Correio da Manhã
Teatro

Mais louco é quem nos diz que não é feliz

Celebração dionisíaca da liberdade, 'Elogio da Loucura', de Erasmo de Rotterdam, ganha corpo, alma e verdade ao virar a argamassa da volta de Leona Cavalli a palcos cariocas

Mais louco é quem nos diz que não é feliz
Leona Cavalli revela sua surpresa com a atualidade dos escritos de Erasmo de Roterdam Crédito: Annelize Tozetto/Divulgação

 

Sínteses da artesania por trás do verbo "viver", frases como "Não merece o doce quem não experimentou o amargo" compõem a filosofia de Erasmo de Rotterdam, pensador que viveu e escreveu nos Países Baixos até 1536 e celebrou a dimensão dionisíaca da existência no livro "Elogio da Loucura" (1511), um clássico da produção filosófica de seu tempo.

Cravejada de alusões ao mundo clássico, como era da natureza da prosa contemporânea ao Renascimento, sua escrita vai da sátira ao testamento. Inventaria as cicatrizes e as gargalhadas de uma entidade que existe para nos lembrar o quanto a liberdade é viciante. Mete o sarrafo na violência quando lhe cabe, vide o parágrafo: "os parasitas, os proxenetas, os ladrões, os sicários, os boçais, os estúpidos, os falidos e, em geral, toda a escória social pode aspirar muito mais à imortalidade da guerra do que os homens que vivem dia e noite absorvidos na contemplação".

Desde quinta-feira, no Rio, as páginas de Erasmo ganham saliva... e com ela poesia... ao saltarem dos lábios da atriz Leona Cavalli, numa encenação de visceralidade à flor da pele, em cartaz no CCBB-RJ. "O texto é uma possibilidade de reflexão sobre o mundo, por meio de um panorama geral da loucura que a gente vive na contemporaneidade", diz Leona, a Anna Magnani de Rosário do Sul (RS), ao Correio da Manhã.

"Diante de tanto ódio que nos cerca hoje, numa sociedade cada vez mais polarizada, essa obra propõe: 'o delírio mais feliz de todos é o daqueles que amam'. Vejo esse amor no caminho das artes, um caminho que se mantém livre diante de todas as dualidades que nos cercam. Mas não deixa de ser um caminho das pedras, de luta".

Uma força da natureza em cena quando entra em cena, Leona Cavalli começou sua carreira sob a direção de José Celso Martinez Corrêa (1937-2023), encarando algo de podre que havia no reino da Dinamarca num "Hamlet" (de 1993) pelo qual foi indicada como Melhor Atriz ao prêmio APCA, como Ofélia. Foi à Grécia com as "Bacantes" (1996) e flanou pelas memórias do TBC em "Cacilda!" (1999). Foi Prêmio Shell com sua atuação como Geni, no rodriguiano "Toda Nudez Será Castigada" (2002), e atravessou gloriosamente "uma rua chamada Pecado" como a Blanche Dubois do "A Streetcar Named Desire", de Tennessee Williams, 2002. Em ambas as peças, foi dirigida por Cibele Forjaz. Fez de um tudo (de bom) sob as luzes da ribalta, a se destacar a delicinha "Procuro o Homem da Minha Vida, Marido Já Tive", dirigida por Eduardo Figueiredo, seu parceiro na adaptação de Erasmo de Rotterdam para a cena.

"Fiquei encantada com o texto de Erasmo, surpresa de perceber o quanto permanece atual, mesmo tendo sido escrito no século XVI. Durante a pandemia, em busca de projetos para o ciclo Teatro Online do Sesc, fizemos 'Elogio da Loucura' e ela acabou se tornando uma das montagens mais acessadas desse circuito. A Loucura nele é uma comunicadora", diz Leona, celebrizada no cinema em "Um Céu de Estrelas" (1996) e "Amarelo Manga" (2002).

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Retrato do pensador Erasmo de Roterdam feito por Hans Holbein | Foto: Kunstmuseum Basel

Segundo Erasmo, a Loucura se compara a um dos deuses e se diz nascida nas lendárias Ilhas Afortunadas. É filha de Plutão, deus das riquezas, e da ninfa Neotetes (signo da juventude), amamentada por duas graciosíssimas mulheres, Mete (a Embriaguez) e Apédia (a Imperícia). Por companheiros de sua errância estão Philautia (amor-próprio), Kolaxia (adulação), Lethes (esquecimento), Misoponia (horror à fadiga), Hedoné (volúpia), Ania (irreflexão), Trophis (delícia), Komo (o riso e o prazer da mesa) e Nigreton Hypnon (sono profundo).

"A Loucura fala para a ágora e, no aspecto interno, ela aponta uma separação da ciência e da Igreja como força de coroação de sua sabedoria", diz Leona.

Inédita até agora no Rio de Janeiro, "Elogio da Loucura" foi sucesso de público e crítica em São Paulo, algumas capitais do Brasil (Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília, Salvador) e, ainda, em cidades do interior de SP. O espetáculo do CCBB-RJ é pontuado com música ao vivo, executada pelos talentosos Daniel Líbano (violoncelo) e César LiRa (percussão). A trilha sonora transita entre o popular e o erudito, o contemporâneo e os ritmos étnicos. A voz em off em cena de Antonio Petrin. Os figurinos são de Kelly Siqueira e Mariana Baffa e o design de luz é de Gabriele Souza.

"Eu fui me entendendo como ser humano no palco", diz a atriz, ao frisar a dinâmica de aprendizado que cada encenação de "Elogio da Loucura" abre. "O teatro é meu chão".

SERVIÇO

ELOGIO DA LOUCURA

Centro Cultural Banco do Brasil (Rua Primeiro de Março, 66 - Centro)

Até 28/6, de quinta a sábado (19h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia) à venda na bilheteria ou pelo site wwww.bb.com.br/cultura