Por: Moara Semeghini - Campinas

Licitação bilionária do transporte público de Campinas entra em nova fase na Bolsa de Valores

Entrega dos envelopes será em sessão na sede da Bolsa de Valores (B3), em São Paulo | Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

A licitação que vai definir as empresas responsáveis pelo transporte público coletivo de Campinas pelos próximos 15 anos entra em nova fase nesta quarta-feira (25), com a entrega dos envelopes pelas empresas interessadas e a abertura da sessão pública inicial na sede da B3, em São Paulo. O contrato é estimado em R$ 11 bilhões e é considerado um dos mais relevantes da mobilidade urbana do município, além de um dos mais longos e complexos processos administrativos da cidade.

As empresas deverão entregar os envelopes entre 10h e 12h. Às 12h30 está prevista a abertura da documentação de credenciamento e das garantias financeiras. A etapa seguinte, com a abertura das propostas comerciais, está marcada para 5 de março.

Acesso alterado

Por causa de obras de requalificação nos calçadões do Centro Histórico de São Paulo, o acesso ao prédio da B3 foi modificado. A entrada pela Rua XV de Novembro, 275, está parcialmente interditada. A entrega dos documentos e o acesso à sessão pública ocorrerão exclusivamente pela Rua Álvares Penteado, 218.

A alteração foi comunicada pela Secretaria Municipal de Transportes (Setransp), responsável pela condução do processo.

Adiamento após apontamentos do TCE

Inicialmente prevista para 10 de fevereiro, a entrega dos envelopes foi adiada em 15 dias após o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo apontar inconsistências técnicas no edital.

Segundo a prefeitura, o principal problema estava no cálculo do Fator de Utilização (FU), índice que define quantos profissionais são necessários, em média, por veículo para garantir a operação do sistema, considerando férias, folgas, afastamentos e turnos. Também foram identificadas falhas na estimativa de benefícios trabalhistas, que não contemplavam integralmente os encargos legais.

Em nota, a Setransp e a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas informaram que optaram por corrigir os dados antes da sessão pública para evitar atrasos maiores no processo.

Como será a concorrência

A disputa será dividida em três etapas:

Envelope 1 – Credenciamento e garantias: comprovação da habilitação inicial e apresentação das garantias financeiras.

Envelope 2 – Propostas de valores: apresentação das ofertas comerciais e realização de lances, em sessão pública na B3.

Envelope 3 – Documentação de habilitação: aberto apenas após a definição da proposta vencedora, para confirmação do cumprimento das exigências legais e técnicas.

A melhor proposta será considerada vencedora, desde que atenda a todos os requisitos de habilitação.

Investimentos e modelo proposto

O edital prevê concessão por 15 anos, com possibilidade de prorrogação por mais cinco. O sistema será dividido em dois lotes: Norte (regiões Norte, Oeste e Noroeste) e Sul (regiões Leste, Sul e Sudoeste).

Os investimentos previstos incluem cerca de R$ 1,7 bilhão para renovação da frota ao longo do contrato, além de recursos para tecnologia embarcada, terminais e estações, podendo chegar a R$ 1,9 bilhão.

A prefeitura afirma que o modelo separa a tarifa pública paga pelo usuário da tarifa de remuneração das operadoras, permitindo políticas de subsídios e gratuidades, desde que respeitadas as regras fiscais.

Uma “novela” de quase dez anos

A nova licitação é aguardada desde 2016, após o TCE considerar irregular a concorrência realizada em 2005. Desde então, o processo acumulou suspensões judiciais, reformulações de edital e tentativas frustradas.

Em 2019, o edital lançado pela prefeitura foi suspenso. Em 2023, já reformulado, o processo foi novamente questionado e precisou de ajustes em 14 itens por determinação do TCE. Em setembro daquele ano, a licitação chegou a ocorrer, mas foi declarada deserta por falta de interessados, obrigando a administração a reiniciar o procedimento.

Se não houver propostas novamente, o município poderá enfrentar dificuldades, já que os contratos atuais vencem neste ano e não possuem previsão de novas prorrogações, o que poderia exigir contratação emergencial para garantir a continuidade do serviço.

Avaliação técnica

Para o mestre em Planejamento Urbano Ayrton Camargo e Silva, ex-diretor da Emdec, dois eixos centrais devem nortear o debate: a legalidade do processo e a qualidade do desenho da rede.

Ele destaca a importância do rigor no cumprimento das determinações dos órgãos de controle. “Há uma necessidade de absoluto respeito e obediência aos órgãos reguladores”, afirma.

Na avaliação do especialista, a longa demora indica que o modelo ainda enfrenta desafios estruturais. “Um edital que está há quase dez anos em discussão e ainda não encontrou seu caminho perfeitamente é um fator de preocupação”, diz.

Silva defende que a discussão avance além das exigências burocráticas e priorize a eficiência operacional do sistema. Para ele, é fundamental garantir canaletas exclusivas, faixas dedicadas e prioridade semafórica para os ônibus.

“O transporte coletivo precisa parar basicamente nos pontos de embarque e desembarque. Se o ônibus circula melhor, consome menos diesel, polui menos e reduz impactos na saúde pública”, avalia.

O urbanista também ressalta a necessidade de diversidade de serviços e inclusão social. “É preciso pensar em cobertura ampla, linhas expressas e paradoras, serviços seletivos, política de descontos ou assinaturas. Isso define inclusão.”

Para ele, a cidade precisa aproveitar a nova concessão para estruturar uma rede inteligente, sustentável e competitiva. “Cidade inteligente não é a que tem a tecnologia mais nova, mas a que tem mobilidade baseada em transporte coletivo eficiente”, conclui.