Engenheiros agrônomos, ambientais e florestais ligados à USP e à Unicamp, além de integrantes do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema), realizaram análises independentes que apontam que as árvores extraídas da Praça do Coco, em Barão Geraldo, em Campinas, tinham condições de serem preservadas e não apresentavam necessidade de supressão. (Veja fotos abaixo).
As duas árvores de cerca de 15 metros de altura cada, e com de 50 anos de vida, foram cortadas na terça-feira (28 de abril) pela Prefeitura de Campinas, por meio da empresa terceirizada MB Engenharia, autorizada pela administração municipal para realizar o serviço. A ação gerou forte repercussão e motivou ao menos dois protestos de moradores da cidade e de frequentadores do local, o primeiro no dia seguinte (29) às extrações e o segundo, sábado (2 de maio).
Árvores vivas
Prévias dos laudos finais que estão sendo produzidos pelos engenheiros ambientais, florestais e biólogos das universidades já indicam divergência em relação aos documentos apresentados anteriormente pela Prefeitura e apontam que as árvores “estavam vivas”.
A pesquisadora Stella Palma, bióloga e engenheira agrícola com doutorado pela Unicamp, realizou exames com tomografia ultrassônica, técnica que permite avaliar a estrutura interna da árvore sem causar danos. “As duas árvores que foram extraídas da Praça do Coco não deveriam ter sido retiradas de forma alguma. Elas estavam boas, sim”, afirma a bióloga.
“A gente vê que eram árvores vivas. Quando fizemos a análise, realizamos pequenos furos para contato do transdutor com a madeira, e ela derramou muita seiva. Se ela derramou muita seiva, ela está viva, ela está se alimentando, ela está tendo um fluxo de seiva ali. Ela não deveria ser retirada de forma alguma” afirmou Stella Palma, que atualmente faz pós-doutorado pela FAPESP na área de geração e avaliação de imagens de tomografia ultrassônica em árvores e no aprimoramento da imagem (patente pela professora Raquel Gonçalves, da Faculdade de Engenharia Agrícola (FEAGRI) da Unicamp, que é especialista em métodos não destrutivos para inspeção de estruturas, incluindo madeira e árvores).
Sobre a árvore que foi cortada rente ao solo, totalmente extraída, Stella afirmou: "Pelo que sobrou desta árvore, também não justificava o corte, porque a gente via a umidade ali, a árvore também estava viva. E o pior é que pra fazer isso, eles fizeram podas drásticas em outras árvores boas também. E o que que acontece? 'O molho ficou mais caro que o peixe', porque eles vão ter que fazer um tratamento adequado agora pra essas árvores brotarem e ter folhas novamente, só que não é uma tarefa fácil, porque a gente fala que quando faz essa poda de topiaria, que você tira muita folha de cima, quando nasce, ela nasce em vassourada, fica parecendo uma cabeça de cotonete, sabe? Nasce aquele montinho de folha num lugar só e tudo pra cima", explica.
Segundo a engenheira, a árvore não fica bonita e deverá "ter uma ótima condução, uma boa adubação, uma poda de correção, vai ter que atuar realmente. E acredito que é serviço da prefeitura fazer isso, mas os funcionários precisam estar treinados para isso, não para fazer as podas que eu vejo eles fazerem por aí, que eu acho bem erradas, mas eles são mandados, eles fazem o que é passado para eles, não é culpa deles", afirmou.
“Para piorar, para cortar as duas árvores grandes, foram feitas podas drásticas em outras árvores boas. O resultado é que agora será necessário um tratamento complexo para recuperação. Quando se retira muita copa, a brotação vem desordenada, em ‘vassourada’, o que compromete a estrutura e a estética da árvore”, explicou.
Tomógrafo de impulso
Na sexta-feira (1º), também foi realizado exame com tomógrafo de impulso pela equipe do engenheiro José Hamilton de Aguirre Júnior, membro técnico do Comdema e mestre em Agronomia e Arborização Urbana pela USP.
"Chama a atenção pela forma que foi aprovado. Tivemos acesso ao laudo e é um laudo muito simples - que não deveria ser chamado de laudo -, é um documento de uma página bem superficial que fala de uma situação de risco iminente e que as plantas estavam secas... Nós, como técnicos, não consideramos isso um laudo", afirmou Aguirre Júnior, que também é especialista em Ecologia Unesp e Licenciado em Ciências Agrárias pela USP (2004), graduado em Engenharia Florestal pela USP.
Os especialistas também criticam o modelo de execução do serviço. Segundo eles, a mesma empresa responsável pelo corte atua em diferentes etapas do processo. "São documentos de 1 página, superficiais, feitos pela MB Engenharia: a mesma empresa que corta, transporta parte dos resíduos para a Usina Verde, para compostagem, a qual ela também é responsável pelo funcionamento e abastecimento", explica.
“Há madeira de boa qualidade sendo levada para compostagem, o que é tecnicamente questionável”, disse.
Testemunhas e moradores do entorno relataram que funcionários da empresa MB Engenharia tentaram remover rapidamente, inclusive durante a madrugada, galhos e toras cortadas. Segundo Aguirre Júnior, esse material indicava que não havia comprometimento interno significativo.
Além disso, ao menos duas grandes toras de madeira permaneceram no local, penduradas no alto dos troncos mais altos que restaram na segunda árvore, gerando risco. “A área está isolada por fitas, mas o risco existe”, afirmou.
"A análise de árvore é uma ciência que se baseia na legislação, na boa técnica e na interpretação da aparência fisiológica - o que se chama diagnose visual. É como quando vamos ao médico: ele observa a língua, observa a cor do olho, observa a pele... então são sinais que a planta apresenta", explicou Aguirre.
