Teatro

A radiografia de uma exclusão

'A Metamorfose', de Kafka, ganha adaptação do Anêmona Teatro que leva ao palco reflexões sobre a utilidade (ou não) de quem nada oferece à sociedade

A radiografia de uma exclusão
Transformado em um inseto gigante, o vendedor Gregor Samsa deixa de ser um elemento produtivo em sua família Crédito: Divulgação

Após temorada no CCBB RJ, o Espaço Armazém, da Fundição Progresso, recebe "A Metamorfose", criação do Anêmona Teatro a partir da novela mais célebre de Franz Kafka, publicada em 1915. A adaptação, escrita e dirigida por Jopa Moraes, nos coloca diante da sensacionalista história de Gregor Samsa, um vendedor ambulante que acorda transformado em um enorme e repulsivo inseto cujo primeiro pensamento não é o espanto com a situação insólita, mas a preocupação com o horário de trabalho.

Através desta metáfora, Kafka descreve o que há de perturbador na existência moderna. E é essa lógica que a adaptação do Anêmona adota no palco: aberta a narração em terceira pessoa, a dramaturgia de Jopa dramatiza os acontecimentos da novela, potencializa as demais personagens e constrói ações físicas que dão contorno aos seus dilemas. Mantendo-se fiel à ordem dos acontecimentos da trama, a montagem ressalta o horror e o humor desconcertante de Kafka, tantas vezes escondidos atrás da fachada austera.

A história é a de uma família tentando sobreviver e se manter unida perante uma irremediável metamorfose. Há carinho pelo jovem, principalmente da irmã mais nova, mas há também a constante e crescente sensação de mal-estar com sua presença. Para o pai, a mãe e a irmã, a conta não fecha: sem o dinheiro que ele trazia para a mesa, o esforço para manter viva e segura a colossal barata que agora é Gregor vai pouco a pouco deixando de fazer sentido. O curioso é que, antes da transformação, quase não parava em casa — passava o tempo em trânsito em viagens de trabalho.

Em tempos em que se debate no Brasil as consequências da escala 6x1, a história ganha contornos novos. Afinal, quando Gregor acorda de sonhos intranquilos, o primeiro pensamento que cruza sua mente é que precisa ir trabalhar, mesmo sem saber comandar corretamente as patas. Aqui Kafka expõe a cruel constatação de que para o jovem vendedor ambulante não existe, nem existirá, vida além do trabalho.

No jogo cênico proposto por Jopa, o palco é terreno de materialização das imagens perturbadoras criadas pelo escritor de Praga. Através de um figurino que mistura indumentária e manipulação de bonecos, concebido por Dimi Rumbelsperger e construído pelo aderecista Alex Grilli, o monstruoso inseto aparece de forma concreta aos olhos do público.

"Tudo o que sabemos sobre Gregor Samsa antes de sua transformação é que era um sujeito vivendo sob imensa pressão financeira e afetiva. Trabalhando de sol a sol, quase sem descanso, para sustentar sozinho uma família de quatro pessoas", destaca o encenador.

Jopa comenta ainda que no texto original há pistas de que Gregor seja um sujeito doce vivendo em um mundo profundamente hostil.

"No entanto, Kafka mesmo não se interessa em explicar se há ou não conexão entre a situação pregressa da personagem e sua nova forma de inseto. Aos leitores e espectadores resta especular, e, mais do que isso, conviver com a sensação incômoda de que aquele inseto, aquela barata gigante também é gente como a gente. Por isso era tão importante pra gente materializar o inseto em cena sem enfeite nenhum", acrescenta.

Vivido por Vitor Schei, explorando a gama do arsenal físico do ator, o espetáculo expõe a rotina perturbadora de Gregor, descobrindo como habitar sua nova carapaça. O choque recebido pela família — Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária — aparece sem enfeite nenhum, fugindo dos simbolismos que aproximariam a história de um melodrama. A direção musical é de Gustavo Gomes; a iluminação e a cenografia, do próprio diretor.

O verdadeiro julgamento, porém, se dá na cabeça de cada espectador que, presenciando as escolhas impossíveis a que as personagens são obrigadas, talvez possa se perguntar, como sugere Clarice Lispector: "eu sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?" Até onde alguém se transforma e permanece sendo quem é? Por quanto tempo se pode amar alguém que não dá nada em troca? "Cada um de nós pode sim ser uma praga na visão de uma ou de muitas pessoas", afirma Jopa.

SERVIÇO

A METAMORFOSE

Espaço Armazém Cia. de Teatro (Fundição Progresso - Rua dos Arcos, 24, Lapa)

Até 15/11, quinta a sábado* (19h30) e domingos** (19h)

*exceto 31/10 (18h30), 1/11 (19h30) e 26/10 (19h30)

**Sem apresentação em 25/10

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)