Teatro

E a sarjeta sobe ao palco

Companhia Nós Que Tá encena 'Zé', espetáculo que resgata a dignidade de uma das entidades mais estigmatizadas da cultura afro-brasileira

E a sarjeta sobe ao palco
A montagem derruba o hitórico de tabu e preconceito relacionados à figura de Zé Pelintra Crédito: Divulgação

José de Aguiar nasceu por volta de 1813 em Alhandra, na Paraíba — filho de indígena com negro, agricultor, rezador, mestre da Jurema. Ao morrer, dizem que centenário, transmutou-se em entidade e ganhou o mundo espiritual como Zé Pelintra, Príncipe da Jurema, chefe da falange dos malandros. Protetor dos pobres, dos boêmios, dos desvalidos. "Advogado dos pobres", no vocabulário dos terreiros. Mas o racismo estrutural que nos assola reduziu tudo isso a uma caricatura e a entidade foi associada à figura do pilantra, marginal e perigoso.

Foi contra esse apagamento que Ramon Cazuza, diretor da Companhia de Teatro Nós Que Tá — grupo independente há 12 anos, nascido na Zona Oeste e hoje expandido para outras regiões cariocas — decidiu ocupar o palco com "Zé". "A criação do espetáculo não nasce por mero recurso estético ou oportunidade cênica. Surge de uma urgência visceral em confrontar o preconceito histórico e resgatar a verdade de uma das entidades mais populares, emblemáticas e injustamente estigmatizadas da cultura afro-brasileira", explica o encenador.

Dramática e ritualística, a montagem mergulha nas origens, na jornada e no encantamento dessa figura mitológica. A narrativa costura a vivência do homem comum à transmutação na entidade espiritual, explorando a linha tênue entre a sobrevivência nas ruas e a caridade divina.

O cenário se divide entre o sagrado e o boêmio, com referências à religiosidade popular, ao Catimbó, à Jurema e à Lapa carioca — territórios que, na vida real, Zé Pelintra percorreu como ninguém. Afinal, foi nas macumbas cariocas que o mestre juremeiro vindo do Nordeste ganhou terno branco, chapéu panamá e cigarro, tornando-se o rei da malandragem das ruas e madrugadas.

A trajetória de Cazuza preparou o terreno para esse gesto. O trabalho anterior, "Maria no Fio da Navalha", criado a partir da história de sua própria mãe, Maria José, e inspirado na falange de Maria Navalha — considerada a primeira Pomba-Gira brasileira, carioca do bairro da Gamboa —, obteve êxito estrondoso. O universo da Jurema e da Umbanda, naturalmente, pediu a complementariedade. "Essa caminhada evoluiu naturalmente para o consagrado espetáculo 'Zé com Navalha', onde o samba, a macumba e o teatro se fundem em uma celebração viva", conta o diretor.

No palco, a história acompanha a trajetória de Zé desde a miséria no Nordeste até a capital, onde é acolhido por Clementina no casarão. Sob seus ensinamentos, aprende os segredos da noite, do jogo, do respeito às mulheres e da verdadeira malandragem — assimilando que "amor é só de mãe e de Jesus de Nazaré". O duplo cênico sustenta a arquitetura do espetáculo: Zé das Almas encarna a cura, a fé e a sabedoria ancestral; Zé do Morro traz a vivência das ruas, o preconceito e o samba. Juntos, dramatizam os dilemas do protagonista perante a boemia e a navalha.

As interações com figuras marcantes como Pretinha, a apaixonada, e a Cigana revelam as contradições do herói boêmio: o profundo respeito pelo sagrado feminino e a fatalidade de um destino traçado pelo amor e pela rua. Embalada por batuques, pontos cantados e versos marcantes, a obra exalta a cultura popular, a resistência periférica e a transformação da dor em poesia e proteção.

Para Cazuza, ocupar grandes teatros com Zé Pelintra é um ato de reparação histórica. É tirar da marginalidade a memória e o valor de quem sempre acolheu os marginalizados — o "advogado dos pobres" que, nas sarjetas e nos terreiros, nunca precisou de atestado de respeitabilidade. Não se trata de folclorizar ou romantizar uma entidade. Trata-se de restituir densidade a uma figura que traduz, a seu modo, os desafios dos desvalidos de toda sorte, sobretudo os homens negros que, para sobreviver sem dinheiro nem oportunidades, tiveram de dar seu "jeito".

SERVIÇO

Teatro Ruth de Souza (Rua Murtinho Nobre, 169, Santa Teresa)

Até 23/8, sábado e domingo (17h) | Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)