Por: Moara Semeghini - Campinas

Licitação do transporte de Campinas recebe seis propostas de cinco grupos na Bolsa de Valores

Sessão de recebimento das propostas da licitação do transporte na B3 (Bolsa de Valores), em São Paulo | Foto: Divulgação/Emdec

A licitação que vai definir as empresas responsáveis pelo transporte público coletivo de Campinas pelos próximos 15 anos recebeu, na manhã desta quarta-feira (25), seis propostas apresentadas por cinco grupos interessados. A entrega dos envelopes ocorreu na sede da B3, a Bolsa de Valores de São Paulo.

O contrato é estimado em R$ 11 bilhões e é considerado um dos mais relevantes da mobilidade urbana do município. O processo também se destaca pelo longo histórico de suspensões, reformulações e tentativas frustradas desde 2016.

Primeira etapa concluída

Nesta fase, foram entregues os envelopes de credenciamento e garantias financeiras (Envelope 1), analisados em sessão pública realizada às 12h30. A próxima etapa está marcada para 5 de março, quando serão abertos os envelopes com as propostas comerciais (Envelope 2), também na B3.

A concorrência prevê ainda uma terceira fase (Envelope 3), destinada à verificação da documentação de habilitação da empresa ou consórcio vencedor.

Correções após apontamentos do TCE

A entrega das propostas havia sido inicialmente marcada para 10 de fevereiro, mas foi adiada em 15 dias após o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo apontar inconsistências técnicas no edital.

Segundo a Prefeitura, o principal problema estava no cálculo do Fator de Utilização (FU), índice que define quantos profissionais são necessários por veículo para garantir a operação do sistema, considerando férias, folgas e afastamentos. Também foram indicadas falhas na estimativa de benefícios trabalhistas.

Em nota, a Secretaria Municipal de Transportes (Setransp) e a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas informaram que optaram por corrigir as planilhas antes da sessão pública para evitar novos atrasos.

Modelo e investimentos previstos

O edital prevê concessão por 15 anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco. O sistema será dividido em dois lotes: Norte (regiões Norte, Oeste e Noroeste) e Sul (regiões Leste, Sul e Sudoeste).

Os investimentos estimados incluem cerca de R$ 1,7 bilhão para renovação da frota ao longo do contrato, além de recursos para tecnologia embarcada, terminais e estações, totalizando aproximadamente R$ 1,9 bilhão.

A administração municipal afirma que o modelo separa a tarifa pública paga pelo usuário da tarifa de remuneração das operadoras, permitindo políticas de subsídio e gratuidades, desde que respeitadas as regras fiscais.

Processo se arrasta desde 2016

A nova licitação é aguardada desde que o TCE considerou irregular a concorrência realizada em 2005. Desde então, o processo acumulou suspensões judiciais, determinações de reformulação do edital e uma licitação declarada deserta em setembro de 2023, quando não houve interessados.

Com os contratos atuais próximos do vencimento, a etapa desta quarta-feira é considerada decisiva para a definição do futuro modelo do transporte coletivo da cidade.

Avaliação técnica

Para o mestre em Planejamento Urbano Ayrton Camargo e Silva, ex-diretor da Emdec, dois pontos devem ser observados: a legalidade do processo e a qualidade do desenho da rede.

Ele defende rigor no cumprimento das determinações dos órgãos de controle e destaca que a nova concessão precisa garantir prioridade viária ao transporte coletivo, com faixas exclusivas e melhor fluidez operacional.

“O transporte coletivo precisa ser competitivo, eficiente e inclusivo. Não basta cumprir a norma; é necessário estruturar uma rede que atenda toda a população e reduza impactos ambientais”, afirma.

A abertura das propostas comerciais em março deverá indicar se o processo finalmente avança para encerrar uma das mais longas disputas administrativas da mobilidade urbana em Campinas.