Por: Moara Semeghini - Campinas

Campinas confirma duas mortes de pacientes com superbactéria

Hospital Mario Gatti | Foto: Carlos Bassan/Prefeitura de Campinas

A Prefeitura de Campinas confirmou a morte de dois pacientes que estavam internados em uma área isolada da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Mário Gatti e que foram infectados com a bactéria multirresistente KPC (Klebsiella pneumoniae Carbapenemase). A Rede Municipal Dr. Mário Gatti informou que as causas das mortes não tiveram relação com a infecção pela KPC.

Atualmente, oito pacientes seguem com a KPC internados na unidade de terapia intensiva. Um deles havia sido transferido para a enfermaria, mas precisou retornar à UTI. 

A presença da bactéria levou ao fechamento temporário da UTI para novas internações no início de março, após a identificação dos primeiros casos. Desde então, a passa por um processo de reestruturação para reforçar o controle epidemiológico e reduzir o risco de transmissão.

De acordo com a Rede Mário Gatti, a normalização do atendimento está prevista para ocorrer em até 30 dias, prazo que começou a contar em 14 de março, quando tiveram início as obras de reforma da UTI. A intervenção já está na segunda fase: um setor com sete leitos foi concluído, enquanto os trabalhos avançam agora em outra ala, com 13 leitos.

As intervenções incluem limpeza dos dutos de ar-condicionado, manutenção da rede de gases medicinais, criação de antecâmaras para isolamento, delimitação dos leitos, além de pintura e troca de torneiras. Segundo o hospital, as mudanças visam melhorar as condições estruturais e reforçar as medidas de prevenção de infecções.

Enquanto as obras são realizadas, os pacientes que não estão com a bactéria, e que já estavam internados no início do surto, foram realocados em uma UTI contingencial criada dentro do hospital. Já os pacientes com KPC permanecem isolados em leitos específicos, com equipe exclusiva de atendimento.

A rede municipal informou que, após a conclusão da reforma, os pacientes serão novamente transferidos para a UTI principal, que voltará a receber novos casos. Os pacientes com a bactéria continuarão em áreas isoladas.

Desde o início do surto, o hospital afirma ter adotado medidas rigorosas de controle, seguindo orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH). Entre as ações estão o isolamento dos pacientes, uso de equipamentos de proteção, intensificação da higienização das mãos, monitoramento por exames e restrição de circulação na unidade.

Também foram reforçadas a limpeza e desinfecção dos ambientes, além de treinamentos contínuos das equipes assistenciais e incentivo ao uso racional de antibióticos.

O cenário ocorre em meio à pressão sobre a rede pública de saúde em Campinas. Dados recentes indicam que hospitais que atendem pelo Sistema Único de Saúde (SUS) operam próximos do limite ou acima da capacidade. O Hospital de Clínicas da Unicamp registra ocupação elevada na emergência, enquanto unidades da Rede Mário Gatti e o Hospital Ouro Verde operam com taxas próximas de 100% dos leitos. Já o Hospital PUC-Campinas tem informado que o pronto-socorro que atende pacientes do SUS segue operando acima da capacidade, com registros frequentes de superlotação e pacientes acomodados em macas nos corredores devido à alta demanda.

Superbactéria

A KPC (Klebsiella pneumoniae Carbapenemase) é uma superbactéria multirresistente comum em ambientes hospitalares, capaz de produzir uma enzima que neutraliza antibióticos potentes, incluindo os carbapenêmicos, usados em infecções graves. O microrganismo pode provocar quadros como pneumonia, infecções urinárias, respiratórias e infecções da corrente sanguínea, e apresenta alta taxa de mortalidade em pacientes vulneráveis. O tratamento costuma ser limitado a poucos medicamentos disponíveis, como as polimixinas.

A bactéria pertence ao grupo da Klebsiella pneumoniae, considerada uma das mais perigosas do mundo devido à sua resistência a antibióticos e capacidade de causar infecções hospitalares graves. Em 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o microrganismo na categoria “crítica”, o nível mais alto de preocupação em sua lista de bactérias contra as quais o desenvolvimento de novos medicamentos é considerado urgente.

Segundo especialistas, esses microrganismos evoluíram ao longo dos anos e desenvolveram mecanismos capazes de driblar antibióticos existentes, o que dificulta o tratamento das infecções.

No caso do Hospital Mário Gatti, a presença da bactéria foi identificada durante o monitoramento de rotina realizado pelas equipes assistenciais e pela Comissão de Controle de Infecção Hospitalar.

Embora a KPC seja considerada relativamente comum em ambientes hospitalares de alta complexidade, neste episódio houve dificuldade em conter a disseminação entre pacientes da UTI, o que levou à adoção de medidas emergenciais.

Como parte do plano de contingência, a UTI adulto foi temporariamente fechada para novas internações. A medida tem o objetivo de interromper a transmissão da bactéria e reforçar as ações de controle e segurança dentro da unidade.

Diante desse contexto, a suspensão temporária de leitos de UTI no Mário Gatti impacta a organização da rede, que precisa redistribuir pacientes para outras unidades durante o período de restrição.