Correio da Manhã
Teatro

Encontro de almas

Encontro
de almas

Oprimoroso "A Vida Passou Por Aqui", 10 anos em cartaz, arrebatou o Prêmio APTR de Teatro como Melhor Texto para Claudia Mauro, além de indicações de Melhor Atriz e Melhor Dramaturgia Original. Alguns espetáculos são bem-sucedidos por algumas funções, aqui tudo converge para o acerto. A dramaturgia, das melhores do teatro nos últimos anos, é o portal que evidencia a delicadeza da amizade.

Silvia, professora e artista plástica, padeceu de um AVC, tornando-se solitária e amargurada, mas foi acolhida por Floriano, faxineiro de costumes singelos, enriquecido de bom humor, transformando a dor que a vida pode açoitar em amparo, no qual regozija-se somente com a pureza de uma alma evoluída. Os dois afinaram-se ainda jovens e agora, décadas depois, o querido amigo a visita numa casa de repouso, discutem a doença de ambos, rememoram uma trajetória repleta de afetos e sobretudo de amor ao próximo. A autora nos presenteia com um flaschback, que invade as lembranças, atestando que a vida é tragicômica por natureza.

A direção de Alice Borges intensifica esse envolvimento que a narrativa elabora, valorizando cada segundo da montagem. As passagens de cena são precisas. Orienta seu elenco, com apoio de Larissa Brascher, numa velocidade admirável que teatraliza a obra, além de conduzir minimalisticamente seu espetáculo, favorecendo uma sintonia com a audiência.

Há uma pulcritude além da apresentação: a união dos intérpretes. É tocante e altamente adequado ao contexto essa equalização de almas, pelas quais somos conquistados. Claudia Mauro desenha, sem estereotipar, uma senhora angustiada, arquitetando emoções em tintas suaves, já que seu próprio texto organiza a tragicidade que a personagem vivencia. A atriz, num outro diapasão, trafega nas memórias com exuberância. Édio Nunes está esfuziante, tamanho o prazer que transborda a personagem, além da entrega atoral. Recheado de camadas, o ator exibe perfeito domínio cênico. Movimenta-se quase nada quando encontram-se no asilo, mas uma dinâmica interior é produzida pelo talento dos atores. Os dois expressam uma corporeidade instigante, dançam animadamente, transmitindo uma satisfação incomensurável.

A cenografia realista de Nello Marrese localiza vários ambientes no mesmo plano, onde a luz de Paulo César Medeiros focaliza com sensibilidade os acontecimentos. Ana Roque entraja o elenco em tons pastéis no presente, como se a vida estivesse esmaecida, todavia aquece Silvia em tons avermelhados no echarpe, faixa no cabelo e sapatos, na metáfora do sangue vital que corria outrora nas entranhas da personagem. As coreografias de Édio Nunes são criativas. Chico Buarque, Elis Regina, entre outros, compõem a trilha sonora nostálgica e elegante de Claudio Lins e Patricia Mauro.

Inspirada pela própria história, a autora sinaliza-nos que a vida passa e que devamos aproveitar o aqui e o agora, porque nem todos são afortunados pela verdadeira amizade.

SERVIÇO

A VIDA PASSOU POR AQUI

Teatro Fashion Mall (Estr. da Gávea, 899, São Conrado)

Até 30/8, sextas (20h), sábados (18h) e domingos (19h)

Ingressos R$ 120 e R$ 60 (meia)