Há histórias que não terminam quando as cortinas se fecham. Permanecem na memória, provocam reflexões e encontram novas maneiras de dialogar com o presente. É o que acontece com “A Cor Púrpura, o Musical”, que encerra neste domingo, 25 de outubro, sua quinta temporada no Rio de Janeiro, no Teatro Multiplan, no Shopping VillageMall. Mais do que uma despedida dos palcos cariocas, a montagem reafirma a atualidade de uma obra que transforma sofrimento em resistência e silenciamento em voz.
No centro dessa jornada está Celie, interpretada por Suzana Santana. Mulher negra no sul dos Estados Unidos da primeira metade do século XX, ela cresce em meio à violência, à opressão e à ausência de escolhas. Separada da irmã Nettie, vivida por Lola Borges, e submetida a um casamento com Mister, personagem de Wladimir Pinheiro, Celie precisa percorrer um longo caminho até descobrir que sua existência não se resume às imposições que lhe foram feitas.
Essa transformação ganha força nos encontros com mulheres que desafiam as regras de seu tempo. Sofia, interpretada por Flávia Santana, e a cantora Shug Avery, vivida por Aline Serra, ajudam a protagonista a reconhecer outras possibilidades de afeto, autonomia e liberdade. A história, então, deixa de ser apenas um retrato da dor para se tornar também uma celebração da capacidade de recomeçar.
Baseado no romance de Alice Walker, publicado em 1982, o musical aborda questões que atravessam gerações: racismo, machismo, abuso de poder e violência contra a mulher. A obra literária rendeu à autora o Prêmio Pulitzer de Ficção, tornando-a a primeira mulher negra a conquistar a distinção. No palco, essas questões ganham corpo e emoção por meio de uma trilha que mistura gospel, blues, jazz e ragtime, acompanhando as diferentes fases da vida de Celie.
A trajetória da obra também passou pelo cinema, em uma adaptação dirigida por Steven Spielberg, em 1985, indicada a 11 Oscars, e chegou à Broadway em formato musical. Em 2015, uma nova produção conquistou o Tony Award de Melhor Revival de Musical, consolidando a permanência dessa narrativa no teatro internacional.
Na versão brasileira, a direção geral e a concepção original são assinadas por Tadeu Aguiar, responsável por levar o espetáculo aos palcos nacionais em 2019. A montagem reúne 18 atores, 90 figurinos, palco giratório de seis metros e uma estrutura cênica que amplia o impacto visual da encenação. Desde a estreia, acumula mais de 100 prêmios, indicações e honrarias, além de passagens por diferentes cidades do país.
Para Aguiar, a escolha da obra também foi uma decisão artística e humana. O diretor destaca a importância de contar uma história sobre uma mulher que vence, a representatividade negra e feminina e a capacidade de emocionar sem abrir mão do humor.
Ao se despedir do Rio, “A Cor Púrpura, o Musical” deixa uma reflexão que ultrapassa o palco: reconhecer a própria voz pode ser o primeiro passo para mudar uma história. E algumas narrativas, justamente por continuarem necessárias, nunca saem verdadeiramente de cena.
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