Por: Moara Semeghini - Campinas

Corte de árvores na Praça do Coco, em Barão Geraldo, gera forte repercussão e revolta moradores de Campinas

A retirada de árvores e a realização de podas consideradas drásticas na tradicional Praça do Coco, em Barão Geraldo, em Campinas, provocaram forte repercussão | Foto: Eliana Lorenzetti/Arquivo Pessoal

A retirada de árvores e a realização de podas consideradas drásticas na tradicional Praça do Coco, em Barão Geraldo, em Campinas, provocaram forte repercussão e indignação entre moradores e frequentadores da região nesta terça-feira.

A reportagem recebeu denúncias sobre a intervenção, executada por uma empresa terceirizada da Prefeitura. Imagens mostram a supressão de uma árvore de grande porte, aparentemente saudável, além de cortes severos em outras árvores da praça.

Além das intervenções na arborização, há relatos de danos a equipamentos públicos, como floreiras, bancos e estruturas da área infantil. Segundo informações de moradores, o serviço faz parte de um conjunto de ações que pode se estender até os próximos dias e teria como justificativa a poda de árvores com risco de queda. No entanto, frequentadores contestam a necessidade das medidas adotadas.

A intervenção na arborização da Praça do Coco ganhou novos contornos após críticas técnicas feitas por especialistas, mesmo após a Prefeitura apresentar justificativas para o corte de árvores no local. (Confira a resposta da Prefeitura abaixo).

Engenheiro florestal e agrônomo, mestre em arborização urbana e integrante do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema), José Hamilton de Aguirre Junior, aponta possíveis falhas na execução do serviço que, segundo ele, podem ter agravado a situação. “A Prefeitura apresentou laudo para a supressão de quatro árvores e afirmou em sua resposta oficial que apenas duas foram retiradas. Além disso, durante a operação, outras árvores saudáveis foram atingidas pela queda de ramos e por podas sem técnica adequada que descaracterizaram e desequilibraram suas estruturas”, afirmou.

Segundo o especialista, houve indícios de falhas técnicas durante a execução. “Há sinais de descuido na operação, possivelmente pela ausência de acompanhamento técnico adequado. Ao que parece, pelos resultados desastrosos, foi que não houve o ancoragem e cuidado na descida dos ramos, que devem ter tido queda livre ao solo. Não houve o balanceamento correto dos ramos ao redor das árvores, durante sua poda (ou quebra dos ramos das árvores suprimidas sobre essas árvores), o que acabou provocando danos adicionais”, explicou.

Ele também relata impactos além da vegetação: “O problema não se limitou às árvores. Houve quebra de brinquedos, floreiras e estruturas do parquinho, o que indica falta de controle e de planejamento corretos na execução do serviço.” Ainda de acordo com José Hamilton, o resultado pode ser ainda mais preocupante.

“Esse tipo de intervenção pode ter transformado árvores saudáveis em exemplares de risco, devido aos danos estruturais causados, pela quebra e poda sem técnica de suas copas. O local perdeu grande área de sombreamento, proteção e conforto térmico, numa grande clareira, que precisa ser compensada imediatamente pelo plantio de exemplares já grandes."

Intervenção gera questionamentos

A reportagem recebeu denúncias e imagens que mostram a retirada de uma árvore de grande porte, além de podas severas em outros exemplares. Moradores e frequentadores contestam a necessidade das intervenções e relatam preocupação com a descaracterização da praça, um dos espaços públicos mais tradicionais de Barão Geraldo.

Conselho de Meio Ambiente

O presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema), Tiago Fernandes Lira, classificou o episódio como mais um retrocesso na política de arborização urbana da cidade.
“É um patrimônio que se perde. Talvez a sociedade ainda não tenha dimensão do que está acontecendo com a arborização urbana de Campinas”, afirmou.

Segundo ele, o conselho vem há anos alertando sobre problemas na condução da política ambiental.
“Infelizmente, é só retrocesso. A arborização não tem sido tratada como patrimônio ambiental e paisagístico”, disse.

Lira também destacou que as árvores da Praça do Coco têm valor histórico, tendo sido plantadas por uma das mais antigas organizações ambientais da cidade, com décadas de atuação na defesa da biodiversidade.
Vereador critica intervenção e pede suspensão dos trabalhos.


O vereador Wagner Romão (PT) afirmou que a Praça do Coco foi “depredada” durante a ação realizada pela empresa terceirizada da Prefeitura.


“A principal praça de Barão Geraldo foi literalmente depredada. Uma árvore de grande porte, aparentemente saudável, foi extraída com base em laudo, enquanto outras sofreram podas extremamente drásticas, o que compromete sua sobrevivência”, declarou.


Segundo ele, a intervenção também causou danos à estrutura do espaço público.

“Houve quebra de floreiras, bancos e da grade de proteção da área infantil, o que aumentou ainda mais a revolta de quem frequenta o local.”

Romão afirmou ainda que acionou diretamente o secretário de Serviços Públicos e o vice-prefeito, solicitando a suspensão imediata da ação.

O advogado Augusto César Gandolfo, membro da Associação Protetora da Diversidades das Espécies de Campinas (Proesp), disse que é preciso priorizar a preservação e o respeito ao meio ambiente e à população. “Não podemos permitir que a onda de ataque às árvores da cidade continue dessa forma”, disse.

"Os cortes rasos e podas indiscriminadas de árvores passou do aceitável, mesmo porque com legislação protetiva com regras claras a Prefeitura adota o fato consumado, subtraindo qualquer participação da cidadania, notadamente de técnicos capacitados dos ambientalistas e suas associações.

Há uma metáfora evidenciada, o corte dos indivíduos arbóreos representa o profundo desprezo da Municipalidade em mediar o diálogo com os entes envolvidos.

Em tempos outros os prefeitos/a primavam por respeitar a sociedade civil organizada e atendê-los em suas reivindicações. Novos tempos, com novos cortes sem cortesias, triste modernidade."

Prefeitura

A Prefeitura de Campinas apresentou laudo técnico que indicava a necessidade de supressão de quatro árvores e afirmou que duas já foram efetivamente removidas pois apontavam risco.

Segundo a administração, as árvores apresentavam copas totalmente secas e raízes aparentes, características que indicariam possibilidade de queda. A Prefeitura afirmou ainda que a medida foi adotada para garantir a segurança dos frequentadores, especialmente porque as copas estavam sobre a área de playground.

A Secretaria também destacou que a supressão segue a legislação municipal, conforme a Lei de Arborização Urbana (Lei nº 11.571/2003), e informou que haverá replantio de espécies adequadas no local.

Sobre os danos à estrutura da praça, como brinquedos e outros equipamentos, a Prefeitura afirmou que os reparos terão início a partir desta quarta-feira (29).

Debate sobre modelo de arborização

O caso reacende o debate sobre o modelo de gestão da arborização urbana em Campinas, tema que já foi alvo de críticas em outras ocasiões.

Moradores e especialistas cobram maior transparência, planejamento técnico e preservação do patrimônio ambiental da cidade, especialmente em áreas públicas amplamente utilizadas pela população.