Correio da Manhã
Teatro

A perda que destrói

'Veneno', texto da dramatuga holandesa Lot Vekemans já encenado em mais de 30 países, chega aos palcos cariocas em junho

A perda que destrói

Depois de uma tempoarada aclamada em São Paulo, o espetáculo "Veneno" chega aos palcos cariocas a partir do dia 3 de junho. A montagem, baseada no texto da dramaturga holandesa Lot Vekemans, entra em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ). A peça, que já circulou por mais de 30 países, coloca em cena um reencontro improvável: dois ex-cônjuges se veem obrigados a se encontrar em um cemitério, dez anos após a morte do filho único.

O encontro se dá depois de uma carta anunciando que o corpo precisaria ser removido devido à contaminação do solo por veneno. A partir desse ponto, o texto de Vekemans desanda em diálogos que expõem ressentimentos acumulados, culpas não resolvidas e o ajuste de contas que o tempo não fechou. O sofrimento compartilhado une e, paradoxalmente, separa duas pessoas que viveram a mesma tragédia.

No elenco, Alexandre Galindo e Cléo De Páris interpretam o casal. Galindo, que também atua na direção de produção, destaca a profundidade da dramaturgia de Vekemans. Segundo ele, autora consegue apresentar duas visões diferentes sobre o luto sem cair em simplificações maniqueístas. "È isso o que torna o texto muito instigante e repleto de camadas que o fazem profundo e tocante", comenta.

De Páris, por sua vez, celebrou a chegada ao Rio, afirmando que fazer temporada no CCBB tem "um peso muito especial dentro da cena cultural brasileira". A montagem brasileira consolidou-se como uma referência importante no circuito paulista antes de chegar ao Rio, com a direção de criação coletiva e tradução de Mariângela Guimarães.

Lot Vekemans, dramaturga, escritora e roteirista holandesa de 60 anos, é conhecida por sua capacidade de abordar temas universais com precisão emocional. Em 2010, recebeu o Taalunie Toneelschrijfprijs — prêmio que reconhece as melhores peças de teatro em língua holandesa — justamente por "Gif" (título original de "Veneno"). Desde então, sua obra circulou por teatros europeus, asiáticos e americanos, consolidando-se como uma das dramaturgias mais traduzidas do continente. A peça também ganhou adaptações em outros formatos e continua sendo montada regularmente em diferentes países, incluindo Portugal, onde recebeu encenações recentes.

O que torna a encenação de "Veneno" particularmente relevante é sua recusa em oferecer respostas prontas e acabadas. A dramaturgia de Lot Vekemans não se atreve a resolver o luto dos personagens nem do espectador. Em vez disso, mapeia o território do sofrimento com precisão cirúrgica, reconhecendo que mesmo nas perdas mais profundas, a vida segue com suas ironias e absurdos. Há momentos de leveza, até de humor, que brilham justamente porque contrastam com a densidade emocional do todo, gerando aquele incômodo de se ver refletido em uma dor que não é a sua, mas que poderia ser.