Política

Caso Flávio/Master altera as perspectivas políticas

Partidos focam suas atenções no possível movimento entre os eleitores indecisos

Caso Flávio/Master altera as perspectivas políticas
Partidos focam sua atenção no comportamento dos indecisos após o caso Flávo/Master Crédito: Joédson Alves/Agência Brasil

Os eleitores indecisos. Aqueles que, no meio de um cenário extremamente polarizado, ainda não optaram nem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tenta a reeleição, nem pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário no campo da oposição. Ainda sem pesquisas que tenham medido a repercussão do caso Flávio/Master, os comandos das campanhas tanto do governo como da oposição, seja de Flávio sejam as que tentam surgir como alternativas, passaram a semana tentando decifrar como o caso repercutiu entre os indecisos.

Depois da divulgação do áudio no qual Flávio Bolsonaro pede ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, R$ 134 milhões para financiar Dark Horse, a cinebiografia de seu pai, Jair Bolsonaro, ele e pessoas ligadas a ele e ao filme surgiram com diversas versões desencontradas sobre o que aconteceu. A primeira reação de Flávio foi negar. Depois, admitiu afirmando ter sido uma conversa privada em torno de um contrato oculto para o filme. Então, produtores do filme afirmaram não ter recebido um centavo do Master. A história também acabou envolvendo o irmão de Flávio, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro.

Tomando-se a média das pesquisas mais recentes, que ainda não detectaram o impacto desse fato, Lula e Flávio hoje disputam, cada um, um naco em torno de 40% do eleitorado. Resta, portanto, cerca de 30% que oscilam entre os dois ou entre os demais candidatos. O comportamento a partir de agora desse grupo é considerado essencial. Pode definir a eleição para um dos dois lados. Ou pode mesmo vir a representar o início do avanço de uma força alternativa sobre os dois.

No comando do PSD, partido que tem como candidato o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, esse era o foco da atenção. Começava a medir o tamanho do que os analistas políticos Felipe Nunes e Thomas Traumann chamam de “calcificação”. Por esse conceito, os grupos lulistas e bolsonaristas seriam tão sólidos que nada removeria as suas intenções. Tal calcificação, no entanto, não atingiria a todos os que hoje declaram seu voto nos dois nomes principais da disputa. Saber quantos deles oscilam, somados aos indecisos, passou a ser a grande tarefa.

Trackings

Sem ainda a repercussão das pesquisas oficiais, os comandos das campanhas mediam esses movimentos a partir dos trackings, pesquisas diárias que fazem tal levantamento a partir de grupos menores. No início da semana, trackings feitos pelo Palácio do Planalto já mostravam um avanço de Lula sobre Flávio Bolsonaro.

De uma situação de empate nas simulações de segundo turno, Lula aparecia, nesses trackings, com uma vantagem sobre Flávio de três a quatro pontos percentuais. Na sexta-feira (15), tracking do Instituto Atlas mostrava avanço maior: Lula já aparecia á frente de Flávio sete pontos percentuais.

Pesquisas

Antes do caso Flávio com o Banco Master, já se verificava uma tendência de melhora do atual chefe de Estado. Na quarta-feira (13), pesquisa Genial/Quaest apontava empate técnico em um eventual segundo turno, mas com vantagem de Lula: 42% para o atual presidente contra 41% para Flávio.

Além disso, a aprovação do governo cresceu três pontos (de 43% para 46%) e também foi esse o crescimento de Lula na pesquisa estimulada para o primeiro turno. Para além da crise na imagem de Flávio Bolsonaro com o caso Master, o atual presidente vem apostando suas fichas em um pacote de bondades (como o programa Desenrola 2.0, programa “Brasil contra o Crime Organizado” e o fim das taxas das blusinhas), além do encontro positivo entre Lula e o presidente dos Estados Unidos (EUA) Donald Trump em Washington.

Repercussões

Para além da observação dos números das pesquisas, o caso Flavio/Master movimentou o mundo político, gerando constrangimentos mesmo para eventuais eleitores do senador.

