Correio da Manhã
Teatro

A mulher que desafiou o deserto

Espetáculo 'Agar' reconstrói a história de resiliência da matriarca do povo árabe

A mulher que desafiou o deserto
Espetáculo com Tatiana Henrique, Hebert Said e Sheila Martins em cartaz até o dia 26 de julho no Teatro Sesc Copacabana Crédito: Rodrigo Menezes/Divulgação

A jornada de uma mulher egípcia que enfrentou o deserto sem água, sem comida e sem direitos reconhecidos chega ao palco do Sesc Copacabana a partir desta quinta-feira (9). "Agar" reconstrói a trajetória dessa figura milenar descrita no Corão, na Bíblia e na Torá, figura central das tradições religiosas abraâmicas. Mãe de Ismael, patriarca do povo árabe, Agar é muito mais do que um nome em textos sagrados: é uma mulher que exigiu seu lugar no mundo.

A peça, dirigida pela Obalufônica (coordenada por Tatiana Henrique e Hebert Said), traz a narrativa poética e visceral do momento em que Agar e seu filho Ismael atravessam o deserto à beira da morte. Nesse cenário de escassez extrema, a dramaturgia entrelaça questões culturais e políticas contemporâneas: direito à existência, direito ao território, direito à herança. "Todos os povos têm direito de existir. As comunidades originárias têm o direito ao espaço em que vivem", afirmam os criadores. O espetáculo parte de um conceito de patrimônio imaterial que entende o território não apenas como um chão, mas como fundamento existencial de um povo.

Na teologia contemporânea, Agar é amplamente estudada como símbolo das minorias, das mulheres marginalizadas e dos sobreviventes. Uma mulher estrangeira que foi escravizada e exilada, mas que teve contato direto com o divino — segundo os textos sagrados, recebeu revelações de Deus/Alá — e garantiu o futuro de sua linhagem por sua própria força. Essa dimensão política e espiritual é exatamente o que o espetáculo resgata: não a passividade de uma personagem secundária, mas a agência de uma mulher que resistiu e transformou sua história em fundação de um povo.

Tatiana Henrique interpreta Agar; Hebert Said, Ismael; e Sheila Martins, Deusa. A produção marca mais um trabalho da Obalufônica, que há cerca de 25 anos atua em pesquisas artísticas sobre linguagens culturais africanas, afro-brasileiras, dos povos originários brasileiros e indianas. Entre suas criações estão "Oro", "Contos de Orí", "Ògún pèlé o!" e "Nuang, caminhos da liberdade".

Para Tatiana Henrique, a importância da peça vai além do palco. "Sempre conversamos sobre o quanto é importante saber sobre as nossas origens para tanto nos entender intimamente quanto a questões sociais e políticas. Eu pesquiso teatro negro, Hebert é neto de refugiados sírios que aqui se juntaram com indígenas e pretos também. Essa história é como um reencontro nosso com África e Ásia, pretos e árabes. Isso faz muito sentido pra gente." A narrativa, portanto, dialoga com experiências pessoais dos criadores e com questões que atravessam o Brasil contemporâneo — migração, refúgio, direito ao território e pertencimento.

A acessibilidade é um pilar do trabalho. LIBRAS está presente em todas as 16 apresentações como dispositivo poético integrado à cena. "Consideramos que a LIBRAS é uma das línguas ancestrais, então apostamos nisso como uma surpresa cênica para o público", explicam os diretores. Além disso, a dramaturgia é apresentada em português, copta e árabe, com legendas cênicas para pessoas surdas não-falantes de LIBRAS e para o público em geral.

SERVIÇO

AGAR

Teatro Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 26/7, quintas e sextas (20h30), sábados e domingos (19h)*

Ingressos: R$ 40, R$ 36 (conveniados), R$ 28 (sócio Sesc), R$ 20 (meia) e grátis (PCG)

*Acessibilidade: LIBRAS em todas as sessões | Audiodescrição aos domingos | Legendas cênicas em português, copta e árabe