A figura do indivíduo que decide aplicar a lei por conta própria é um arquétipo recorrente na ficção, mas raramente é explorada com a densidade psicológica proposta em "Absolvição". O monólogo, que iniciou temporada no Teatro Poeira esta semana, ocupa o Teatro Poeira até o dia 26. A montagem traz o ator Andriu Freitas na pele de um homem comum que, movido por traumas do passado, assume a missão obsessiva de caçar abusadores.
Sob a direção de Daniel Herz, a peça evita o maniqueísmo tradicional do gênero suspense para focar nas engrenagens mentais de alguém que se coloca simultaneamente como juiz, júri e executor, questionando o que separa a busca por reparação do simples ato criminoso.
O texto é de autoria do dramaturgo irlandês Owen O'Neill, com tradução assinada por Diego Teza. Para construir a narrativa, O'Neill realizou um processo de imersão que incluiu entrevistas com diversos homens que sofreram abusos durante a infância. Esse lastro documental reflete-se na estrutura da peça, que utiliza saltos temporais para descascar as camadas de proteção do protagonista.
A dramaturgia não segue uma linha cronológica linear; ela mimetiza a fragmentação da memória traumática, revelando aos poucos os eventos que transformaram um cidadão comum em um vigilante. Existe na própria ideia de absolvição uma ambiguidade que remetendo tanto ao perdão espiritual buscado no confessionário quanto ao veredito de inocência em um tribunal. E é nesses dois espaços onde o personagem busca validação para suas ações.
Na montagem brasileira, Andriu Freitas assume o desafio de sustentar a tensão no palco, alternando entre a frieza do executor e a vulnerabilidade da vítima que ainda habita o personagem.
Segundo o ator, a obra não entrega conclusões prontas. "Pelo contrário, ela instiga o público a pensar sobre as instituições que deveriam nos proteger, sobre a dor que molda nossas escolhas e sobre os limites da ética e da lei", afirma Freitas. Essa provocação é o cerne da encenação, que coloca o público na posição de confidente de um homem cujas ações desafiam o contrato social básico da vida em sociedade.
A direção de Daniel Herz opta por uma estética que privilegia a plasticidade cênica sem desviar o foco da palavra. As movimentações no palco materializam as histórias narradas. Para o enecenador, a força do espetáculo reside justamente na zona cinzenta em que o texto se equilibra. "O texto lança uma provocação ao público que inevitavelmente vai sair do teatro tomado por essas perguntas. Também provoca um estado contraditório e me parece que é disso que são feitos os bons textos de teatro", explica o diretor, revelando o propósito de não apenas contar uma história de crime, mas criar um ambiente de desconforto para nossos intelectual e sentidos.
Internacionalmente, o texto de O'Neill já havia demonstrado sua força ao ser apresentado no Festival Fringe de Edimburgo, além de palcos em Nova York e Londres.
"Absolvição" recusa frontalmente noções simplistas de moralismo. Temos aqui um convite à análise num momento em que o debate sobre segurança pública e falhas institucionais está vivo nas pautas da sociedade brasileira. Ao expor as vísceras de um homem que se sente abandonado pelo sistema, a montagem questiona se a vingança pode, de fato, oferecer algum tipo de cura ou se ela apenas perpetua o estado de barbárie. Suas mãos são de justiceiro ou de carrasco? Embora cometa atos atrozes, o personagem o faz em nome de uma causa que muitos considerariam justa. Um curto-circuito ético é o que levamos para nossas casas após a encenação.
Sem recorrer a artifícios melodramáticos, a produção entrega uma experiência de suspense psicológico que faz do palco um tribunal informal, onde o público é convidado a exercer o papel de testemunha de uma tragédia humana que se repete silenciosamente lá fora, longe das paredes do teatro.
SERVIÇO
ABSOLVIÇÃO
Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 — Botafogo)
Até 26/8, terças e quartas-feiras (20h)
Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)
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