O Brasil tem aproximadamente 15,8 a 16 milhões de empreendedores negros (pretos e pardos), o que representa cerca de 52,3% de todos os donos de pequenos negócios no Brasil. Esse grupo ultrapassa o de empreendedores brancos, que somam cerca de 14 milhões. Em termos de evolução, o número de empreendedores negros cresceu mais de 30% nos últimos 13 anos, acompanhando a expansão geral do empreendedorismo no país.
Apesar da maioria no mercado, esse grupo ainda enfrenta obstáculos para crescer e se consolidar. Dados do Sebrae indicam que apenas 26% dos empreendedores negros conseguem acesso a crédito formal. No mesmo período analisado, a renda média desse público foi de R$ 2.477, enquanto entre empreendedores brancos chegou a R$ 4.607. Mais de 70% estão concentrados em serviços e comércio de pequeno porte.
As diferenças de renda e acesso a financiamento ajudam a explicar o cenário de maior dificuldade enfrentado por negócios liderados por pessoas negras, principalmente em etapas de expansão, formalização e investimento em estrutura.
Nesse cenário, uma escola especializada em "Afronegócios" na cidade de São Paulo está promovendo nesta semana, de forma gratuita e online, uma formação voltada exclusivamente a empreendedores negros. A programação teve início na segunda-feira e termina nesta quinta(15), das 19h30 às 21h, com temas que abordam planejamento estratégico, gestão financeira, vendas, tecnologia e desenvolvimento de negócios. São cinco encontros com especialistas em estratégia, finanças, vendas, tecnologia e contexto histórico do empreendedorismo negro.
A iniciativa integra um conjunto de ações da instituição voltadas à formação empreendedora com recorte racial, considerando desafios estruturais que impactam diretamente o desempenho de pequenos negócios no país. A proposta é oferecer capacitação prática aliada a conteúdos de gestão e fortalecimento de identidade no empreendedorismo.
Para as fundadoras da Escola "Gira Afronegócios", Maria Rita Araújo e Janaína Martins, parte dos cursos tradicionais de empreendedorismo não considera as especificidades vividas por empreendedores negros no mercado brasileiro. “O problema não é falta de capacidade. É que a maior parte da educação empreendedora no Brasil não foi construída a partir da nossa realidade. A Gira não simplifica gestão — ela traduz”, afirma Maria Rita Araújo.
Novos empreendedores negros
Além do conteúdo técnico, o curso online teve como objetivo estimular conexões entre empreendedores de diferentes regiões do país, ampliando redes de apoio e troca de experiências. A expectativa da organização é alcançar entre 800 e 1.000 empreendedores negros nos próximos 12 meses, com a realização de cursos, mentorias e jornadas formativas.
De acordo com Janaína Martins, o fortalecimento desses negócios tem impacto direto nas comunidades onde estão inseridos. “Quando um negócio negro prospera, ele não cresce sozinho. Ele movimenta rede, renda e comunidade”, destaca.