Com biografia acidentada, a cantora francesa Édith Piaf ultrapassou seu próprio tempo, transformando-se numa das maiores vozes do século XX. Infância pobre, abandonada pela mãe, perambulando pelas ruas com o pai, casamentos frustrados, morte da única filha, viciada em cigarros e bebidas alcóolicas, atormentada física e psicologicamente, a artista reuniu elementos que favoreceram uma narrativa dramática.
Católica fervorosa e devota de Santa Terezinha, aprumou-se e trilhou um caminho repleto de tropeços, desde seu começo num cabaré na Champs-Elysées até os píncaros da glória no Carnegie Hall. "Piaf - Eu Não Me Arrependo", com texto de Newton Moreno e Alessandro Toller é fluido, na medida que organiza uma carpintaria dimensionando a tragicidade dos fatos. Os autores determinam que "La Vie em Rose", "Hymne à l'amour", "Mon Dieu", "Non, Je Ne Regrett Rien" estabeleçam novos rumos na linguagem dramatúrgica.
Amparado por uma requintada produção da Aventura, sob o comando de Aniela Jordan e Luiz Calainho, o diretor Sergio Módena aposta numa estética visual grandiosa, recortando as lembranças da artista. Cenas movimentadas em pequenos palcos sobre rodas, remetem à vida circense e ao espaço no qual Piaf estruturou seu apogeu, dinamizando a montagem.
Laila Garin abrilhanta-se todo o tempo e consagra seu posto como uma das maiores intérpretes do teatro brasileiro diante de sua técnica irrepreensível que sustenta uma Piaf emocionante. Viveu Elis Regina e Joana, de "Gota D'Água, Selminha, de "O Beijo no Asfalto", em musicais, enobreceu "As centenárias", seu penúltimo espetáculo, configurando uma carreira sólida, entre vários prêmios e indicações. Uma musculatura vocal sustenta vibratos e melismas, nos quais a audiência se regozija.
É tocante quando canta para os presidiários franceses. O grito silencioso ao receber a notícia do falecimento de seu amado pugilista é impressionante. No segundo ato, Garin agiganta-se e desenvolve uma corporeidade impactante, apoiada pelo ótimo Alonso Barros, com um gestual contido transporta-nos a dor da personagem, mas ao final da última canção, o corpo revive e se compreende todo o talento da diva.
A Momone de Luciana Ramanzini é bem elaborada, tanto na concepção dramática quanto nos estados cômicos. Bruna Pazinato fulgura ótima posição cênica. Erika Riba diverte sua Santa, enquanto Leonardo Ventura impõe segurança nas personagens. Martina Blink trafega bem. Patrick Amstalden brilha, sobretudo, em Marcel. Claudio Lins se sai melhor em Jean Cocteau, mas Bernardo Berro apresenta dicção comprometida, mesmo no bom desenho de seu Leplée. Gabriel Vicente, Thiago Marinho, Bruno Ospedal, Carol Lippi, Shantala Marthins, Vitor Veiga e Vinicius Cosant completam o elenco, que canta lindamente.
A direção musical de Cláudia Elizeu é primorosa. A cenografia de André Cortez ostenta e delimita os espaços, com estrutura vazada e aparatos que descem do urdimento. Karen Brusttolin mantém o vestido preto como marca registrada da cantora, as atrizes apresentam graus diferentes de sobriedade e exuberância, enquanto ternos, suspensórios e calças de cintura alta se referem ao vestiário masculino do início do século passado. Feliciano San Roman e Keila Santos acertam no visagismo e maquiagem. A luz de Wagner Antônio abusa das ribaltas, ressalta a angústia, além de demarcar as ambiências.
Tomara que o legado de Bibi Ferreira e, agora, o de Laila Garin possam impulsionar Piaf a se perpetuar nos palcos brasileiros.
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