A disputa entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhou um novo capítulo neste fim de semana e deixou ainda mais evidente que a sucessão política de Jair Bolsonaro já está em curso. Enquanto a ex-primeira-dama tenta ampliar sua atuação com o lançamento do movimento "Imparáveis", o senador do PL recorreu ao maior gesto de respaldo que poderia receber: uma carta escrita à mão pelo ex-presidente em que é chamado de "porta-voz" e pré-candidato ao Palácio do Planalto.
A manifestação de Jair Bolsonaro veio um dia depois de Michelle oficializar o novo movimento voltado à mobilização de mulheres conservadoras e dias após a crise pública entre ela e o enteado. Na carta, o ex-presidente pede que aliados deixem "de lado possíveis diferenças" e se empenhem na pré-candidatura de Flávio, a quem diz confiar para conduzir o projeto político do grupo.
Durante a transmissão, Flávio leu a carta e agradeceu ao pai por apontá-lo como "porta-voz". Segundo o senador, o gesto é importante "para evitar que existam aí falas conflituosas ou direções diferentes" dentro do bolsonarismo. Ao longo da live, ele também disse que Bolsonaro acompanha os desdobramentos políticos e reforçou o apelo por unidade entre os apoiadores.
Imparáveis
Mais do que um gesto de apoio ao filho, a sequência de acontecimentos reforçou as interpretações de que diferentes lideranças disputam espaço dentro do bolsonarismo enquanto Jair Bolsonaro permanece afastado da linha de frente da política.
Para o especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília Eduardo Galvão, ainda é cedo para afirmar que Michelle esteja construindo um projeto paralelo ao PL. O movimento, porém, marca um novo momento de sua trajetória política. "Ela passa a construir uma plataforma própria de mobilização e comunicação. Isso aumenta sua autonomia política e reduz sua dependência das estruturas formais do partido, sem que isso signifique, necessariamente, um rompimento com o bolsonarismo."
Na avaliação dele, as mensagens publicadas por Michelle dialogam com seu eleitorado, especialmente mulheres conservadoras e evangélicas, mas também funcionam como demonstração de força para dentro do próprio bolsonarismo, ao mostrar que ela mantém capacidade de mobilização mesmo fora da estrutura partidária.
Sinalização
A criação do "Imparáveis" também ganhou peso pelo momento em que foi anunciada. Depois de deixar o comando do PL Mulher e tornar pública a crise com Flávio Bolsonaro, Michelle passou a investir em uma identidade política própria, mantendo a mobilização de sua base mesmo fora da estrutura partidária. Dias antes, ela também compartilhou um vídeo de um pastor afirmando que o cônjuge ocupa o lugar mais importante da vida, abaixo apenas de Deus, publicação interpretada por aliados como mais um recado em meio às divergências internas.
Para o jurista e analista político Melillo do Nascimento, a disputa vai muito além de um conflito familiar. "Michelle ajudava a colocar uma almofada no mobiliário político do bolsonarismo. Não mudava necessariamente as ideias da casa, mas tornava o ambiente menos áspero." Segundo ele, justamente por dialogar com um eleitorado em que a direita encontra mais dificuldades, Michelle passou a acumular um capital político próprio.
Na avaliação do especialista, o "Imparáveis" representa mais uma demonstração de autonomia do que um rompimento. "Michelle Bolsonaro não está necessariamente abandonando o bolsonarismo. Ela está deixando claro que não aceita mais ocupar um papel meramente decorativo dentro dele. O 'Imparáveis' pode ser menos o lançamento imediato de uma candidatura e mais uma declaração de autonomia."
Fragilidade
A carta de Bolsonaro lida por Flávio repercutiu no mundo político. O candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, que disputa o campo de eleitores mais á direita, classificou a carta como um “sinal de extrema fragilidade” do candidato do PL. Isso porque, na sua avaliação, Flávio não se coloca como um candidato com ideias e propostas próprias, mas como mero ventríloquo das ideias de seu pai, que, em prisão domiciliar e inelegível, não pode concorrer.
“Nós sabemos muito bem que um pai não nega o pedido de um filho. Agora, você tem que estar preparado para governar, para presidir. Você não pode recorrer, a cada crise, a uma carta do seu pai”.
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