Um dos textos mais emblemáticos da dramaturgia brasileira volta aos palcos cariocas. "A Moratória", de Jorge Andrade, ganha nova encenação sob a direção de Daniel Herz, que propõe uma leitura contemporânea do clássico escrito nos anos 1950. Após uma curta temporada no Teatro dos 4, em março, a produção chega Teatro Laura Alvim, com apresentações às sextas e sábados às 20h, e domingos às 19h.
O espetáculo é fruto de uma parceria entre o produtor Marcos Arzua, que convidou a Cia. Churros de Polvo e Daniel Herz para levar à cena este clássico do teatro brasileiro. A proposta é reexaminar a obra a partir de uma perspectiva atual, porém mantendo a força do texto original. "'A Moratória' fala da queda de um mundo e da dificuldade de aceitar o fim. Mais do que uma crise econômica, a peça expõe personagens que tentam adiar a perda, suspender o tempo e preservar identidades que já não se sustentam", explica Herz sobre sua abordagem.
Escrita em 1954, a peça retrata o colapso de uma família tradicional diante da perda de status social e da incapacidade de adaptação a um mundo em transformação. Ao abordar a decadência das elites agrárias após a crise do café de 1929, o texto expõe tensões econômicas, afetivas e morais que ainda ecoam em nossa sociedade. A crise de 1929 afetou profundamente o Brasil, então dependente da exportação de café. Com a queda dos preços internacionais, a economia cafeeira entrou em colapso, transformando a vida das famílias que haviam construído suas fortunas nesse ciclo.
O processo de criação da montagem começou com um intenso trabalho de contextualização e imersão histórica, ministrado por Marcos Arzua. Antes mesmo do início dos ensaios de cena, o elenco foi convidado a mergulhar no universo social, econômico e cultural que atravessa a obra de Jorge Andrade. Como parte dessa pesquisa, os atores visitaram diferentes lugares ligados à história do café e à formação econômica do país. No Rio, o grupo esteve no Centro Cultural Banco do Brasil, edifício que já abrigou a antiga Bolsa de Valores, além de diversos pontos históricos da cidade. Entre os locais visitados estão também a Floresta da Tijuca e o Parque Lage, áreas que no século XIX sofreram intenso desmatamento para a plantação de café.
A pesquisa seguiu para o Vale do Café, com destaque para a cidade de Vassouras. O elenco visitou a Casa da Hera, importante patrimônio histórico da região e o único imóvel que mantém preservados seus interiores e mobiliário originais de época. O casarão terminou pertencendo a Eufrásia Teixeira Leite, cuja atuação foi fundamental para a preservação da memória ligada ao ciclo do café. Esse trabalho de imersão reflete uma escolha dramatúrgica clara: não apenas encenar a peça, mas compreender profundamente o contexto que a gerou.
O elenco é composto por Aldrin Cordeiro, Ana Clara Winter, André Andrade, Bruno Jugend, Fernanda Sarriá, Marcela Garcia, Raphael Montenegro e Rebeca Souza. Como escolha dramatúrgica da encenação, os personagens Lucília, Marcelo e a tia Elvira são interpretados em sistema de revezamento entre os integrantes da companhia.
A ficha técnica reúne profissionais consolidados no teatro carioca: iluminação de Aurélio de Simone, cenografia de José Dias, direção de movimento de Marcia Rubin, música de Marcello H e figurino de Wanderley Gomes.
Jorge Andrade (1922-1984) foi um dos dramaturgos mais importantes da história do teatro brasileiro. Nascido em Uberaba (MG) e formação em direito e jornalismo, dedicou-se à escrita teatral a partir dos anos 1950, período em que produziu suas obras mais significativas. Sua dramaturgia se caracteriza 0pela investigação profunda de temas como identidade nacional, transformação social e conflitos familiares, sempre ancorada em contextos históricos específicos.
"A Moratória" consolidou sua reputação como dramaturgo. A peça recebeu o Prêmio Saci em 1955 e desde então permanece como referência obrigatória nos estudos de teatro brasileiro. Além de A Moratória, Andrade escreveu outras obras importantes como "Homenagem a Dulcineia" (1955) e "Os Ossos do Barão" (1957), todas explorando a decadência de estruturas sociais e a dificuldade de adaptação humana diante de transformações históricas.
SERVIÇO
A MORATÓRIA
Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 - Ipanema)
De 5 a 28/6, às sextas e sábados (20h) e domingos (19h), sem sessões nos dias 13 e 19 em função dos jogos do Brasil na Copa
Ingressos: R$ 50 e R$ 25
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