"Nós fizemos a avaliação mais extensa na sexta-feira (1º). Segundo o engenheiro, as análises seguiram critérios da norma ABNT 16246, com avaliações de níveis 1, 2 e 3, incluindo exame interno da madeira. “Nos dois exames, a árvore indicada para supressão apresentava boas condições de preservação”, disse.
De acordo com Aguirre, no exame realizado na sexta foi verificado que a árvore possui estruturalmente condições plenas de manutenção. 'Nesta situação, é necessário dar condições ao exemplar e monitorá-lo. Adubação, poda correta, limpeza para que possa ser observada a reação dela ao longo do tempo", explicou.
A primeira árvore que foi totalmente extraída não possui nenhum indiciamento de dano estrutural na sessão da base que restou e não necessitava de extração, segundo Hamilton. "A segunda árvore - que não chegou a ser totalmente extraída da praça devido aos protestos de moradores e frequentadores na última terça (28) - é um exemplo do que não se faz em arborização", afirmou.
"A empresa responsável pelo corte é quem elabora o laudo, é quem aprova o laudo, é quem realiza o transporte dos resíduos (troncos, galhos e folhagem) e levada para a Usina Verde. Levar madeira boa como adubo orgânico para compostagem é absurdo", afirma o engenheiro agrônomo e florestal. "Há muita madeira boa que não se sabe o que está sendo feita com ela", afirma.
Ele explica que o método mais aprofundado revelou que os exemplares tinham estrutura adequada, embora necessitasse de manejo e monitoramento. “A árvore não estava perfeita, mas estava em condição de preservação. O correto seria adubação, poda adequada e acompanhamento”, afirmou.
O laudo completo será apresentado ao Comdema e pode subsidiar encaminhamento ao Ministério Público.
Engenheiros da USP, membros técnicos do Comdema e profissionais da Unicamp e Unesp compuseram uma equipe multidisciplinar para comparar metodologias de avaliação. Segundo eles, o documento utilizado pela Prefeitura é insuficiente.
Parceria da Prefeitura com a Unicamp?
De acordo com Stella Palma, a recuperação das árvores remanescentes exigirá manejo adequado e mão de obra qualificada. “Os funcionários executam o que é orientado. O problema está no tipo de intervenção que vem sendo realizado”, ponderou.
Ela também defende que a Prefeitura poderia buscar parcerias com instituições como a Unicamp para aprimorar a política pública de arborização. “São árvores históricas, com valor para a população. Nenhuma árvore viva deveria ser retirada sem uma avaliação criteriosa”, afirmou. De acordo com Palma, nada impede que a Prefeitura solicite para essa equipe da Unicamp para fazer as análises para avaliar a questão das árvores. “São árvores históricas, com apego regional. A Prefeitura poderia aceitar fazer uma parceria com a Unicamp para desenvolver um projeto de política pública que ajudasse a cidade a manter essas árvores, porque nenhuma árvore viva merece ser retirada, que foi o que aconteceu ali na praça, né?”
Árvores poderiam ter sido mantidas
O engenheiro agrônomo Ivan Alvarez da Unesp e USP, que também é membro do Comdema, avaliou o caso e reforçou que os exemplares poderiam ter sido preservados.
“Não havia dano estrutural ou doença que justificasse o corte. Com manejo adequado, essas árvores poderiam ser mantidas”, disse.
A intervenção gerou forte reação de moradores, que realizaram protestos e passaram a acompanhar as ações no local. Relatos sobre retirada acelerada de material vegetal aumentaram a desconfiança em relação ao procedimento.
Uma das árvores foi cortada rente ao solo. Os funcionários da empresa acabaram interrompendo o corte do segundo exemplar antes do previsto, devido à reação e à repercussão negativa por parte dos frequentadores da praça que presenciaram a ação.
O vereador Wagner Romão e a vereadora Mariana Conti (PSOL) participaram de mobilizações. Para Romão, o caso evidencia falhas recorrentes.
“É preciso um estudo muito mais aprofundado antes de considerar a extração como solução”, afirmou.
Ele defende maior transparência e participação da população nos processos decisórios.
Os laudos finais, elaborados pelas equipes, ainda estão em fase de conclusão e devem ser apresentados nesta semana. Os laudos finais, elaborados pelas equipes, devem ser apresentados ao Comdema nos próximos dias e podem ser encaminhados ao Ministério Público, ampliando o debate sobre critérios técnicos e fiscalização da arborização urbana em Campinas.
Prefeitura defende cortes
Em nota, a Prefeitura de Campinas informou que: duas árvores de grande porte foram suprimidas na Praça do Coco por apresentarem comprometimento estrutural e risco de queda; a decisão foi baseada em critérios técnicos e em laudos elaborados por profissionais do Departamento de Parques e Jardins e têm fé pública; os exemplares estavam secos, sem condições de recuperação e representavam risco; já havia recebido solicitações de frequentadores da praça pedindo providências. A administração afirmou que é sua responsabilidade, civil e criminal, prevenir acidentes provocados por quedas de árvores.
Sobre os danos registrados durante a intervenção, a Prefeitura informou que, devido ao porte dos exemplares, uma floreira foi atingida e será refeita, além da realização de limpeza e manutenção no playground. O município também informou que ainda resta a remoção de um tronco e a destoca do sistema radicular no local, etapa necessária para o plantio de novas árvores.
Como compensação, a Prefeitura afirmou que serão plantados dois exemplares de jequitibá-rosa na área.
Por fim, destacou que o manejo arbóreo segue a Lei de Arborização Urbana (Lei nº 11.571/2003) e que, desde 2021, já foram plantadas 965 árvores no distrito de Barão Geraldo.