Ao rememorar sua ancestralidade, Eduardo Barata idealiza uma festa paraense evocada no palco. Escreve, com parceria de Elaine Moreira e pesquisa de Claudia Chaves, um texto deleitoso revelando-se uma ode ao teatro, às mulheres e aos nortistas, nos quais a dramaturgia aglutina espinhas dorsais complementando-se.
A narrativa é situada no condomínio Galharufa, em Copacabana, potencializando fatos históricos da trajetória profissional de oito artistas renomadas encontrando-se pela primeira em vez em cena, contribuindo para a sustentação de um resgate afetivo.
O diretor Eduardo Barata utiliza a memória como veículo poético em imagens impactantes. Decola seu espetáculo ao distribuir atores pelo público na procissão do Círio de Nazaré. A saudação da Ave Maria que apresenta as atrizes é tocante. Disponibiliza suas protagonistas para contarem suas histórias emocionantes, amalgamando suas experiências artísticas ao discutirem a problemática condominial, numa referência clara ao ritual de passagem que um ator iniciante é apadrinhado por outro experiente. Movimenta com expertise seu elenco coadjuvante, que apoia a encenação.
Bete Mendes cita Camila Amado, Yara Amaral, Chica Xavier, Isabel Ribeiro, Vanda Lacerda, Aracy Balabanian, Françoise Forton, Glória Menezes e Laura Cardoso, com fotos irrompendo o proscênio. Emocionada, lembra a galharufa que ganhou de Eva Wilma numa sala de ensaio conduzida pelo mestre Antunes Filho. Ítala Nandi relembra o Teatro Oficina e o primeiro nu no teatro brasileiro em plena ditadura. Ivone Hoffman recorda que a dança a levou para o teatro e que Rubens Corrêa a socorreu para que ficasse no Rio. Maria Pompeu declama Vinícius de Moraes e comanda a oração do teatro, num momento pleno onde todos dão as mãos. Mariah da Penha rememora sua estada no grupo de Amir Haddad e a indicação ao Leão de Ouro concedida à Ruth de Souza. Veluma lembra o brilho de Tônia Carrero e Maria Della Costa, revelando ser a primeira manequim negra que desfilou sem alisar as madeixas. Hildegard Angel conta que trabalhou com Zé Celso em peça que virou a madrugada, e de sua trajetória como atriz ao lado de José Wilker e Tereza Rachel. Todas amparadas por Duda Barata, Cesar Werneck, Amanda Lívia, Madu Emmerick, Juliane Andrade, Jhessy S, Miguel Petereit, Morgana Bernabucci e Giuliano Laffayette, além de Bárbára Vento, Camila Gonzalez, Maria Luiza Tonacio e Rohl. Joana Fomm não estava na sessão assistida.
A cenografia de Rostand Albuquerque remete à palha e aos barcos de miriti, originários do Pará. O figurino de Rute Alves valoriza as cores paraenses, com destaque para o vestido de Duda Barata ao cantar lindamente. Elisa Tandeta privilegia o azul para reminiscências. A direção musical de Marco André é embalada pelo carimbó, lambada, homenageando Fáfá de Belém, Joelma, entre outras.
Barata institui o afeto e faz com que o Pará, os artistas e o teatro não caiam em obsolescência.
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