O depoimento de Daniel Vorcaro à Polícia Federal (PF), previsto para esta quinta-feira (20), foi adiado a pedido da defesa. O ex-banqueiro seria ouvido sobre suspeitas de que teria aliciado e corrompido servidores do Banco Central (BC) para obter informações sigilosas e tentar influenciar decisões relacionadas ao Banco Master. Uma nova data ainda não foi definida.
O pedido ocorre em um momento de mudança na estratégia jurídica de Vorcaro. O criminalista Daniel Bialski passou a integrar a defesa neste mês, ao lado de Sérgio Leonardo, e solicitou acesso ao conteúdo das investigações antes que o cliente volte a prestar depoimento. A justificativa é que o novo advogado precisa analisar os autos e as provas para definir a linha de atuação.
A troca de advogado também recolocou no centro das discussões a possibilidade de uma nova tentativa de delação premiada. Vorcaro já havia apresentado duas propostas de colaboração, rejeitadas pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). As autoridades agora admitem reabrir as negociações, mas condicionam um eventual acordo a uma colaboração considerada completa e à revelação de bens e recursos mantidos no exterior.
A mudança representa uma mudança em relação à estratégia que vinha sendo discutida anteriormente pela defesa. Bialski afirmou que Vorcaro "quer falar e quer colaborar" caso tenha a oportunidade. O advogado também buscou uma audiência com o ministro André Mendonça, relator dos inquéritos do caso Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF).
A tentativa de aproximação com Mendonça, no entanto, encontrou uma limitação. O ministro afirmou que não negocia condições de acordos de colaboração premiada com advogados. Assim, eventual negociação precisa ocorrer nos canais próprios com os investigadores e o Ministério Público, sem que o relator do caso estabeleça previamente os termos de uma delação.
O adiamento do depoimento ocorre justamente quando a investigação ganhou novos elementos sobre a relação de Vorcaro com servidores do Banco Central. A PF identificou um grupo de WhatsApp formado pelo banqueiro e pelos então servidores Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, no qual teriam sido compartilhados documentos e informações internas do órgão. Os dois são investigados por possível favorecimento ao Banco Master e negam irregularidades.
Segundo as investigações, as conversas tratavam de documentos, reuniões e estratégias relacionadas à situação do banco. Os investigadores também apuram suspeitas de que os servidores tenham recebido vantagens indevidas. Ao mesmo tempo, informações obtidas pela Folha mostram que ambos participaram de reuniões com a própria PF sobre o caso Master antes de se tornarem formalmente suspeitos.
A possibilidade de uma terceira proposta de delação também mudou de cenário nas últimas semanas. Investigadores passaram a considerar que uma colaboração de Vorcaro ainda poderia ser útil, sobretudo para localizar e recuperar ativos supostamente desviados. Para isso, porém, esperam que o ex-banqueiro apresente informações novas, revele integralmente seu patrimônio e não faça uma colaboração seletiva.
Esse ponto é relevante porque as duas tentativas anteriores não avançaram. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a avaliação dos investigadores foi de que Vorcaro apresentou informações que já eram conhecidas ou não ofereceu elementos considerados suficientes para justificar os benefícios de uma colaboração. A defesa, por sua vez, passou a estudar uma nova abordagem após a chegada de Bialski.
O caso envolve diferentes frentes de investigação sobre o Banco Master, incluindo suspeitas de fraude financeira, corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução. A liquidação extrajudicial da instituição ocorreu em novembro de 2025, e Vorcaro permanece preso enquanto as investigações avançam.
Além da investigação criminal, outras frentes continuam abertas. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) marcou para 8 de setembro o julgamento de um processo que envolve Vorcaro, familiares e outras pessoas ligadas ao Banco Master por suspeitas de irregularidades no mercado de capitais.
Nesse contexto, o adiamento do depoimento permite à nova equipe jurídica estudar o material reunido pela PF antes de uma nova oitiva e, ao mesmo tempo, avaliar se existe espaço concreto para uma nova tentativa de colaboração. A eventual delação, porém, ainda não está fechada e dependerá da aceitação das autoridades e do conteúdo que Vorcaro estiver disposto a apresentar.
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