaste enfrentado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) após o caso Banco Master, mas a recuperação consistente da aprovação do presidente. O índice, que havia atingido 44,6% no fim de abril, ultrapassou os 47% antes mesmo do início oficial da campanha. A consultoria destaca que a melhora ocorreu impulsionada pelo efeito acumulado de medidas do governo, como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, o Gás do Povo, a tarifa social de energia, o Desenrola 2.0 e propostas voltadas aos microempreendedores, fatores que costumam favorecer quem busca a reeleição.
O cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, avalia que a revisão acompanha uma tendência observada em diferentes levantamentos, mas não consolida o resultado da disputa. "Olha, esse favoritismo do Lula, o favoritismo consolidado em política, por não ser uma ciência exata... os cenários em política podem mudar muito rapidamente."
Na avaliação de Rodrigo Prando, a melhora do presidente também passa por uma estratégia de fortalecer a percepção positiva da economia enquanto a oposição enfrenta dificuldades para organizar a pré-campanha. "Economicamente, o governo fez de tudo numa estratégia para aumentar a sua avaliação positiva", afirma. Segundo ele, programas sociais, renegociação de dívidas, medidas voltadas ao consumo e ações direcionadas ao microempreendedor ajudam a criar uma sensação de melhora do poder de compra, o que costuma beneficiar quem está no governo.
Ao mesmo tempo, o cientista político avalia que o principal adversário de Lula perdeu espaço para apresentar propostas. "Flávio Bolsonaro deixou de ter uma campanha que porventura poderia ser propositiva para ser uma campanha reativa. Ele passou a reagir aos escândalos." Para ele, episódios envolvendo o Banco Master, conflitos internos no campo bolsonarista e desgastes sucessivos acabaram fragmentando o capital político do senador.
Mesmo com a revisão das projeções, a própria Eurasia recomenda cautela. O relatório aponta que segurança pública e corrupção continuam sendo os temas que mais preocupam o eleitorado e ainda favorecem a oposição. Além disso, fatores externos, como uma eventual pressão sobre a inflação de alimentos provocada pelo cenário internacional, podem alterar o humor do eleitor até outubro.
Para Prando, esse é justamente o motivo de o cenário permanecer aberto. "A política não é ciência exata. A gente tem probabilidades e desenhos de cenários, mas sem a certeza de que isso possa vir a acontecer." Segundo ele, embora Lula chegue mais fortalecido ao momento atual da corrida eleitoral, "não existe liderança consolidada" e fatos novos podem mudar o rumo da disputa nos próximos meses.
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