Inicialmente resistente à candidatura de Flávio Bolsonaro, o pastor Silas Malafaia aproximou-se dele recentemente. Nas redes sociais, afirmou esta semana que não fará “juízo de valor a partir de vazamentos seletivos”.

“Eu mesmo já fui vítima dessa porcaria”, disse Malafaia. E emenda dizendo que o PT não teria moral para fazer acusações contra Flávio, elencando diversas notícias que envolvem o partido com o Banco Master. Entre elas: o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que teve um contrato de assessoria com o Master de R$ 1 mlhão por mês; o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, R$ 5 milhões em um contrato de consultoria; a nora do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA); o governo da Bahia, de Jerônimo Santana (PT) pagou 207 precatórios ao Master.

Incômodo, porém, gerou a reação do candidato do Novo à Presidência, Romeu Zema, que fez críticas pesadas a Flávio Bolsonaro logo depois da divulgação da conversa com Vorcaro.
“Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do [Daniel] Vorcaro, é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa. É preciso ter credibilidade para mudar o Brasil”, disse o ex-governador de Minas Gerais.

a reação de Zema, que chegou a ser cotado como possível candidato a vice-presidente na chapa de Flavio, gerou uma crise na campanha de Santa Catarina. A chapa de reeleição do governador Jorginho Mello (PL) tem uma única aliança além do PL: seu candidato a vice-governador é do partido Novo, o ex-prefeito de Joinville Adriano Silva.

Na semana passada, depois das declarações de Zema, a deputada federal Júlia Zanata (PL-SC) gravou um vídeo em suas redes sociais exigindo que Jorginho Mello retire o Novo de sua chapa eleitoral. Em contrapartida, o diretório estadual do Novo em Santa Catarina tenta pôr panos quentes na crise, classificando as afirmações de Zema como “precipitadas”, na intenção de amenizar a situação.

Emendas

Paralelamente ao clima político no Congresso e as expectativas sobre a agenda eleitoral de Flávio Bolsonaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou nesta sexta-feira (15) a abertura de uma investigação preliminar sobre o envio de emendas parlamentares por organizações não governamentais (ONGs) para custear o longa metragem sobre Jair Bolsonaro.

A decisão do magistrado veio após a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) apresentar uma representação de investigação no Ministério Público por desvio de finalidade na aplicação de recursos públicos com o uso das emendas parlamentares para a finalidade. Antes mesmo do vazamento das conversas entre Flávio e Vorcaro, a parlamentar apresentou o pedido de investigação em abril.

Posteriormente, o deputado Pastor Henrique Vieira (Psol-RJ) entrou com outro requerimento acerca do mesmo tema. A investigação é de emendas Pix no valor de R$ 2,6 milhões repassadas para a produção do filme, encaminhadas entre 2024 e 2025, de acordo com documento. A investigação segue sob sigilo.

De acordo com o requerimento, os deputados federais Marcos Pollon (PL-MS), Bia Kicis (PL-DF) e Mário Frias (PL-SP), que também é produtor executivo do filme, enviaram emendas para as ONGs Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura. A presidente do Instituto, Karina Ferreira da Gama, também é produtora executiva do filme.

Em nota, a deputada Bia Kicis comunicou que recebeu a notificação com surpresa e negou qualquer envolvimento de desvio irregular de recursos públicos. Ela diz que “o valor indicado sequer foi pago até o presente momento, inexistindo, portanto, qualquer execução financeira vinculada à referida emenda. “Os recursos foram destinados a um projeto de natureza cultural e educativa, voltado à valorização da história nacional e ao fortalecimento da economia criativa”, escreveu a parlamentar reforçando que usou das emendas parlamentares no audiovisual para financiar um projeto educacional sobre a história do Brasil.

Na mesma linha, Marcos Pollon manifestou que somente repassou recursos via emenda para a série documental “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”.

“Reitero que não houve execução do projeto, nem utilização dos recursos para finalidade diversa daquela originalmente apresentada. Também não houve, em momento algum, destinação desta emenda para o filme “Dark Horse” ou qualquer outro conteúdo audiovisual diferente do previsto inicialmente”, manifestou o parlamentar.